Crítica

A raiz de Daniel Day-Lewis

Uma paisagem do Grande Oeste - e por cima um som como cordas agudas em distorsão. "Western" século XIX, demência do século XXI. Pioneiros, condenados, fazedores de caminhos-de-ferro, devotos da Igreja da Terceira Revelação. O inferno não são os Índios nem os outros. Está dentro de cada um. No ano de 1898, visto do pós-11 de Setembro, um homem sozinho no fundo do Grande Oeste perfura a América com uma picareta.

Primeiro os braços. Vêem-se no esforço dos bíceps sempre que a ponta de metal se crava na parede rochosa. Depois a cabeça de selvagem barbudo embrulhado num cobertor, cá em cima, cá fora, ao lusco-fusco. E, depois de partir a perna numa queda, o corpo que tanto pode ter 25 como 50 anos, fino, tenso, a arrastar-se pelo chão.

Mas quando esse homem estiver de pé e a câmara se aproximar, tudo vai convergir para a cara. O apertar do queixo e o lábio inferior sob o bigode. As sobrancelhas grossas a esticarem a expressão. É uma cara de 25 ou de 50 anos? Os olhos brilham como um caco azul apanhado pelo sol. São opacos. Não se vê nada lá para dentro. Tudo parece adensar-se no queixo, no maxilar, sempre a mascar, de vez em quando a cuspir, tenso na contracção dos malares, quadrado, ossilíneo, áspero, como a voz.

E quando essa voz enfim se ouvir, será tão opaca como os olhos. A voz de um homem que fura tudo em busca de petróleo e que nunca falará ao ouvido de alguém. Se não a ouvimos antes, com este sotaque do Oeste, é porque este homem, Daniel Plainview, só existe em "Haverá Sangue", o épico em que Paul Thomas Anderson perfura a América.

A partir de Joseph Conrad chamamos a isto o coração das trevas. Mas ao contrário do que acontece em Conrad, aqui não há narrador, ou seja, não há distância, nem fora, nem depois. Desde o fundo do Grande Oeste à mansão de magnata, Daniel Plainview é o próprio buraco negro de onde a loucura jorra. Plainview só existe por causa de um actor. É o que Paul Thomas Anderson diz. Escreveu esta personagem porque queria Daniel Day-Lewis. Agora, por causa de Plainview, Daniel Day-Lewis é um favorito para os Óscares. Se ganhar, será a segunda vez (a primeira foi por "O Meu Pé Esquerdo", em 1990) e será difícil encontrar quem não aplauda. Tem sido mais ou menos assim de cada vez que ele faz um filme.

Espírito de contradição

No ano em que a maior parte do mundo o descobriu, 1985, Daniel Day-Lewis era ao mesmo tempo o "punk gay" inglês classe baixa de "A Minha Bela Lavandaria" e o bem comportado noivo inglês classe alta de "Quarto Com Vista Sobre a Cidade". Depois foi o checo polígamo de "A Insustentável Leveza do Ser" (1988) e o deficiente irlandês de "O Meu Pé Esquerdo" (1989). Aprendeu a esfolar animais nas florestas da América como "O Último dos Moicanos" (1992) e beijou condessas sem descompor o laço em "A Idade da Inocência" (1993). Andou entre prisioneiros do IRA na preparação de "Em Nome do Pai" (1993) e tornou-se pugilista em "O Boxeur" (1997). Treinou o lançamento de facas para ser o carniceiro de "Gangs of New York" (2002) e agora, em "Haverá Sangue", é um Citizen Kane de unhas negras por causa do petróleo.

Volta a ser americano, o que lhe agrada por várias razões, incluindo o espírito de contradição. Filho de um Poeta Laureado da Grã-Bretanha nascido irlandês, Cecil Day-Lewis, e de uma mãe actriz, filha de um proprietário de estúdios de cinema, Daniel, 50 anos, cresceu em Inglaterra, numa casa culta e de esquerda. Os grandes amigos do pai eram poetas como Auden e Spender, e Cecil, que já passara os 50 quando o filho nasceu, levava-o em grandes viagens pela Irlanda rural e pô-lo numa escola pública.

Sempre contou como na sua vida se cruzaram a sofisticação literária e a rudeza proletária. Muito conveniente para um actor. Nota-se até hoje. O nariz, nobre mas quebrado, é uma boa síntese. Estudou na Bristol Old Vic School e fez a escola toda de actor shakesperiano, mas já tinha ido ao cinema e sabia que era mais Robert de Niro que Laurence Olivier. "Vi "Taxi Driver" cinco ou seis vezes na primeira semana e fiquei assombrado pela sua pura beleza visceral", contou Lewis ao "New York Times". "Não conhecia a América, mas aquilo era uma amostra do que a América pode ser e compreendi que, ao contrário das expectativas, eu queria contar histórias americanas."

A formação "very british" não lhe pareceu um obstáculo: "Sabia que essa dicotomia era possível. A Inglaterra vive obcecada com o lugar de onde vimos, e está determinada a manter-nos nesse lugar, seja numa sala de visitas ou na sarjeta. A grande tradição de liberalismo na Inglaterra é essencialmente uma esponja que absorve qualquer possibilidade de mudança. A America parecia-me diferente: a ideia da América como um lugar de infinitas possibilidades ficou definida para mim através dos filmes. Estou satisfeito por ter feito o trabalho clássico que fiz, mas simplesmente não era algo para mim. Sou um pouco perverso, e detesto fazer aquilo que é o mais óbvio."

