Descoberta espécie de formiga tão estranha que podia ser de Marte

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A formiga foi descoberta na Amazónia C. Rabeling e M. Verhaagh// National Academy of Sciences/ PNAS

Os dois primeiros espécimes da Martialis heureka (Martialis por causa de Marte e Heureka do mesmo eureka, “Eu descobri!”, que foi utilizado por Arquimedes) que se encontraram, foram obtidos em amostras de solo mas perderam-se. Só passados cinco anos, em 2003, é que se descobriu a nova formiga trabalhadora que permitiu confirmar a existência de uma nova espécie.

A Martialis heureka tem características suficientes para ser considerada uma formiga, mas é tão diferente de tudo o que já se viu que os cientistas criaram uma nova sub-família, Martialinae, só para ela. Há 85 anos, desde 1923, que não se criava uma nova sub-família de uma espécie de formiga viva, as que se têm sido criadas foram a partir de formigas fósseis.

“Esta descoberta indicia que existe uma riqueza de espécies, possivelmente com uma enorme importância evolutiva, que está escondida nos solos das florestas tropicais ainda existentes”, escreve Christian Rabeling e os co-autores do artigo que saiu esta semana na revista científica “Proceedings of the National Academy of Sciences”.

A espécie tem dois ou três milímetros de comprimento, não tem olhos, tem duas grandes mandíbulas, as patas dianteiras são finas e mais compridas que o normal. Todas estas características indicam que habita no solo, raramente vê a luz do dia e alimenta-se de outros animais como insectos, artrópodes ou anelídeos.

Posteriormente, a análise genética confirmou que esta formiga é diferente de tudo o que se conhece, e que estava na base da árvore evolutiva das formigas, ou seja é muito antiga. ”Esta descoberta suporta a ideia de que as formigas cegas dos subterrâneos que são predadoras, apareceram no início da evolução das formigas”, disse Rabeling investigador em evolução e comportamento.

As formigas apareceram há 120 milhões de anos a partir dos antepassados das vespas. A evolução foi rápida e deu lugar a muitas linhagens, com as espécies a adaptarem-se a vários ambientes.

“Com base na nossa informação e no registo dos fósseis, assumimos que o antepassado desta formiga era parecido com uma vespa, talvez similar ao Sphecomyrma, o fóssil de âmbar do Cretácico que é conhecido como sendo o elo perdido entre as vespas e as formigas”, disse Rabeling.

O investigador defende que as adaptações a um estilo de vida subterrâneo e sem luz apareceram numa primeira fase da evolução das formigas e que se mantiveram ao longo dos anos.

“A nova espécie de formiga está escondida no solo, num ambiente tropical estável, que é potencialmente menos competitivo. Esta espécie pode ser uma relíquia que reteve características morfológicas ancestrais”, conclui.