Eugène Green filma "A Religiosa Portuguesa" à luz das velas

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Os filmes de Eugène Green não se parecem com mais nada. Acaba de rodar "A Religiosa Portuguesa", reavivando uma história do século XVII na Lisboa dos "graffiti".

O Mesa de Frades, em Alfama, tem uma existência curta e uma reputação grande. Especialistas dir-vos-ão que é dos melhores sítios em Lisboa para ouvir fado. Numa noite de sorte, Camané pode estar na mesa ao lado, espectador como os outros ou, se a vontade chegar, fadista sem igual. "Em França, é inconcebível que um cantor com tanta aura nacional possa estar humildemente num lugar a ouvir músicos que não estão ao mesmo nível", diz o realizador Eugène Green, um americano tornado francês, que filma em Portugal. Na noite anterior, levou Adrien Michaux, actor de todos os seus filmes ao Mesa de Frades, porque "queria que ele descobrisse o fado". "E Camané também apareceu, como nós, ao fim da noite.
" O próprio Green descobriu o fado em 2004, quando veio a Lisboa pela primeira vez. "Conhecia muito pouco, tinha ouvido um disco de Amália e mais nada. Sou da geração dos 'soixante-huitards': adoptámos o dogma da revolução dos cravos, segundo o qual o fado andava a par de Fátima e do futebol e era uma coisa fascista. Portanto, quando vim em 2004, o fado não me interessava. Mas um domingo, enquanto esperava pelo eléctrico 28 na Rua da Graça, reparei que havia imensa gente na tasca 'O Jaime', onde as pessoas do bairro vão para cantar e ouvir fado. Dei-me conta que era uma coisa viva, e comovente, mesmo que não seja interpretada por grandes cantores." Daí em diante, foi confiando na bondade de nativos, que lhe recomendaram casas de fado e cantores. Camané foi "uma revelação", por isso Green escreveu uma cena de propósito para ele entrar no seu filme, já depois de terminar o argumento. 

 

 Como fábulas
É no Mesa de Frades que Eugène Green e a sua equipa filmam "A Religiosa Portuguesa" numa manhã de Setembro. No interior forrado a azulejos, faz um calor de fornalha. O ar é opressivo, um peso. Sempre que se ouve "corta!", parte da equipa vem à rua respirar. Lá dentro, o espaço é mínimo e a única iluminação é de velas - tripés sustentam painéis com velas e espelhos na rectaguarda. As velas não fazem só calor, também queimam o ar. Emitem uma luz amarela, mas, para a câmara, é como se fosse uma luz suave e nocturna. É a prova de que a câmara mente, tentando mostrar a verdade: no filme, a cena passa-se de noite. Os tripés com velas são projectores barrocos. Green explica que todos os seus filmes têm cenas filmadas assim. Raphaël O'Byrne, director de fotografia, confirma e ressalva: "Deve ser o único realizador no mundo que filma sem luz eléctrica."
Green é um cineasta singular. Os seus filmes não se parecem com mais nada do que é feito hoje no cinema. Fez teatro barroco durante mais de 20 anos e começou a fazer filmes perto dos 50, sem formação em cinema mas com uma cinefilia aguda. Por cá, os seus filmes não passam no circuito comercial, mas Green, que tem um fascínio por Portugal, é correspondido - responsabilidade do IndieLisboa, que mostrou "Le monde vivant" em 2004 e lhe deu o prémio máximo do festival, e reincidiu em 2005, com "Le pont des arts". Alguém escreveu que nunca se esquece a primeira vez que se vê um filme de Green. Todos eles são tocados por um lirismo espartano e uma distância brechtiana. São como fábulas: para melhor falar do mundo, desligam- se da realidade.
O que ajuda a explicar o que faz uma freira do século XVII na Lisboa dos "graffiti". Para a sua quarta longa, "A Religiosa Portuguesa", Green partiu do livro publicado em 1669, "Cartas Portuguesas", lamentação de amor de uma freira portuguesa (Mariana Alcoforado) por um oficial francês que a abandonou. No filme, uma jovem francesa de ascendência portuguesa encontra-se em Lisboa para uma rodagem baseada nas "Cartas Portuguesas", onde interpretará a freira. À noite, depois das filmagens (e de vários encontros fortuitos, incluindo com D. Sebastião), é atraída para uma capela onde vê sempre a mesma religiosa a rezar. A "religiosa portuguesa" do título é uma sobreposição de três figuras, a personagem de ficção, a freira na capela, e a actriz. É como se estas duas fossem uma reencarnação da primeira. "Jogo de espelhos", resume o realizador.
"A Religiosa Portuguesa" não é uma adaptação de "Cartas Portuguesas", tal como a primeira longa de Green, "Toutes les nuits" (2001), era livremente inspirada num texto de juventude de Flaubert (uma primeira versão de "A Educação Sentimental") sem ser uma reconstituição. "Não procuro fazer adaptações literárias", diz o realizador. "Se um romance é bom, não precisa de ser transposto [para filme]. Por outro lado, uma obra que não é perfeita pode ser uma fonte de inspiração - é como pegar numa obra inacabada e completá-la sob uma outra forma."
Green chega ao ponto de considerar que "Cartas Portuguesas" é um livro "sobrestimado" - tendo em conta que mereceu a atenção de Rilke e foi por ele traduzido em alemão (em Portugal, a edição da Assírio & Alvim foi traduzida por Eugénio de Andrade). Aponta-lhe uma certa falta de estrutura, mas aprecia a espiral de contradições do texto. "A cada carta, ela diz 'abandonaste-me', exprime cólera e depois diz 'mas amo-vos'. Ela sente-se traída e, no entanto, tem a impressão de que esse amor lhe trouxe algo. É isso que me interessa. E corresponde ao que acaba por ser o tema do filme: esse amor parece ser um fracasso, infeliz, mas pode abrir-lhe horizontes, seja o amor espiritual, seja a compreensão da condição humana."

