O "photo" em BESphoto está aqui a mais?

Foi com estas imagens que Miguel Soares ganhou os 25 mil euros do BESphoto. Agora que já tivemos tempo de olhar para elas, a pergunta é: o maior prémio português de fotografia é de facto um prémio de fotografia?

a Miguel Soares olhou para limousines das revistas e pensou: estes carros não são normais.Depois disso houve pessoas que olharam para as limousines de Miguel Soares - estas limousines que ganharam o maior prémio português de fotografia - e pensaram: este prémio não é normal (ou: "fica então provado que eu não percebo nada de fotografia").
Há muito tempo que o BESphoto não é normal. A história das quatro edições do prémio é, como sublinhou o crítico Alexandre Pomar no domingo (http://alexandrepomar.typepad.com), demasiado particular: "O que foram defeitos iniciais (presença no júri de selecção dos programadores dos artistas nomeados, junção de veteranos e novos) e outros defeitos não corrigidos (amálgama de fotógrafos-artistas com artistas que se servem da fotografia, velha e difícil questão que se deve usar com prudência; sucessivas recusas de participação) deu lugar à ausência de justificação para as nomeações e, por consequência, [a] uma confrangedora inanidade". A questão pode ser essa (uma "selecção que deixa afrontosamente de fora o melhor"), mas também pode ser outra (essa que lemos há uma semana, no Ípsilon): o maior prémio português de fotografia é um prémio de fotografia? "Não será neste prémio que iremos encontrar fotografia no sentido estrito da palavra (...). Não cabe aqui a fotografia de reportagem, documental, ou até da vivência pessoal de carácter diarístico. Qualquer um dos três projectos poderia encaixar no âmbito mais geral das artes plásticas sem levantar questões de maior. Aliás, esta é uma tendência que esteve presente em todas as edições do prémio: Helena Almeida, a primeira galardoada, é com toda a certeza uma artista incontornável, mas é impossível dizer que a fotografia ocupa um lugar central no seu trabalho", apontou Luísa Soares de Oliveira.
É uma possibilidade: o "photo" em BESphoto estar aqui a mais. Miguel Soares é o primeiro a dizer que sim: "O nome induz em erro. As pessoas associam-no ao World Press Photo e ficam à espera de instantes capturados, quando de facto o prémio tem mais a ver com fotografia de galeria de arte, com o trabalho de artistas que usam a fotografia como suporte". Ele diz que não é fotógrafo porque não ganha dinheiro a tirar fotografias nem aceita encomendas - mas que é fotógrafo porque tem um curso de fotografia e trabalha há 20 anos com a imagem. Também grava discos. É um artista (que é mais do que ser um fotógrafo).
Sim, Miguel Soares ainda é do tempo em que para se fazer fotografia era preciso usar máquina fotográfica. Mas também já é de um tempo que está para lá disso, do tempo em que a Internet é o paraíso dos found objects e em que tudo é possível (ainda não tínhamos falado do Photoshop). Podia ter alugado um helicóptero para fotografar as crateras que inverteu na série retarC mas isso teria sido "um disparate de meios". Não vamos atirar a primeira pedra só porque ele não está "a fazer o clique num botãozinho": "Não estou a tirar fotografias. Mas estou a trabalhar a partir da fotografia. Uso a matéria-prima que está à nossa volta, que é o que a arte faz desde sempre. Não foi a arte que mudou. O que mudou foi o resto. Hoje somos bombardeados por imagens que têm marcas, advogados e empresas. Acho que faz sentido apropriar-me delas e comentá-las."
No caso das séries agora premiadas - Liine, em que Miguel Soares corta o que lhe parece estar a mais nessas "centopeias maquinais" que são as limousines, retarC, em que inverte imagens de crateras de modo a transformá-las em planaltos, e Planets, em que nos convence que os candeeiros do jardim do tio dele são um sistema solar alternativo -, o artista comenta-as de maneira a criar ilusões de óptica. "Estas séries mostram que com um truque muito simples as imagens deixam de ser um documento da realidade. O que eu estou aqui a dizer é que as coisas não são o que parecem. A fotografia serve-me para eu fazer experiências. Já fiz experiências com softwares novos, já fiz experiências com produtos químicos. Aqui faço experiências com ilusões, e depois explico como faço. Era indispensável mostrar o processo, para as pessoas não dizerem: "Ah, fotografias banalíssimas de carros com um risco no meio". Não são carros. São limousines que eu transformei em carros, e eu deixo que as pessoas se apercebam disso", esclarece.
A investigadora Maria do Carmo Serén, que foi júri de selecção do BESphoto no ano passado, apercebe-se disso e não gosta: "Olho para as fotografias de Miguel Soares e parecem-me fotografias publicitárias: vejo ali a reprodução da vida melhorada. Estas fotografias têm a qualidade dos anúncios que nos fazem parar quando estamos a fazer zapping, até nas cores: estas cores não existem, são cores que o computador inventou. É uma fotografia que em certo sentido branqueia os problemas das artes plásticas ao dar prioridade ao problema da empatia. Mas são imagens suficientemente boas para gerar um consenso que dá prémios", diz. Interessa-lhe o que elas dizem sobre o estado da arte na fotografia. "Estas imagens reflectem um mundo em que não se sabe muito bem em que temática pegar porque não há fotografia social, não há fotografia de paisagem. Tudo é antigo e o terror de hoje é a banalidade", continua. Vamos ter de falar de uma crise de representatividade da fotografia documental? Não necessariamente: "O documental arrisca-se sempre a não ser considerado fotografia de autor. As pessoas já não valorizam o documental na fotografia, mas ainda há puristas que fazem documento bastante bem - e há fotógrafos a fazer documento contemporâneo, como o Jeff Wall."
Ricardo Nicolau, adjunto do director do Museu de Serralves e júri de selecção da edição deste ano, acha que o problema é definitivamente do prémio e não do premiado: "O BESphoto faria muito mais sentido como prémio de artes plásticas ou de artes visuais. O prémio é promovido por uma entidade que o quer usar como ferramenta no meio das artes visuais e não no meio da fotografia. Isso é problemático para o júri quando os artistas se recusam a participar com o álibi de não serem fotógrafos, apesar de usarem a fotografia como suporte." A entrada da fotografia nas galerias é o fim do mundo tal como o conhecíamos? "A fotografia documental continua a ter o seu espaço. Não acho que se possa dizer que está em desuso ou que se tornou anacrónica."
Ele é dos que olham para as limousines de Miguel Soares com entusiasmo (mas aqui, diz, já não é o lobby das artes visuais a falar, é o lobby da ficção científica): "Apesar de lidar com uma herança conceptual ao trabalhar com as ideias de arquivo, de catalogação e de diluição autoral, Miguel Soares tem um lado humorístico que, não deixando de estar presente nos artistas dos anos 60 e 70, estava camuflado por um certo rigor analítico. Ele combina o rigor com o humor e isso torna este trabalho muito idiossincrático".