Amy Winehouse no Rock In Rio: não foi o dia dela

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Do vozeirão de Amy Winehouse só se ouviu um sopro Silvia Pereira

Quando Paulo Gonzo subiu ao Palco Mundo, já a multidão se perdia de vista, confirmando a enchente anunciada pela organização: 90 mil pessoas. O músico português, ciente da popularidade (as recentes vendas de "Perfil" atestam-no), não se acanhou, esmerou-se e agarrou o público com firmeza, elegância e estilo, tanto nas canções entoadas pelo público em uníssono (destaque para "Jardins proibidos"), como nas boas incursões ao blues.

Ivete Sangalo

fez, mais uma vez, tudo o que lhe vale a alcunha de "furacão da Bahia". Repetente no festival – esteve em Lisboa nas duas edições anteriores –, repetiu também a fórmula do "tira o pé do chão", "na palma da mão" e "levantou poeira", certeira em levar todo o mundo ao seu Carnaval de axê. Ainda está para nascer quem bata esta senhora em energia, sorriso e capacidade para celebrações desta dimensão – elementos que não se vislumbraram, nem de muito longe, em

Amy Winehouse

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Primeiro, a dúvida: será que ela vem? Depois, a incerteza de como reagir: com aplausos de incentivo ou assobios por fazer esperar a plateia? Meia-hora depois, a certeza de ver com os próprios olhos uma mulher que se tornou uma caricatura de si própria. É polémica, é imprevisível, é uma "junkie". Todos tinham todas estas informações sobre a voz mais premiada dos últimos tempos, mas nada podia preparar o Rock In Rio (festival certinho, direitinho, arranjadinho) para o que ela trouxe. Amy confessou que devia ter cancelado o espectáculo por causa do evidente problema vocal. Mas ela queria tanto estar ali… No lugar da Amy Winehouse de pelo na venta, surgiu uma criatura trôpega, que não conseguia cantar, tocar guitarra, nem fazer-se compreender. Disfuncional no seu vestido, que puxava para cima como num tique de timidez, trazia a mão envolta em ligaduras, escoriações no pescoço, o penteado do costume e o eyeliner a acentuar um olhar perdido no infinito. A banda num esforço contínuo para a elevar sem a abafar – e ela ali, frágil, à espera de uma brisa mais forte que a partisse mais depressa que o copo de vinho que segurava. Do vozeirão – essa qualidade que torna tudo o resto permitido – só se ouviu um sopro. Temas como "Rehab" e "Valerie" valeram pelas excelentes canções que são, mas não pela sua contribuição. Foi triste vê-la assim. Foi triste perceber que as palmas que recebia eram mais palminhas nas costas. É triste pensar que esta pode ter sido a primeira e última oportunidade de ver em Portugal esta mulher que diz não ter vergonha de cair. Será que ainda se consegue levantar?

Cabia a Lenny Kravitz salvar a noite. Saiu-se bem. As canções do norte-americano são feitas à medida de estádios, pelo que não havia razão para falharem perante este mar de pessoas. Lenny apresentou-se mais discreto que o habitual. A pose de “rocker” e “sex symbol” perdeu para o seu lado mais sentimental. Não deixou de despejar “riffs”, nem de prolongar as músicas ao sabor dos solos da banda, nem se escusou a um mergulho na multidão. Mas demorou-se especialmente – e com particular emoção – em temas como "Let love rule", "Stillness of heart", "It ain't over 'til it's over" ou "I'll be waiting". O Lenny Kravitz que, noutros tempos, proclamou com ironia a morte do rock, mostra-se mais calmo na fase de "It's Time For A Love Revolution". Mesmo assim, ninguém lhe tira das veias a eficiência rock de "Always on the run", "Fly away" ou "Are you gonna go my way".

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