Pedro Norton O escolhido por Pinto Balsemão

Balsemão não vai sair já da presidência da Impresa, mas muitos encaram a escolha de Pedro Norton para vice-presidente do grupo do Expresso e da SIC como o primeiro passo para a sucessão num império de 252 milhões

a Quando Pedro Norton fizer 41 anos, em Agosto, já estará a ocupar um lugar à direita do presidente do conselho de administração do grupo Impresa, Francisco Pinto Balsemão, como colaborador mais próximo e número dois do fundador de projectos como o Expresso e a SIC, conhecendo de perto os passos e as atitudes do líder.Este jovem gestor foi o escolhido por Francisco Pinto Balsemão para suceder a Luiz Vasconcellos, actual vice-presidente do grupo, que há uns meses pediu para abandonar as funções executivas que desempenha desde 1973.
A escolha de Norton, que para já rejeita pedidos de entrevista, é apontada por muitos, dentro e fora do grupo, como um passo importante para preparar a sucessão de Balsemão à frente da Impresa, grupo que vale 252 milhões de euros. Mas é o próprio Balsemão que afasta numa frase curta qualquer confirmação pública do que pode estar para vir: "O Pedro Norton é para substituir o engenheiro Luiz Vasconcellos e não para me substituir a mim", frisa o responsável máximo da Impresa que, aos 70 anos, sente que ainda é cedo para pensar em reforma.
Ponto assente é que a opção Norton parte de uma estratégia de rejuvenescimento dos altos quadros da empresa e da importância cada vez maior dada à área digital. Balsemão destaca a "larga experiência na comunicação social" do visado, a juntar à "forte tónica nas tecnologias e nos multimedia". Ao longo dos anos, aliás, o ainda presidente executivo da Impresa Jornais tem defendido que a partilha de plataformas será inevitável.
O cuidado colocado na escolha, "antecipada com um pequeno leque de pessoas", não é imune aos cruzamentos accionistas e familiares que se jogam dentro do grupo e aos cinco herdeiros do principal accionista. Dos três filhos que o fundador da Impresa teve com a primeira mulher - que têm idades próximas de Pedro Norton - Francisco Maria Balsemão e Mónica Balsemão ocupam actualmente cargos de direcção e administração dentro do grupo.
Fernando Neves de Almeida, presidente da Boyden Portugal, multinacional de executive search, lembra o complicado que é distinguir entre laços profissionais e de sangue em patrimónios familiares, como é comum em Portugal. "Se há alguém dentro da família que é reconhecido como tendo as características certas para estar à frente, tanto melhor; mas o contrário será preferível, se concluírem que é melhor ir-se buscar alguém de fora para manter o mesmo nível de dividendos", afirma.
Neves de Almeida realça que muitos responsáveis de empresas familiares "pensam mais como pais do que como gestores profissionais"; nesses casos, o que acontece muitas vezes é que "a segunda ou a terceira geração acabam por delapidar o património do grupo".
"Bom ser novo"
Mas vamos com calma. Por enquanto, quem conhece Balsemão de perto sente que o gestor tem ainda muito para dar; o adeus às funções executivas ainda demorará: "O dr. Balsemão tomará essa decisão quando entender, não se quer ir embora; é o accionista maioritário, deve ter uma equipa de gente nova a apoiá-lo", sublinha Luiz Vasconcellos - que quando deixar o cargo irá manter-se na administração da Impresa e da SIC com funções não executivas.
Quanto a Pedro Norton, não lhe poupa elogios: "É bom ser bastante novo, tem uma mentalidade muito aberta, o que é importantíssimo para um sector em plena transformação, e estará rodeado de gente competente no conselho de administração."
Estas serão pessoas, aliás, que o futuro número dois conhece há muitos anos, numa casa onde tem feito quase toda a vida profissional, depois de uma entrevista de emprego bem sucedida em 1992.
O pai de Norton e Pinto Balsemão eram velhos amigos, tinham-se já encontrado meia dúzia de vezes, mas fontes próximas afirmam que isso não terá contribuído em nada para a sua entrada para assistente do presidente executivo da Controljornal (holding proprietária da Visão, entre outras), depois de curtas passagens pela banca de investimento (Essi) e pelo retalho de instrumentos musicais (Custódio Cardoso Pereira).
Desde o primeiro dia na actividade de gerir os media, e depois como assistente do CEO da SIC, entre 1993 e 1995, quem o conhece diz que Pedro Norton se sentiu como peixe na água, ou não fosse um leitor compulsivo de jornais. Que o diga Manuel Fonseca, agora dono da editora Guerra e Paz mas na altura director de programas da SIC. "Conhecemo-nos na direcção de programas, o Emídio Rangel era director; o Pedro Norton deu-nos apoio em termos de gestão, fez um excelente trabalho." Uma das características que Manuel Fonseca realça é o facto de Norton ter "sensibilidade para a parte jornalística" e "para a imagem numa televisão e num jornal".
Passados alguns anos, segue-se um dos melhores momentos na sua carreira: a entrada para o board da SIC Notícias, em Outubro de 2000, quando o projecto do novo canal noticioso estava a começar. Foi por esta altura que se estreitaram as relações com Nuno Santos, na altura director do novo canal, o que foi ajudado por terem ambos a mesma idade. "Tínhamos uma boa relação, nem sequer muito próxima, mas boa", lembra o jornalista.
