Destroços descobertos no Atlântico sul devem ser de barco português

a A descoberta de destroços daquilo que se presume seja uma caravela portuguesa do tempo dos Descobrimentos ao largo da Namíbia, no Atlântico sul, está a criar justificado alvoroço nos meios arqueológicos nacionais.A notícia do achado foi ontem divulgada pela Lusa, que cita Lynette Gould, uma porta-voz em Londres da empresa sul-africana De Beers, especializada na mineração e comércio de diamantes. Foi uma equipa de geólogos que trabalhava para essa empresa que descobriu os destroços de madeira e, junto a eles, aquilo que se acredita seja parte da carga da embarcação, na qual estarão moedas e outras peças em ouro.
De imediato se pensou que a caravela em causa poderia ser aquela em que o navegador português Bartolomeu Dias (c. 1450-1500) naufragou, quando integrava a frota de Pedro Álvares Cabral e rumava à Índia, depois da descoberta do Brasil.
À Lusa, o arqueólogo Francisco Alves realçou a importância da descoberta, e a necessidade de investigações suplementares, mas considerou uma "perfeita especulação" acreditar-se que se trata da caravela de Bartolomeu Dias. "Como arqueólogo, penso que é uma grande descoberta. E tenho um palpite, muito alicerçado e com base em tudo o que veio ao de cima na Internet, de que efectivamente é um navio português" do século XVI, salientou o director da divisão de Arqueologia Náutica e Subaquática do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico.
Francisco Alves, que o P2 não conseguiu ontem contactar, sustentou a sua posição na análise de fotografias de moedas recuperadas do fundo do oceano, e que lhe parecem provadamente portuguesas. "A moeda que mostram, embora seja o reverso, foi identificada por um colega meu, Paulo Alexandre Monteiro. É indiscutivelmente uma moeda de D. João III [1502-1557], que foi cunhada a partir de Outubro de 1525". O arqueólogo acrescenta que a moeda de ouro em causa, com o valor facial de 10 cruzados, chamava-se "português" e era "uma das mais prestigiantes" da época.
Francisco Alves comentou também à Rádio Renascença que, "qualquer arqueólogo que se preze, é cauteloso antes da observação, e muitas vezes são mais as perguntas que ficam do que as respostas que dão estes achados". Mas acrescentou que este é um achado que deve ser acompanhado de perto e que se pode mostrar como "uma janela que se abre sobre o passado"
Já Lynette Gould disse à Lusa que a De Beers e o governo namibiano vão fornecer mais informações sobre o achado na semana que vem, e também que os governos de Portugal e de Espanha vão depois ser contactados para eventuais investigações conjuntas com o Conselho da Herança Nacional da Namíbia, que está a fazer o inventário do achado.
O assessor de imprensa do Ministério da Cultura, Rui Peças, disse que o governo português não foi ainda contactado oficialmente. "O que vamos fazer, em articulação com o Ministério dos Negócios Estrangeiros, é tomar todas as diligências junto da De Beers e do governo namibiano para saber o que se passa e o que está em causa", disse à Lusa.