Plágio com recurso à Internet é problema nas escolas portuguesas

Está ao alcance dos dedos. Basta aceder a um site, copiar e colar. O método começa a ser usado aos 10 anos e pode continuar por toda a vida académica

a Ao ler um trabalho de um aluno, um professor tem a sensação de já ter lido nalgum sítio aquelas frases. Como não há nada melhor que tirar todas as dúvidas, o docente dirige-se ao computador, escreve uma frase do trabalho e descobre em poucos segundos a fonte que o aluno não referiu na bibliografia. Plagiar, diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é "apresentar como seu aquilo que copiou ou imitou de obras alheias". Plagiar é um verbo que muitos alunos portugueses conjugam à frente do computador, recorrendo a motores de busca da Internet e usando apenas três teclas: "Ctrl" e "C" para copiar e "Ctrl" e "V" para colar no trabalho que se vai apresentar ao professor. "Copiar e colar".
Seja em que ano lectivo for e tenha o estudante a idade que tiver, o método adoptado é o mesmo, dizem os professores. Mas as suas opiniões dividem-se: há quem acredite que há cada vez mais alunos a recorrer a este esquema e há quem diga que parece haver mais casos só porque os professores têm mais facilidade em identificá-los. Certo é que o plágio não é novo, só é feito com maior rapidez do que quando se copiava, manualmente, as enciclopédias ou outros compêndios.
É no 2.º ciclo, quando os alunos têm 10 e 11 anos, que os professores de História e Geografia de Portugal, Ciências da Natureza, Matemática ou de Área Projecto começam a pedir pequenos trabalhos escritos.
Seja qual for o tema, a pesquisa faz-se na Internet e os alunos "tiram exactamente o que lá está", revela Graça Grou, vice-presidente do conselho executivo da EB 2, 3 de Telheiras n.º 2, em Lisboa. Vitória de Sousa, professora de Língua Portuguesa do Agrupamento de Escolas Carlos Paredes, na Póvoa de Santo Adrião, confirma.
Mas as crianças não fazem por mal, salvaguardam as docentes. "Eles nem sabem o significado de plágio", diz Vitória de Sousa. "Não há noção dos direitos de autor ou que se estão a apropriar dos trabalhos de outros", acrescenta Pedro Rosário, do Departamento de Psicologia da Universidade do Minho. Os mais velhos, do 3.º ciclo, também desconhecem não só o significado da palavra como acreditam que tudo o que lêem na Internet é verdade, revela Ana de Sousa, professora de Português na EB 2, 3 António Gedeão, em Odivelas. "É complicado fazê-los mudar de ideias", explica.
O plágio persiste no ensino secundário, confirmam docentes deste ciclo. Mariana Lagarto, professora de História na secundária da Amora, desconfia dos textos demasiado bem escritos. Cândida Ferreira, professora de Filosofia da secundária Dr. Joaquim de Carvalho, Figueira da Foz, e Jorge Baptista, professor de Biologia da secundária Afonso Lopes Vieira, de Leiria, desconfiam dos textos escritos em português do Brasil. Edviges Antunes Ferreira, professora de Português na secundária Rainha D. Leonor, em Lisboa, desconfia quando mais do que um aluno lhe entrega trabalhos com frases muito semelhantes.
Ter sentido crítico
"O problema não está no meio, mas nas capacidades intelectuais que a escola desenvolve. Estamos a falhar porque a cultura light chegou a todo o lado e há uma profunda irresponsabilidade de quem tem de formar", critica Ivo Domingues, investigador da Universidade do Minho, que publicou um livro sobre o copianço nas universidades.
Os professores não se revêem nesta crítica. Na escola de Telheiras, em Lisboa, os docentes acompanham todas as fases do trabalho, de maneira a que os alunos façam um resumo utilizando palavras suas e apelam a que consultem outras fontes. O tema é trabalhado nas disciplinas de Área Projecto e de Estudo Acompanhado e, se os jovens continuarem a fazê-lo, pode ser debatido na aula de Educação Cívica, informa Graça Grou.
"Ter sentido crítico é um objectivo da formação dos alunos que pode ser desenvolvido através do debate, de leitura de um jornal ou de um texto. Mas leva muito tempo e não há muito espaço para fazer esse trabalho", lamenta Vitória de Sousa.
