Iria Perestrelo Não é só abrir a boca e cantar

Foi uma das duas melhores alunas no primeiro ano da Guildhall School of Music and Drama de Londres. Está no terceiro ano e dá voz a um grupo de música barroca e a outro de bossa nova. É soprano ligeiro, flexível para qualquer estilo.

Numa mão o diploma de Canto, na outra o de Ciência da Informação. Licenciatura terminada, um estágio pela frente no gabinete de documentação e património histórico da Associação Empresarial de Portugal, que durou meio ano. A música, presente desde os seis anos de idade, falou mais alto e o jornalismo, profissão que tinha debaixo de olho, acabou por ficar de lado. Opiniões e conselhos de amigos que estudaram em Londres aguçaram o apetite e a apresentação de candidaturas a três escolas inglesas não tardaram. "A música faz parte da minha vida. Ficaria frustrada se não seguisse esse caminho porque achava que tinha potencialidades." Iria Perestrelo acabou por ser seleccionada por duas escolas londrinas, optou pela mais conceituada, instalada no coração de Londres. No primeiro ano, a sua voz destacou-se na turma de 25 alunos. Ela e uma colega foram consideradas as melhores e, por isso, eleitas para representar a escola na competição Kathleen Ferrier Bursary, que elege os melhores jovens alunos de Canto de Inglaterra, Escócia e Irlanda. A competição aconteceu em Outubro do ano passado entre perto de 20 concorrentes. "Fiz a prova, mas não passei à final." Valeu pela experiência.
Neste momento, Iria está no terceiro ano - começou por estudar Canto com a professora Penelope Mackay, está agora com Susan Waters, discípula da italiana Laura Santi - e dá voz a um grupo de música antiga barroca, Prince and Pauper Consort de seu nome, que propõe uma viagem pelos sons mais aristocratas, como um mergulho pelos ritmos mais tradicionais. Duas inglesas, uma alemã e um inglês com origem argentina integram o elenco da formação que utiliza cravo, flauta barroca, oboé, violoncelo barroco, gaita-de-foles, e alguma percussão quando é necessário, para interpretar melodias dos séculos XVII e XVIII. Actuam sobretudo em igrejas, já estiveram numa festa particular de uma família polaca que vive em Londres e foram seleccionados para participar num festival de música antiga em Brighton no final de Outubro. Um festival que inclui actuações em bares e workshops para crianças, adultos e idosos. Iria canta também Tom Jobim, Chico Buarque, entre outros, num grupo de bossa nova que, de quando em vez, pisa o palco do bar da escola. O colega português Tiago da Neta toca guitarra e o grupo chama-se Bossa da Neta.
Três empregos para aguentar-se em Londres. No bar e bilheteira de espectáculos da escola londrina e num restaurante que é responsável pelos comes e bebes das figuras da música pop, rock e heavy metal na noite dos british awards. Já viu de perto, em trabalho, Björk, Amy Winehouse, Iggy Pop. No mês de Agosto, fez parte da equipa de limpeza da sua residencial de estudantes, que durante as férias se transforma em hotel. E já fez os testes para trabalhar num novo espaço londrino que, revela, "pretende imitar um restaurante de Paris, em que os cantores estão disfarçados de serventes e, em vez de comida, 'oferecem ópera'".
A jovem gere os part-times semana a semana, de acordo com a sua disponibilidade. O Governo britânico assegura-lhe as propinas, que rondam os cinco mil euros por ano, através de um empréstimo. O valor tem de ser reembolsado quando começar a trabalhar e amealhar uma certa quantia. Ficam as despesas da residência, alimentação e outros gastos para suportar. "Era importante diversificar-se o investimento em novos talentos", comenta. Na sua opinião, as instituições públicas e privadas portuguesas deviam ajudar mais quem começa uma carreira artística.
As aulas começam habitualmente às 9h30, por vezes não há intervalos para almoço, e a partir das 18h não há alunos na escola. Segue-se o trabalho duas ou três noites por semana, uma tarde quando há oportunidade. Seja como for, os estudos não podem ficar para trás. Trabalha diariamente a voz não mais de duas horas seguidas, como mandam as regras. Mas há sempre coisas para fazer. "A leitura da peça, trabalhar a língua, a fonética, dominar o texto pela interpretação, perceber a mensagem, colocar o estilo." "Não é só cantar... abrir a boca e cantar. É preciso pôr a peça no corpo... a partir daí a peça começa a ser nossa." O tempo ainda estica para assistir a ensaios gerais de espectáculos de ópera, privilégio dos alunos da escola, para ver musicais ou ir a concertos. "Não posso dar-me ao luxo de ser desorganizada, sou muito metódica."
Já pisou quase todos os palcos do Porto a solo ou em orquestra. Iria recorda, com um sabor especial, a presença na Casa da Música em representação da classe de Canto no concerto final do Conservatório de Música do Porto, onde cantou a solo uma ária de Donizetti. Como a interpretação da obra Carmina Burana com a Orquestra Nacional do Porto no Coliseu portuense e mais tarde num castelo medieval de Piacenza em Itália. Ou ainda a participação na ópera Zoocratas de Filipe Pires no Teatro Nacional de São Carlos, bem como a actuação no Rivoli com o grupo AquiJazz da Escola de Música e Artes do Espectáculo do Porto. Em 2005 frequentou o curso de formação de Animadores Musicais promovido pela direcção de Educação e Investigação da Casa da Música.
Começou por estudar piano, instrumento que ainda hoje toca para acompanhar os ensaios da voz, aos seis anos na Academia de Música de São João da Madeira. A adolescência foi uma etapa complicada, mas decisiva, altura em que se inscreveu na disciplina de Canto. "É sempre uma fase difícil, em que não se reconhece a beleza da música e estuda-se a técnica dos dedos. Passada essa fase, toca-se peças mais ambiciosas", recorda. Lá em casa há quem perceba da arte e Iria não deve ter sido imune a alguns conselhos. A mãe é professora de Música.
"Agora estou certa de que ir para Londres foi a melhor decisão." Não há arrependimento. A jovem garante que tem os pés bem assentes na terra. "A minha voz é semelhante a muitas outras e, neste momento, é difícil ser original." De qualquer forma, a vontade persiste. "Quero cantar em todo o lado e quando me sentir preparada farei audições para casas de ópera." Os relatórios que vai recebendo na escola, que destacam o seu talento, abonam a seu favor. Acabar o curso de quatro anos, seguir para a pós-graduação de dois, passar para o mestrado na área de ópera durante mais dois anos. "Penso que é inevitável fazer este percurso", admite. "É como um jogador de futebol que tem de continuar a jogar para ser chamado à selecção." a