 

As lágrimas vêm
Aldina Duarte canta de terça a sábado no Senhor Vinho, na Lapa, foi lá que Green a descobriu, mas agora está no Mesa de Frades. A câmara faz um grande plano dela. "Aldina, fazemos como da última vez. Volta e meia, podes olhar para a câmara", diz o assistente de realização, Bruno Lourenço. Aldina canta um dos seus temas, "Xaile encarnado", em "playback" - é um fado corrido, mas a expressão de Aldina é triste. Esta cena tem um contracampo que não é filmado em simultâneo. Leonor Baldaque interpreta a personagem central, a actriz Julie de Hauranne. No filme, Julie sai à noite com o realizador (o papel era para o francês Denis Podalydès, que na véspera da rodagem anunciou que não podia trabalhar no filme; Green tomou o lugar do actor) e emociona-se ao ouvir uma cantora numa casa de fado. É essa cena que vai ser filmada depois de almoço. Aldina já cá não está, mas estão os seus CD. Alguém põe a tocar "Não vou, não vou", fado de partir o coração. Plano fechado sobre o rosto de Baldaque, que olha a câmara de frente. Green fala-lhe em francês: "Leonor, tu regardes la camèra et si ça vient, tu pleures." Uma actriz é uma actriz: as lágrimas vêm.
As personagens de Green escapam a leituras psicológicas. Baldaque confirma: "Psicologia é uma coisa que não se pode falar com o Eugène. É tabu. Ele é discreto no 'plateau', dá instruções de como nos devemos posicionar, mas é a câmara que vem ao nosso encontro. E dá-nos indicações sobre a entoação. É uma coisa que é fundamental para ele."
Carloto Cotta, que interpreta uma reencarnação de D. Sebastião ("Isso seria um espanto: o rei D. Sebastião não gostava de mulheres, e eu adoroas", diz a personagem), explica que o realizador lhe pediu para falar "sem acentuar as frases, o mais neutro possível, quase congelado". Eugène explica o método de Eugène: "Procuro captar qualquer coisa de interior, escondido. Não quero que os actores façam um jogo psicológico. Não quero que façam teatro no cinema. Quando os actores representam, peço-lhes para dizer o texto como se falassem consigo mesmos, sem retórica."
"A Religiosa Portuguesa" é uma produção maioritariamente portuguesa, subsidiada pelo ICA - o que gerou clamor no meio, incomodado por um realizador estrangeiro poder competir em pé de igualdade e, pior, ser escolhido. O guião é português, o filme é rodado em Lisboa, elenco e equipa técnica são maioritariamente portugueses. "Quando li o guião, disse logo: 'Aqui está um filme português. Mais português que muitos filmes portugueses.'", diz o produtor Luís Urbano, do Som e a Fúria.
Eugène Green nasceu americano, mas vive em França desde 1969. Nunca diz "América" - refere-se aos EUA como "a Barbárie". "Amo a França, mas ainda mais do que a França, é a língua francesa que é fundamental para mim. E a língua portuguesa, apesar de não falar, tem o mesmo efeito em mim. Costumo dizer que tenho a impressão de sempre ter falado francês como se tivesse aprendido numa outra vida. E com o português é um pouco assim. Talvez noutra vida tenha falado português... e tenha vivido em Lisboa."
Escreveu um texto épico inspirado no mito do Encoberto, "O Cão de Camões", que permanece inédito. Foi, aliás, o que o trouxe a Lisboa pela primeira vez, em 2004: Green obteve uma bolsa de criação. O seu filme "Le monde vivant" integrava a competição do primeiro IndieLisboa ao mesmo tempo. A direcção do festival teve conhecimento de que Green estaria em Lisboa e ligou-lhe a convidá- lo para assistir ao encerramento, onde o realizador descobriu que ganhara o prémio principal. "E a primeira vez que falei português na vida - aprendi a ler português, mas nunca tinha falado - foi para agradecer o prémio e para dizer até que ponto estava comovido por estar em Lisboa."
Nos filmes de Green não há acasos, só milagres.

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