Investigadores criaram adesivo médico inspirado nas patas das osgas

O bioquímico português Lino Ferreira é um dos principais inventores de um dispositivo médico que poderá vir a ser usado em feridas internas

a Não há nada melhor do que as osgas para desafiar a gravidade: elas trepam paredes, sobem pelos vidros das janelas, cirandam pelos tectos de cabeça para baixo. Tudo graças a umas patas revestidas de pêlos microscópicos, que fazem com que as osgas tenham milhentos pontos de aderência a nível molecular e consigam agarrar-se a qualquer superfície. E que tal imitar essa tecnologia, já inventada pela natureza, para criar uma adesivo médico altamente aderente? Foi o que fez uma equipa norte-americana, da qual fazia parte o bioquímico português Lino Ferreira. A ideia de criar materiais que imitem as patas das osgas anda por aí há já algum tempo, com várias equipas a desenvolverem estruturas do tamanho de moléculas - as nanoestruturas. Houve já quem criasse materiais que rivalizam com o Homem-Aranha, que um dia permitirão fabricar fatos que se agarrem a superfícies secas. Já houve quem criasse materiais aderentes a superfícies molhadas.
Enquanto esteve no Instituto de Tecnologia do Massachusetts, nos EUA, a equipa de Lino Ferreira deu o passo em frente: desenvolveu um material aderente a superfícies molhadas, aplicável em situações médicas, como ferimentos internos, e que também é biodegradável e não causa praticamente reacções inflamatórias. Ontem, apresentaram o adesivo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
Para imitar as patas das osgas, a equipa criou uma nanoestrutura com vales e montes moleculares à base de duas moléculas existentes no corpo humano (glicerol e ácido adípico). Por cima, aplicou-lhes uma camada de "cola biológica", à base de açúcar, para pegar ainda mais.
O resultado? "É algo que esperamos nunca remover", diz um dos chefes da equipa, Jeffrey Karp, da Faculdade de Medicina de Harvard, num comunicado. Só por causa dessa diferença é que a "tecnologia" das osgas não é completamente imitada. Imagine-se o que seria se elas se colassem ao tecto para sempre...
Testes em tecidos de porco e em ratinhos mostraram que o novo adesivo funciona e que só desencadeia uma ligeira reacção inflamatória, que não põe em causa a aplicação médica.
Poderá vir a ser utilizado como adesivo em intervenções cirúrgicas ao coração, pulmões ou bexiga, por exemplo. Para mais, é biodegradável, pelo que se dissolve com o tempo, o que pode ser aproveitado para aplicar fármacos. Também é possível dobrá-lo e desdobrá-lo, por isso poderá ser útil em procedimentos cirúrgicos realizados através de pequenas incisões, em que é difícil suturar.
O adesivo continuará a ser aperfeiçoado, diz Lino Ferreira, de 36 anos, que agora trabalha no Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e no Biocant, em Cantanhede. Espera que esteja no mercado daqui a cinco anos.

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