Portishead

Third

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O primeiro sinal de que o regresso dos Portishead, uma das bandas de maior culto dos anos 1990, não seria apenas um ritual para cumprir calendário, foi dado em Dezembro. Convidados para serem curadores do Festival ATP não facilitaram, propondo um alinhamento esotérico, feito por nomes da folk sepulcral como Hawk and Hacksaw, do metal cósmico como Sunn O))), das electrónicas alucinadas como Aphex Twin ou pioneiros de idiomas alternativos como Silver Apples.

Como disse Geoff Barrow, não fizeram esses convites por acaso. Fizeram-no pelo tipo de sons e de bandas que os inspiraram para o novo álbum. Não só isso é verdade – e a essas influêcias poder-se-iam acrescentar Can e Kraftwerk – como funciona. O mais fácil para os Portishead, dez anos depois, seria voltarem na versão charmosa e nocturna que lhes granjeou sucesso. Mas como não pararam de afirmar, cansaram-se de servir de banda-sonora para pequenos-almoços em hotéis estilizados. Não podem controlar a utilização que é feita da sua música, mas é pouco provável que tal venha a suceder com "Third". Existe gentileza por aqui, mas descobri-la implica passar por cenários distorcidos. É um disco abrasivo, mais disforme, menos evocativo do que aquilo que conhecíamos deles. O cenário é mais John Carpenter do que David Lynch. As canções mudam de direcção bruscamente, a melancolia existe, mas não conforta, perturba, intriga, provoca. Oiça-se "Machine gun", com Beth Gibbons no meio de um incomodativo ritmo electrónico, percussivo e marcial. A voz mantém o poder de sedução, mas agora rodeada por subúrbios onde o horror irrompe, ou campos bucólicos onde a desolação impera. Da electrónica mais industrial à folk mais campestre, não há muita luminosidade a irromper por aqui. As guitarras são crispadas, os ritmos de algumas canções mais próximos do rock minimalista dos Can do que do hip-hop. O que se mantém é a gravidade emocional, a justeza da intensidade dramática, a vontade de atribuir o nome exacto às coisas, porque não pode ser de outra forma. "Third" é muito bom. Mas não é obra para se deixar invadir à primeira. Talvez à terceira.