Irmãos Vidigal ignoram os genes para manterem o Estrela da Amadora no topo

Partilham as raízes, o apelido e o gosto pela bola, mas só passados dez anos é que se cruzam
na mesma equipa. Lito manda, Luís obedece e ajuda. A família do Estrela agradece

a Se as feições da cara não denunciassem o parentesco entre José Carlos e José Luís, sobrariam sempre as pernas. Mas para lá do património genético, o que neste momento une os dois irmãos é uma relação de poder. O primeiro é o treinador do Estrela da Amadora, o segundo é jogador dos "tricolores". Embora vistam o mesmo equipamento, partilhem o apelido Vidigal e mostrem as mesmas pernas finas e delgadas a sair dos calções verdes, as diferenças são evidentes: o primeiro manda, o segundo obedece. Em campo, seja num treino ou num jogo, não há espaço para parentescos. Até porque, como eles dizem, a família não se resume a eles.
Membros de uma extensa prole - os Vidigal são 13 irmãos, um dos quais já falecido -, sentem-se hoje parte da família do E. Amadora. "Em termos de trabalho estou extremamente contente com o que tenho encontrado", afirma Luís Vidigal, que regressou em Setembro à Liga portuguesa após oito temporadas em Itália. Aceitou um convite do presidente do E. Amadora, António Oliveira, e assinou por dois anos com a equipa treinada pelo irmão Lito, a quem hoje chama "mister".
"A minha principal qualidade é o profissionalismo que sempre coloquei em cada clube por onde passei e aqui no Estrela não vou fugir à regra", sublinha. Aliás, o facto de ser treinado pelo irmão aumenta-lhe as responsabilidades. "Evidentemente, sendo irmão do treinador, todos esperam que eu dê o exemplo." Lito, quatro anos mais velho, diz que nem dá pelo irmão. "É mais um no plantel. Não olho para questões familiares. O Luís é um jogador do Estrela e espero dele a mesma entrega e a mesma atitude que exijo aos outros."
Vidigal vezes cinco
A presença do clã Vidigal no futebol português é numerosa e vem de longe. O primeiro a abrir caminho foi Beto, médio que se estreou no Elvas. Seguiu-se Lito, que entrou como defesa no plantel sénior dos alentejanos no mesmo ano em que Beto saiu para o Louletano. Estávamos no final da década de 1980 e quando Lito se mudou para Campo Maior, foi a vez de Luís chegar ao Elvas.
Entre 1991 e 1995, jogou ao lado de outro irmão Vidigal, Toni, tanto no Elvas como depois no Estoril. Em 1996, Luís ingressou no Sporting, enquanto Toni foi contratado pelo Setúbal. Dois anos depois, chegou a vez de Jorge se estrear na defesa do Elvas. Mas dos cinco irmãos, foi Luís quem viveu o ponto mais alto desta relação umbilical entre os Vidigais e a bola. Na temporada 1999/2000, foi campeão pelo Sporting (treinado por Augusto Inácio). Daí até chegar à selecção portuguesa - pela qual foi 15 vezes internacional - foi um passo e no ano seguinte rumou a Itália, para jogar no Nápoles.
Passou por outras equipas italianas, como a Udinese e o Livorno (II Divisão italiana), de onde saltou para o Estrela treinado pelo irmão Lito, que no seu tempo de jogador foi internacional dos "palancas negras". Ao contrário de Luís, que se naturalizou português, Lito manteve a nacionalidade angolana e envergou a camisola do seu país no apuramento (falhado) do Mundial de 1998.
Resumindo, só ao fim de mais de uma década é que Lito e Luís vieram encontrar-se na mesma equipa, um facto que não se reflectiu numa maior proximidade fora do campo. "É como em todas as famílias. Ele tem a dele, eu tenho a minha. Nós trabalhamos muito e bem e todo o tempo que temos livre é para estar com as nossas famílias." Quando entram em campo, há a tal relação de poder e ao jogador "compete obedecer e ajudar".
O líder nato
No encontro frente ao Nacional (4.ª jornada), o Estrela ganhou com dois golos de Luís. "Não lhe dei agradecimento nenhum. [Disse-lhe] que tem de trabalhar mais [risos]", recorda Lito, que em público é muito mais reservado que o irmão. "Não ganhámos nada com aquela vitória no Nacional. O que ele tem de continuar a fazer é continuar a trabalhar, e os parabéns poderão ser dados a todos os jogadores no final da época se conseguirmos ficar na Liga, porque é esse o nosso objectivo", refere.
À quinta jornada, os "tricolores" estão no terceiro lugar, uma posição quiçá inesperada para os adeptos que assistiram a uma autêntica sangria na equipa durante o último defeso. Há mais de dez caras novas e um treinador que até agora tinha feito carreira em divisões inferiores, mas os resultados para já são "bons". Para Lito, a chegada do irmão foi "uma boa oportunidade para o Estrela".
"O Luís traz qualidade, experiência, traz espírito de conquista e de luta, grande humildade, traz as características que nos fazem falta para chegarmos ao nosso projecto", salienta o técnico, destacando que "é importante manter o equilíbrio no plantel". "Da mesma forma como o Luís traz experiência e qualidade, também há jogadores mais novos que nos trazem irreverência".
Para o ex-internacional luso, o irmão "não precisa de conselhos" porque "é um líder nato". Lito devolve: "O Luís não tem nada que me desagrade."
No início da temporada, Lito não fez nenhum pedido especial ao irmão. "Pediu-me apenas disponibilidade total para trabalhar, estar à disposição daquilo que ele pretende." De resto, o ex-jogador do Livorno reconhece que o irmão "sabe gerir de forma inteligente o grupo de trabalho".
"Fui campeão pelo Sporting precisamente com este ambiente. Isso com certeza transformou uma equipa que à partida não era favorita e acabou por ser campeã", assinala Luís, destacando que no seu actual clube a família é o plantel todo. "Acredito que se continuarmos assim vamos tirar muito proveito."
13
é o número total de irmãos que compõem a família Vidigal, cinco dos quais estão ligados
ao mundo
do futebol