Em conflito com Rangel
Nuno Santos considera que Norton "é talvez o gestor mais rigoroso com quem trabalhei, mas com uma visão ampla e aberta do controlo de custos". Por vezes divergiam, diz, mas estiveram juntos no mesmo barco pela junção das redações da SIC e da SIC Notícias, na crise que os opôs em 2001 ao então director geral da SIC, Emídio Rangel. "Já havia na redacção muitos recursos partilhados, era racional que isso se estendesse a outros meios", diz Nuno Santos.
O extremar de posições e o apoio expresso dos jornalistas a Rangel, que se opunha à possível "fusão", terminou com a saída voluntária do director da SIC Notícias e do administrador, num conflito que amigos próximos de Pedro Norton consideram há muito ultrapassado.
A verdade é que passados três meses, em Setembro de 2001, Balsemão dá-lhe novamente a mão e coloca-o como presidente executivo (CEO) da Sojornal, empresa do grupo proprietária do Expresso. É nesse cargo que Nicolau Santos, director-adjunto do semanário, começa a ter com ele mais contacto. "É um gestor jovem, mas ao contrário de muitos formatados pelos manuais de consultoria que medem tudo pelos indicadores financeiros, tem uma sensibilidade muito especial para a importância da informação" e não tem medo de perder publicidade por causa de notícias, salienta. "A prazo, sabemos que é isso que conta para a credibilidade de um meio de comunicação - e não o contrário: publicar informação sem pensar se se vai hostilizar um anunciante."
O facto de olhar para o jornalismo como um investimento de longo prazo é uma característica que Pedro Norton terá em comum com Francisco Pinto Balsemão. Tal como a transparência de relações com a direcção do jornal, acrescenta Nicolau Santos. É também reconhecido como sendo alguém com "uma visão ampla e transversal da área dos media", como diz Alcides Vieira, director de Informação da SIC, para quem o escolhido é "a pessoa certa para o lugar".
A "capacidade de fazer pontes" é também realçada por Tiago Pitta e Cunha, amigo dos tempos da faculdade e hoje membro do gabinete do Comissário Europeu para os Assuntos Marítimos e as Pescas em Bruxelas: "O Pedro é uma pessoa de números, mas com uma componente de letras muito forte, está no meio dos dois mundos." Na Universidade Católica, entre 1985 e 1990 e em cursos diferentes (Norton em Gestão de Empresas, Pitta e Cunha em Direito), os dois partilharam "o inconformismo pela realidade, a vontade de mudar o estado das coisas". Já se conheciam vagamente de passar férias no mesmo local, em Cascais, mas foi em ambiente académico que se juntaram num jornal que "era para ser uma pedrada no charco": "A Palmada vendia-se bem", diz Pitta e Cunha, que atribui o sucesso do mensário à "capacidade de concretização" de Pedro Norton.
Geração de 60
Desde então, essa capacidade estendeu-se à realização de tertúlias de discussão política, mais ou menos privadas, e ao nascimento do blogue Geração de 60, em Abril. A coordenação deste site, partilha-a Norton com Sofia Galvão, advogada especializada no ramo imobiliário e que o considera "amigo para a vida". "Temos uma posição acima de tudo: prezamos a liberdade", sublinha, acrescentando que o gestor da Impresa tem uma "vocação para pensar e discutir ideias, para valorizar o debate no espaço público".
Isso mesmo confirma Manuel Fonseca, que também participa no blogue: "Cada um de nós tem atitudes muito diferentes perante a vida, não somos tirados a papel químico; mas o simpático da nossa relação é a capacidade de tolerância e convivência."
O gosto pela arena pública e pela sociedade civil não se confunde no entanto com qualquer participação partidária - muito longe disso e nisso muito diferente de Francisco Pinto Balsemão, onde o animal político continua a mostrar por vezes as garras. Igualmente distinta é a reserva que Norton faz questão de manter quanto à vida privada e o facto de ser uma pessoa discreta: "Não é alguém que alardeie, para quem todos se virem quando entra numa sala; é alguém que à medida que se vai conhecendo, vai-se gostando cada vez mais", diz Sofia Galvão.
No fim, é natural que o acumular de elevadas expectativas em relação ao desempenho das novas funções causem algum stress em Pedro Norton - para mais quando é tantas vezes apontado como o provável sucessor de Balsemão à frente do grupo.
Fernando Neves de Almeida, da Boyden, considera que há características importantes num número um que o distinguem de um vice-presidente, no qual se valorizam mais as capacidades de execução. "O que pode condicionar a passagem de um número dois para número um é a falta de um certo carisma, de jogo de cintura; o presidente tem de ter mais jeito para as questões de política interna."
Igual a si próprio?
A verdade é que o actual presidente da Impresa é "uma pessoa extremamente carismática, que se confunde um pouco com a organização", diz Alexandra Barosa Pereira, especialista em coaching e consultora sénior da Mercer, consultora de recursos humanos. Mas bem mais importante do que determinar características ideias para um líder, defende, o importante será "identificar o que tem de ser mantido na estrutura porganizacional, manter o equilíbrio do grupo", ao mesmo tempo que se realçam "as características da pessoa que a tornaram importante para o novo lugar, que convém manter e reforçar".
Durante os próximos anos, o novo número dois terá certamente toda a gente de olhos postos em si, dentro e fora do grupo, alguns risonhos, mas outros à espera do primeiro deslize. "Em termos de pressão, isso é violentíssimo, Pedro Norton pode querer satisfazer os outros mas não se pode esquecer de si mesmo, tem de ter consciência daquilo que o estiver a agredir", lembra Alexandra Barosa Pereira.
Pelo sim pelo não, o melhor é ir dando de vez em quando uma vista de olhos na Geração de 60, onde o novo número dois da Impresa tem prometido continua a escrever, fiel a si próprio.