Em Alcântara os comboios da ponte só servem para ver passar

Apeadeiro nunca entrou em funcionamento. Há passageiros que saem em Campolide e apanham o autocarro para voltarem para trás

a Iris Coelho, uma funcionária administrativa de 35 anos, tem um estranho hábito. Todas as manhãs passa nas imediações do emprego, em Alcântara, vinda da margem Sul, mas só lá entra mais de um quarto de hora depois, após uma voltinha a Campolide. No regresso a casa, a mesma história: o bairro não fica na direcção de casa, mas ainda assim não volta a Foros de Amora sem passar por Campolide. Duas das colegas que com ela trabalham na junta de freguesia partilham de idêntica mania.Não são saldos nem outra qualquer atracção que leva as três mulheres a tão bizarro comportamento. Acontece que o comboio que cruza a Ponte 25 de Abril há oito anos e meio não pára em Alcântara, apesar do apeadeiro que existe numa das partes mais altas da freguesia, no Alvito. Os passageiros da margem Sul que se dirigem à zona ribeirinha de Lisboa, ou mesmo à Linha de Cascais, são obrigados a seguir até à estação de Campolide - a primeira da linha em Lisboa, por sinal mal servida de transportes - ou até Sete Rios, para depois voltarem para trás. A crer na descrição de Iris Coelho, não serão assim tão poucas pessoas: "Entre as 7h30 e as 8h30 os passageiros da carreira 51 enchem dois autocarros de cada vez. Ou então apanham o 713, que também passa em Alcântara."
Na origem do fenómeno estão, por um lado, estudos de há vários anos que apontavam escassez de passageiros neste local e, por outro, a inexistência de um acesso fácil entre o apeadeiro e o centro de Alcântara. A futura elaboração de um plano de urbanização para a zona, hoje discutida em reunião de câmara, pode ser uma oportunidade para resolver o problema.
"Não paramos no Alvito porque a estação não se encontra em exploração", explica Cristina Dourado, administradora da Fertagus, que explora a linha entre Roma-Areeiro e a margem Sul. "E isso é com a Rede Ferroviária Nacional", esclarece, acrescentando que a empresa não se recusará a fazer esta paragem caso sejam construídos acessos em condições entre o apeadeiro do Alvito e Alcântara e o número de passageiros o justifique. À primeira vista nem sequer implicará grandes prejuízos para o serviço ferroviário actualmente prestado, como sejam alterações significativas de horários. A Rede Ferroviária Nacional (Refer) não respondeu em tempo útil ao contacto do PÚBLICO.
Demolições para acessos
Limitado a local de manobras ferroviárias, o apeadeiro-fantasma encontrou por si próprio uma nova missão, ligada a viagens... de outro género. "Os drogados escangalharam o portão de acesso às instalações e depois foram dormir lá para dentro", relata uma moradora da Quinta do Jacinto, um bairro ali ao pé. "Durante anos, viu-se lá luz ligada dia e noite". A habitante diz que já não é a primeira vez que aparece gente no bairro para embarcar. São todos recambiados para Campolide. No Alvito, outra moradora conta como a linha férrea e o apeadeiro, nem sempre devidamente vedados, se tornaram um engodo irresistível para algumas crianças. "Chegam a brincar com as seringas, e já ali houve fogo", recorda.
O presidente da Junta de Freguesia de Alcântara, José Godinho, refere que há alguns anos se opôs aos planos da Refer para pôr o apeadeiro a funcionar por eles implicarem a demolição de várias casas habitadas no bairro do Alvito, para fazer bons acessos por onde possam passar autocarros e também para criar estacionamento. A própria abertura da ferrovia obrigou a deitar abaixo habitações.
O autarca propõe que, em vez de se fazer pela Rua da Cruz a Alcântara, o novo acesso entre a Avenida de Ceuta e o apeadeiro seja aberto mais a norte, junto ao prédio da antiga Fábrica Nacional de Ar Condicionado, onde há terreno livre. O jovem proprietário de um pequeno snack-bar do Alvito mostra-se descrente. Para quem mora no bairro, o funcionamento do apeadeiro não parece ser importante: "Estação? Aqui do que precisamos é de água canalizada, que ainda há casas que a não têm."
O especialista em transportes Nunes da Silva trabalhou na equipa que, nos anos de 1990, elaborou um plano de urbanização para o Vale de Alcântara do qual fazia parte a chegada do metropolitano ao apeadeiro do Alvito - vindo de Campo de Ourique via Estrela - e ainda a construção de um elevador que permitisse aos passageiros vencer em pouco tempo o desnível entre o Alvito e a Av. de Ceuta. "O Alvito seria um interface de transportes. Tenho esperança de que o futuro plano de urbanização recupere esta solução ou outra parecida", observa Nunes da Silva, considerando que a entrada em funcionamento desta estação terá um importante papel na própria renovação da freguesia, que ganhará outra vida se por ali passar mais gente. Outro especialista na matéria, José Manuel Viegas, recorda-se dos primeiros estudos que fez para esta linha, no final dos anos 80, que indicavam que poucos passageiros estariam interessados em apanhar aqui o comboio. Quase duas décadas depois, admite que esse dado se tenha alterado, ao ponto se ter tornado "comercialmente interessante" abri-la . Mas deixa um aviso: "Um comboio não é um táxi." Ou seja, por muito que os passageiros pensem que já são em número suficiente para justificar uma nova paragem no percurso, "à escala do serviço ferroviário", que leva todos os dias muitos milhares de pessoas de um lado para o outro, "pode não fazer sentido" uma alteração deste tipo. Especialmente se a nova paragem implicar menor frequência de comboios, ou grandes aumentos de desgaste do material circulante.