Mesmo os alunos do secundário não têm noção de que plagiam, aponta Jorge Baptista, de Biologia. "Como a Internet é de utilização aberta, não vêem mal no que fazem. Este é um meio de cultura novo e neste período de transição isto vai continuar a acontecer", considera.
Como se evita o plágio? Obrigando os alunos a fazer os trabalhos na sala de aula, responde Mariana Lagarto. Evitar pedir trabalhos expositivos, mas propor recensões ou resumos, sugere Cândida Ferreira. Acompanhar a pesquisa que os estudantes têm de fazer, aponta Graça Grou. Obrigá-los a usar outras fontes, como os livros, aconselha Edviges Antunes Ferreira.
"Os alunos têm de pensar e não podem recorrer ao plágio. Procuro treiná-los em termos de comportamentos e de atitudes, para que reconheçam que as ideias e os textos não são deles", revela Mariana Lagarto.
O plágio combate-se também com castigos - para já, o único adoptado pela maioria dos professores é devolver o trabalho. Depois, alguns esperam que o aluno entregue um texto original, outros limitam-se a não classificar. Um castigo pouco significativo porque os trabalhos também contam pouco na avaliação, dizem.
O PÚBLICO questionou o Ministério da Educação sobre se o problema do plágio é motivo de preocupação ou se já gerou algum tipo de orientação às escolas, mas não obteve resposta.

a Se no ensino básico e secundário o plágio se faz por desconhecimento de como se devem usar as fontes, no ensino superior ele já é intencional, consideram os professores deste nível. Por isso, aqui as penas podem ser mais pesadas e chegar à reprovação na cadeira em que se plagiou. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior não tem orientações sobre esta matéria e deixa a questão ao critério das escolas.
"À medida que os professores confrontam os alunos com o erro, estes vão tomando consciência do que é o plágio. Por isso, quando chegam ao ensino superior, já há intencionalidade" no acto de copiar textos de outros para trabalhos, sem citar fontes, analisa Pedro Rosário, do Departamento de Psicologia da Universidade do Minho.
No ensino superior, o plágio é um "problema de carácter individual", acusa Manuel Ferreira Rodrigues, professor de História na Universidade de Aveiro, a quem custa bastante que os alunos "usem descuidadamente as fontes, sem consciência de que estão a cometer um erro".
Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, é nos primeiros anos da licenciatura que os professores ensinam a fazer selecção de informação, a fazer citações e a identificar fontes, explica Clara Correia, presidente do conselho pedagógico. O vício da Internet está tão entranhado nas práticas dos alunos que é preciso reensiná-los a usar as "fontes tradicionais", diz.
Depois, é esperar que os jovens façam bom uso do que aprenderam e não caiam em tentações. Mas, "assim como é fácil plagiar, também e fácil ao professor ir à Internet e descobrir", afirma Augusto Barroso, professor catedrático de Física da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que já reprovou um aluno por plágio.
Os docentes apanham os alunos recorrendo a programas de computador ou pedindo-lhes para defender oralmente o trabalho, diz Pedro Lourtie, presidente adjunto dos assuntos pedagógicos do Instituto Superior Técnico, de Lisboa. "É preciso um código de conduta", avança.
Esse código de conduta é algo em que as universidades vão começar a trabalhar, revela Ramôa Ribeiro, reitor da Universidade Técnica de Lisboa, para quem "é preciso mudar a cultura em Portugal".
"A penalidade por plagiar deve ser desproporcionada, de maneira a que os alunos pensem que não vale a pena arriscar", defende João Gabriel Silva, presidente dos conselhos directivo e científico da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra. Nesta escola, o plágio leva à reprovação imediata na disciplina em causa, diz o regulamento. É para evitar esta pena que a Universidade de Coimbra procura fazer um "controlo e acompanhamento muito próximo do percurso escolar dos alunos", explica Cristina Robalo Cordeiro, vice-reitora.
José Manuel Silva, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, lembra que os casos de plágio, mais ou menos descarados, não se ficam pelos primeiros anos da licenciatura, mas chegam às teses de mestrado e de doutoramento. Aí, são feitos de maneiras mais subtis. "O respeito pelo que o outro faz, pela autoria, é uma questão de cidadania", conclui Pedro Rosário. Bárbara Wong
a Um inquérito realizado a 300 docentes, feito pela Associação de Professores e Leitores do Reino Unido, revela que para 58 por cento dos docentes o plágio é um problema sério e 28 por cento calculam que pelo menos metade dos trabalhos que lhes são entregues foram copiados da Internet.
