Portugueses da Venezuela regressam à Madeira por causa da falta de segurança

Dantes vinham os pais com os filhos pequenos. Agora, "os jovens também vêm",
nota o historiador Alberto Vieira. Ninguém sabe quantos são. Sentem-se em cada canto da ilha

a Houve retornos e semi-retornos no rescaldo da revolução de 25 de Abril de 1974. Tornou a havê-los com a grave crise da década de 80. E quando Hugo Chávez se tornou Presidente da Venezuela (Dezembro de 1998). E no fim das enxurradas que desfiguraram Vargas (Dezembro de 1999). E daí para cá - a cada solavanco pessoal ou nacional. Nunca a presença da Venezuela se sentiu tanto na Madeira. Não há estatística sobre regressos, vinca Brazão de Castro, secretário do governo regional que tutela a emigração: abundam luso-descendentes com dupla nacionalidade e portugueses com residência dupla que se movem sem registo. Há, como repara o historiador Alberto Vieira, uma "evidência".
A Venezuela sente-se nas caixas dos supermercados, nas lojas dos centros comerciais, nos corredores da Universidade da Madeira, nas noites da discoteca Copacabana... Não só no vozear afectado, também na música que esvoaça de repente, nos produtos arrumados nas prateleiras, nos salgados expostos nos cafés mais insuspeitos. A arepa, a mais popular expressão culinária venezuelana, infiltrou-se no quotidiano da região. Manuel Bonito nunca importou tanta Harina Pan.
A "culpa" é de quem tem dois países dentro, como Olavo Manica, fundador do Clube Social das Comunidades Madeirenses. Há seis anos, quando regressou, deixou escritório aberto, negócios pendentes. Agora, anda "mais cá do que lá". Não encontrou "até hoje povo mais amável do que o venezuelano", mas já não suporta viver sob "pressão constante". A insegurança "é tremenda", há quem perca tudo num sequestro. O "socialismo do século XXI" soa-lhe a "delírio tropical", Olavo perdeu "confiança para investir".
Há quem não queira (ou não possa) regressar. E há quem vá adiando a decisão, acalentando esperança, vendo "o que aquilo dá". Muitos registam matrimónios (mistos) e filhos (alguns já adolescentes ou mesmo adultos), solicitam (ou renovam) passaportes e bilhetes de identidade. Em suma, tratam de acautelar a cidadania europeia (ver página 6).
Já não vêm só emigrantes de primeira geração e/ou os seus filhos menores. "Hoje, os jovens também vêm à procura de segurança, de estabilidade", nota Alberto Vieira. Às vezes, até deixam por lá os pais. Presos aos seus negócios, ao seu estatuto sócio-económico.
Adaptação difícil
A mudança pode doer. Meliza Peña (25 anos) olha um miúdo de quase dois anos que parece uma roda-viva no clube social: "Este já é nascido aqui." O marido, um luso-venezuelano de 33 anos, foi "sequestrado três vezes", fartou-se de viver com medo. Ela aprecia o sentimento de segurança que a mudança lhes trouxe, mas sofre. "Viver numa pequena ilha não é fácil", sobretudo quando se cresceu num "país tão grande" como a Venezuela.
Não falta quem a compreenda no clube aberto em 2000. "É tudo perto. Fizeram as vias rápidas, agora é pior", resmunga Hélder Pestana atrás do balcão. "É asfixiante", observa uma mulher que apanhou a conversa a meio. "Lá, levanto-me às cinco da manhã e ando eléctrico. Aqui, parece que ando com um carro de bois. Deve ser da humidade!", torna o regressado.
Ali, mais do que em qualquer outro ponto da ilha, respira-se Venezuela. No salão, fotografias de misses e minimisses, de renhidos torneios de dominó e de canastra (jogo de cartas). No bar, arepas, empanadas (uma espécie de rissol), cachapas (panquecas de massa de milho) hallacas (iguaria natalícia), Mi Vaca Chicha (uma espécie de leite feito de arroz com açúcar que se serve com canela e gelo), Malta Caracas (cerveja de malte).
Dali, do centro com grandes planos de crescimento, Olavo avisa sem se cansar: "Cada um tem de avaliar bem a sua situação." Alguns precipitam-se, vendem tudo, mudam-se para a Madeira, depois não se adaptam, voltam para trás. Têm de tornar a comprar casa, móveis, electrodomésticos, talheres, toalhas...
O ideal será fazer viagens de reconhecimento. Como fez a estudante de Jornalismo Mary Beth Andrade este Verão. A proposta de Constituição a referendar a 2 de Dezembro define a Venezuela como um Estado socialista e isso cheira-lhe a um futuro de "pensamento único". Não quer exercer jornalismo nesse quadro, mas terá o mercado laboral da ilha lugar para ela?
Nem é preciso sair do clube para encontrar histórias de inadaptados. Madalena Gouveia Pestana nasceu lá, casou lá, teve lá os filhos. Em 2000, mudou-se para a Madeira. As filhas por ali andam; o filho tornou à Venezuela: "Aqui, quem trabalha como empregado não chega a lado nenhum." Para ascender "é melhor a Venezuela". "Lá, fazes um bolo e vais vender para a rua e já estás a fazer negócio", opina, por seu lado, Gilda Pestana.
Gilda embarcou com seis anos, "é como se tivesse nascido lá". O pai por lá permanece, os irmãos, os sobrinhos. Mas o marido "não quer saber daquilo para nada". Regressaram em Maio de 2002, um mês depois do golpe e do contragolpe de Estado. Ela tinha 50 anos, ele 60. "Com esta idade, o que é que se faz aqui? O comércio está saturado. As pessoas investem em apartamentos e não há quem os alugue!"
Não é só a economia que não convida. A maquilhagem, a exuberância, a alegria das portuguesas da Venezuela dá azo a coscuvilhice. Alguns jovens fecham-se em grupos (excluídos ou aliados?), como se pode ver no campus da Universidade da Madeira. Mas há mais mundo. Há quem opte por outros países, como Espanha, Estados Unidos (Miami). O irmão de Mary Beth escolheu Inglaterra.
O número de cidadãos de exclusiva nacionalidade venezuelana na Madeira desceu. Dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras: 606 em 1980; 1485 em 1985, 1783 em 1990; 1156 em 1995: 484 em 2000, 390 em 2005. Pelas reemigrações, mas também pela aquisição de nacionalidade portuguesa. Dantes, os portugueses não se empenhavam tanto em solicitar nacionalidade portuguesa para os filhos nascidos na Venezuela, diz o conselheiro das comunidades portuguesas Rui Ernesto Urbano. Alguns não o faziam nem ao regressar a Portugal. Como os de Elena Gonçalves: nascida em 1965, aterrou na Madeira com 12 anos. "Só mudei a nacionalidade quando acabei o curso de Enfermagem. Lembro-me de ir ao consulado por causa do serviço militar." Com a abolição de fronteiras na União Europeia, o passaporte português ganhou notoriedade. Com o avanço da revolução bolivariana ganhou força de "plano b". Muitos dos que nunca tinham pensado em registar os descendentes fizeram-no na última década. E muitos dos que adquiriram nacionalidade venezuelana (para poder comprar negócios) recuperaram a portuguesa, acrescenta Urbano. Sobretudo nos últimos meses circulam rumores acerca da possibilidade de o Estado assumir o controlo das crianças e adolescentes, aplicando mecanismos para impedir a saída de menores do país sem a sua autorização.