Assim foi de filme em filme, construindo aquela reputação mítica de só fazer o que lhe interessa, com longos intervalos pelo meio, uma vez para fazer teatro em Inglaterra, outra para fazer sapatos em Itália. Viveu com Isabelle Adjani, de quem teve um filho - a repórter do "NYT", que passou bastante tempo com Daniel Day-Lewis, diz que isto se mantém assunto tabu -, e actualmente vive a maior parte do tempo na Irlanda com a mulher, a cineasta e escritora Rebecca Miller, filha de Arthur Miller. Têm dois filhos e conservam um apartamento em Nova Iorque.

Para "Haverá Sangue", aproveitou os dois anos em que P.T. Anderson estava a tentar juntar dinheiro para se meter na pele da personagem. "Fiquei muito desestabilizado pelo guião", recordou ao "NYT". "Para mim, isso é um sinal seguro. Se continuamos afectados por um texto, isso significa que não estamos a ver a história de fora, já demos um passo para dentro. Quando sou atraído para algo, dou um decidido passo para trás e pergunto-me se realmente posso servir a história tão bem quanto ela precisa."

Depois, diz, imergir na personagem não é a caricatura de ficar o tempo todo na cadeira de rodas se a personagem for um deficiente, mas sim "alcançar o mistério" daquela pessoa. "A maior parte dos filmes que faço levam-me para uma vida que é completamente misteriosa para mim. O meu objectivo principal é encontrar uma forma de tornar essa vida significativa para as outras pessoas."

De dentro para fora

Três actores portugueses com diferentes experiências de cinema e teatro, João Perry, 67 anos, José Airosa, 36, e Nuno Lopes, 29, têm encontrado em Daniel Day-Lewis matéria para inspiração. Airosa define-o por contraponto: "Um actor que é a antítese do Lewis é o Johnny Depp, que constrói as personagens de fora para dentro, que se inspira imenso nos elementos exteriores: guarda roupa, décors, etc., e que propõe uma criação mais plástica ou estética. O Lewis faz o movimento oposto, de dentro para fora. Vai à raiz da personagem, ao seu núcleo, à sua razão de ser, no fundo à sua impressão digital, o que torna as suas acções nítidas e perfeitamente transparentes, sem retórica e totalmente depuradas. Se bem que também goste bastante das criações do Depp, o Lewis tem um outro fulgor." Destaca "Em Nome do Pai": "É onde ele vai mais longe e onde mergulhou mais fundo. É o seu "coração das trevas". Consegue transmitir o máximo de emoção com o mínimo de recursos possíveis.

E é um actor extraordinariamente elegante. Às vezes faz-me lembrar um actor que também admiro muito, o Burt Lancaster." O primeiro filme de Lewis que João Perry viu foi "A Minha Bela Lavandaria" e a partir daí admirou sempre a evolução. "Representa com uma grande interioridade, processo talvez mais próximo dos ingleses que dos americanos." Além de Eastwood, Day-Lewis adora Brando e De Niro, actores do Actor"s Studio, do Método de fusão com a personagem. Mas Perry acha que Lewis não é nada Actor"s Studio. "A diferença é a abordagem psicológica. Ele parece ser muito crítico em relação às personagens, há mais uma exposição crítica do que uma identificação." Por exemplo, "Gangs of New York". "Fazia de uma maneira quase irónica um filme que era um "grand guignol", como se não fosse para levar tão a sério o lado brutal." O que Day-Lewis faz é "mais uma mostragem do propósito do actor, torná-lo claro para o espectador", pensa Perry. Por outro lado, "não é nada o actor-vedeta, está mais ligado à representação teatral", sem nunca ser frio. "Nunca tenho uma reacção emocional porque estou atento ao "acting", mas o "acting" dele é muito convincente não sendo óbvio. No Jack Nicholson, por exemplo, vê-se a construção toda, é uma caricatura - o Day Lewis é subtil. E tem uma coisa simpática: não enlouquece com o que faz, impõe-se um período grande de pausa para recuperar."

Nuno Lopes celebrou o regresso de Day-Lewis quando Scorsese o convenceu a actuar em "Gangs of New York", segundo filme que fizeram juntos, depois de "A Idade da Inocência". "Sente-se uma quantidade gigantesca de trabalho por trás, um estudo minucioso, psicológico, mas também um estudo físico e um gosto pela mutação de papel para papel", diz Nuno Lopes. "A personagem vive através daquele corpo. O que aquela pessoa é, também é como se mexe ou faz um gesto. É sabido como ele passou seis meses na floresta para "O Último dos Moicanos", e no "Boxeur" já se dizia que ele se podia transformar num "profissional". O que ele faz é perceber como é aquele corpo. Sem nunca perder - e é o grande risco dos actores de composição - o lado emocional e psicológico muito profundo." E sem esmagar o filme. "Combina uma inteligência sobre o papel e sobre o filme com uma perspicácia muito grande. Não é só o "show" do actor. O trabalho do actor não se sobrepõe ao filme. Inspira-me imenso." Quando lhe perguntam como é, Daniel Day-Lewis fala num processo de "anarquia controlada". Corre que é desejado para o próximo "Exterminador".

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