O estudo, feito em Dezembro, encontra-se no site da organização e inclui algumas histórias relatadas pelos docentes. Gill Bullen, do Itchen College, em Southampton, conta que dois estudantes entregaram trabalhos sobre o texto de Romeu e Julieta de Shakespeare que eram praticamente iguais e não respondiam ao pedido feito pela professora. Um docente de Leeds revela que um aluno nem sequer se deu ao trabalho de limpar a publicidade da página de Internet que copiou.
Não chegam a metade os professores inquiridos que dizem que as suas escolas têm políticas de combate ao plágio. Essas passam por não classificar os trabalhos ou pedir que eles sejam feitos de novo. Mas este é um problema difícil de detectar, admitem, por falta de tempo e de meios. Mais de 55 por cento dizem que os alunos não têm noção do que é o plágio e confundem-no com a pesquisa normal que devem fazer para os trabalhos.
No fim-de-semana passado, em Brighton, a professora universitária Tara Brabazon deu uma conferência onde criticou o fenómeno a que chama "Universidade Google". Brabazon diz que centenas de alunos em todo o Reino Unido apresentam trabalhos medíocres porque só usam o que os motores de busca lhes dão.
Quatro em cinco já fizeram
Um outro inquérito foi feito na Universidade de Lyon, França, e envolveu 1100 estudantes e 120 professores de três escolas. O estudo revela que quatro em cada cinco estudantes confessam que já recorreram ao "copy/paste", ou seja, já copiaram um texto da Internet para um trabalho, sem o alterar. Por isso, não é de estranhar que nove em cada dez professores já se tenham confrontado com essa situação.
Num inquérito semelhante divulgado em 2006, 70 por cento dos estudantes calculam que um trabalho pode ter, pelo menos, um quarto dos textos copiados da Internet. Entre os que retiram da Internet menos de 25 por cento dos textos para os trabalhos, três em cada cinco dizem que "raramente" recorrem a esse método.
Existe uma confusão entre citar um texto e plagiá-lo, aponta o estudo, pois três em cada cinco professores consideram que as citações estão mal identificadas nos trabalhos.
EUA diz não à Wikipédia
"Just say no to Wikipedia." O aviso está à porta da biblioteca de uma escola de Nova Jérsia, nos EUA, mas o movimento começa a alastrar a outros estabelecimentos de ensino. E muitos estão, pura e simplesmente a bloquear o acesso a esta espécie de enciclopédia on-line. As razões são três: a facilidade de acesso que leva os alunos a recorrerem a sites como o Google ou a Wikipédia; a rapidez com que os adoptam como uma fonte credível e, a terceira, o modo como a copiam.
Será a proibição uma resposta eficaz? A decisão destas escolas tem sido motivo de discussão na Internet. Denise Gonzalez-Walker, que escreve no blogue de educação do jornal Seattle Post-Intelligencer, pergunta porque é que não se pode fazer da Wikipédia uma oportunidade para ensinar. É "uma pena" que os professores e bibliotecários não façam desta situação uma oportunidade para pôr os alunos a rever as afirmações da Wikipédia, a investigar o que está escrito; e a discutir e a reflectir sobre os novos meios de comunicação, considera. Bárbara Wong
- Quando os textos estão
escritos em português do Brasil.
- Quando as frases estão demasiado elaboradas, com palavras ou conceitos que os alunos daquela idade desconhecem.
- Quando recebem mais do que um trabalho com frases ou estruturas semelhantes.
- Quando os alunos escrevem conceitos ou defendem ideias que estão erradas. Nem tudo o que está na Internet está certo.
- Quando se pesquisa uma frase do trabalho num motor de busca da Internet (ou num software especializado de detecção de plágio) e se descobre de onde é que o aluno tirou aquela informação.
- "Corta e cola" de alguns sites na Internet sem que estes sejam citados no texto a apresentar ao professor. Como fonte, o aluno refere, por exemplo, a Wikipédia. Assim, se o professor for confirmar se alguma parte do trabalho foi copiada directamente da Wikipédia, que é a fonte citada, não encontrará sinais de plágio.
- Encomenda e compra de trabalhos nos muitos sites que oferecem este serviço na Internet.
- As bibliotecas virtuais são fonte dos mais diversos artigos e trabalhos académicos.
- Reprodução de trabalhos
feitos por colegas de anos anteriores.

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