Era uma vez um grão-vizir que...

O mau carácter e a ambição desmedida fazem deste personagem
um dos mais populares anti-heróis da BD europeia de expressão
franco-belga. Surgiu para entreter crianças numa colónia de férias...

Jean Tabary DesenhadorJean Tabary nasceu a 5 de Março de 1930 em Estocolmo, na Suécia. O início da sua carreira na BD ocorre em 1956, com a série de aventuras Richard et Charlie no semanário Vaillant. Dois anos mais tarde, na mesma publicação, surge Totoche, também num registo aventureiro. Ainda nesse ano, sempre em Vaillant, assina as aventuras de Grabadu et Gabaliouchtou. Em 1960, nas páginas da revista Pilote, vê a luz do dia a série Valentin le Vagabond, inicialmente com argumento de René Goscinny, mas depois prosseguida a solo. O ano de 1962 assinala o aparecimento de Iznogoud (argumento de Goscinny), primeiro na revista Record e depois, a partir de 1968, na Pilote. É a mais conhecida e conseguida das criações de Tabary, ainda hoje muito popular.
René Goscinny Argumentista
Argumentista, desenhador e editor, René Goscinny nasceu em Paris em 1926. Viaja pela primeira vez para os EUA em 1945. Em 1949 conhece Harvey Kurtzman, Willy Elder e Jack Davis, fundadores da revista Mad (1952). É nos EUA que trava conhecimento, em 1950, com Jijé e Morris, criadores europeus que também trabalhavam na América. No ano seguinte, já na Europa, inicia uma longa colaboração com Albert Uderzo, abandonando o desenho para se consagrar à criação de séries como Jehan Pistolet e Oumpah-Pah (Humpá-pá, em português). É um dos fundadores da revista Pilote (1959), onde surge pela primeira vez Astérix. Em 1962 colabora na revista Record, para a qual concebe, com Jean Tabary, a série Iznogoud. Morre em 1977.

a Do ignóbil grão-vizir que quer ser califa no lugar do califa já toda a gente sabe o essencial: ele não presta e é por isso que se chama Iznogoud... Paradoxalmente, o seu mau carácter e uma ambição desmedida fazem deste personagem um dos maus mais populares da banda desenhada europeia de expressão franco-belga.
Tal como Lucky Luke ou Astérix, Iznogoud nasceu sob boa estrela - a do seu argumentista René Goscinny. A série, que apareceu no primeiro número da revista Record, em 1962, começa por se intitular Les Aventures du Calife Haroun El Poussah. Mas muito depressa o grão-vizir vai usurpar o protagonismo do califa para se assumir como a "estrela da companhia".
Foi o próprio Goscinny quem teve a ideia deste personagem ao escrever uma história para a série Le Petit Nicolas (desenho de Sempé). Na novela La Sièste, publicada em 1961 na revista Pilote, Goscinny fala de um monitor de uma colónia de férias que conta uma história para tentar que Nicolas e os seus companheiros durmam a sesta: "Era uma vez, num país distante, um califa muito bom, mas que tinha um vizir muito mau..." Inspirado pelo texto, Sempé faz um desenho que é o primeiro esboço do futuro Iznogoud.
A origem deste herói é um pouco como a de outros personagens concebidos por Goscinny, Astérix incluído - eles são desenvolvidos para integrar novas publicações prestes a surgirem no mercado, a pedido dos seus responsáveis. Foi isso que aconteceu quando a Dargaud e as Editions de la Bonne Presse (católica) decidiram lançar a revista Record, tendo solicitado a Goscinny que criasse novas aventuras. O argumentista pensa em Tabary, com quem já colaborara na série Valentin le Vagabond. E assim nasce Iznogoud, que começara por ser, na cabeça de Goscinny, uma série de detectives antes de se tornar, para grande surpresa do desenhador, uma banda desenhada cuja acção decorre em Bagdade...
Para abreviar razões, o projecto foi um êxito editorial, como aliás aconteceu praticamente com todas as ideias do co-fundador da revista Pilote. O sentido de humor e do non sense, a par de um inteligente culto do paradoxo, são a imagem de marca desta série de recorte clássico em torno das manigâncias, nunca bem sucedidas, do vizir e do seu criado Dilat-Laraht.
A morte de Goscinny, em 1977, não levantou dificuldades particulares ao desenhador, que decidiu prosseguir com a série sozinho, primeiro sob a chancela de vários editores (Dargaud, Bédéstar, Glénat), depois em projecto editorial com o nome do desenhador. "Os personagens que ele imaginou eram tão fortes que bastava segui-los", explicou em 1987 Jean Tabary numa entrevista à revista Télé K7.
Conjuntamente com Astérix, Lucky Luke e Le Petit Nicolas, Iznogoud "é um dos quatro personagens-fétiche do panteão pessoal de Goscinny", escreve Christian Marmonnier em Le Dictionnaire Goscinny. Quarenta e seis anos depois da sua criação, aquela série já conquistou o direito a ser considerado um clássico, cuja mais-valia reside sobretudo na genialidade delirante e inventiva das histórias escritas por Goscinny, e depois prosseguidas por Tabary.

Coube à revista O Falcão, editada entre 1958 e 1960, a honra de publicar pela primeira vez em Portugal histórias assinadas por Tabary - Pincelão, Grabadu e Gabaliuchtu (Grabadu et Gabaliouchtou) e outras bandas desenhadas curtas. Mas as primeiras histórias de Iznogoud só surgiram em 1968 na revista Pisca-Pisca, que daria a conhecer mais tarde outra série do mesmo autor, Valentin o Vagabundo. Em álbum, a série começou por ser editada pela Meribérias-Liber (três álbuns entre 1979 e 1981) e é actualmente publicada pelas Edições Asa (quatro volumes
até à data).

(Pesquisa de datas: Leonardo de Sá)