João Lobo Antunes: "Conheço muitos professores e nos últimos meses não vi um feliz"

O ministério tem de perceber as razões do descontentamento. E se, para haver diálogo, devem terminar as retóricas extremistas, depois tem de se decidir

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Leu o Estatuto do Aluno e ficou apavorado. Tem falado com muitos professores e percebeu que o seu desconforto tem motivos que vão muito para lá das guerras da avaliação. Defende ainda que educar não quer dizer que os estudantes sejam obrigatoriamente felizes nas escolas, antes que recebam os instrumentos para construírem a sua felicidade.

Há uns meses, aquando do primeiro protesto dos professores, disse que o "respeito pelos professores é um valor por si mesmo" e "que está acima de qualquer outra coisa". Seis meses depois, esta imagem não está ainda a ser mais atacada?
Depois da expressão pública do que sucedeu há seis meses, achei que se iria entrar num período de paz. E se entendo que é um princípio fundamental o respeito por qualquer profissão, o respeito pelos professores é ainda mais importante, pois o futuro do país depende da educação dos seus cidadãos. Por isso estranho que, seis meses depois, regresse a mesma retórica de extremismo. Cada um fica no absoluto da sua verdade, sem aceitar os argumentos contrários, com culpas repartidas, e não sei como se vai sair daqui.

Esta semana chegámos a assistir a alunos a atirarem ovos à ministra...
Sempre ouvi falar, desde que estamos em democracia, em direito à indignação. A indignação, desta vez, manifestou-se sobre a forma da gemada, o que, numa altura em que há dificuldades e gente a passar fome, não penso ser a melhor forma de protestar.

Os professores deviam tentar evitá-las?
É difícil. Os alunos têm as suas formas de se exprimir e os professores sabem que é ilegal dar uma palmada.

Depois da manifestação de 8 de Março, depois da acalmia que permitiu que os exames corressem bem, como se explica que os professores tenham voltado a Lisboa ainda em maior número?
Porque, subterraneamente, o descontentamento era muito grande e não tinha sido resolvido. Depois de um Prós e Contras sobre este tema em que participei, fui chamado por um grupo de professores do distrito de Leiria e estive a ouvi-los. Percebi então que a questão era muito mais funda e não podia ser reduzida ao problema da avaliação. Depois, como médico, recebo muitos professores no meu consultório, conheço muitos professores, e nos últimos meses ainda não vi um feliz. Isso é altamente preocupante. As pessoas não estão satisfeitas, sentem-se muito limitadas no que fazem, até na capacidade de preparar as aulas, sentem-se encerradas numa "gaiola de ferro" burocrática. Encontro professores que, por doença, ficaram limitados, que são excelentes professores mas a quem dizem que ou trabalham de uma determinada maneira ou não podem entrar na escola. Como o consultório de um médico é um pouco como um confessionário, percebi que havia uma grande insatisfação que, agora, explodiu.

O ministério não devia ter "sensores" no terreno para perceber isso mesmo? Ou há insensibilidade para entender o que sentem os professores?
Acho que a palavra-chave é sensibilidade. E também afecto. É preciso olhar para isto de outra forma. Não vai à força, nunca foi. É necessário perceber as causas do descontentamento. Quando não há realização profissional, quando os professores não se sentem bem com o que estão a ter de fazer, nunca poderão dar o seu melho