50 anos do lançamento do Sputnik

Primeiro que tudo, faço aqui o meu registo de (não) interesses: não sou comunista, nem especial fã da União Soviética; mas também não sou anticomunista, nem partilho daquelas ideias temíveis (e temidas) sobre a mesma União Soviética (ou actual Rússia).Vem isto a propósito do artigo sobre os 50 anos do lançamento do Sputnik.
O vosso artigo é claramente tendencioso, desvirtuador da realidade (e note-se que a realidade, ao contrário da verdade, não depende do critério do jornalista), e portanto muito pouco rigoroso, o que não é aceitável num jornal como o PÚBLICO.
Em parte do artigo, dá-se a entender (muito explicitamente, até) que os americanos teriam deixado, intencionalmente, que os russos lançassem o primeiro satélite artificial e até o Presidente dos EUA teria promovido esse interesse.
 Noutro parágrafo, diz-se que, "cerca de uma década depois, os EUA reclamariam o seu papel de liderança na corrida ao espaço, pondo um homem na Lua, em 1969".
Ora acontece que os EUA nunca tiveram qualquer liderança na corrida ao espaço, conforme se pode ver pelo registo dos principais feitos tecnológicos nessa área. De uma forma sucinta, temos:
1957 - Sputnik, primeiro satélite artificial
1957 - cadela Laika, primeiro ser vivo lançado no espaço
1960 - dois cães russos são os primeiros seres vivos a regressarem após um voo espacial
1961 - Iuri Gagarin, primeiro homem no espaço, durante 108 minutos, em 12 de Abril (a 5 de Maio os EUA lançam Alan Shepard, mas apenas num voo suborbital de 15 minutos)
1963 - Valentina Terechkova, primeira mulher no espaço
1965 - Alexis Leonov é o primeiro cosmonauta a sair para o espaço (fora da nave), durante 20 minutos
1966 - Primeira sonda a "aterrar" (alunar) suavemente na Lua, Luna 9 .
1969 - Soyuz 4 e Soyuz 5 efectuam a primeira atracagem entre naves espaciais
1971 - Primeira estação espacial habitada (Saliut)
1996 - Lançamento do primeiro módulo da MIR (estaria 14 anos em órbita, quase o triplo do inicialmente previsto)
1998 - Lançamento do 1.º módulo da ISS (o Zaria), a partir de Baikonur
2007 - Os russos continuam a deter, por larga margem, os recordes de permanência no espaço, tanto em tempo como em número de pessoas (quase um ano e meio é o recorde absoluto). Para efeitos de futuras viagens interplanetárias (Marte, por exemplo), esta é uma área de conhecimento crucial.
(Em termos de verdadeira inovação tecnológica, deve-se creditar aos EUA a primeira saída para o espaço de um astronauta sem qualquer ligação à nave, com propulsão autónoma.)
Saliente-se que, em 1969, não seria para os russos um grande desafio tecnológico ter posto um homem na Lua. A questão é que, em termos de projecto espacial, tal era irrelevante, conforme se comprovaria mais tarde (desde 1972 ninguém vai à Lua!).
Nesta altura, já os russos estavam a desenvolver (mais uma vez, muito antes dos americanos) um conceito muito mais útil, que foram os laboratórios espaciais e as estações espaciais (o actual grande projecto é precisamente a ISS, onde a maior parte da tecnologia é russa).
Um caso semelhante se passou com os vaivém. Muita gente desconhece que a Rússia também desenvolveu um vaivém, que chegou a voar, mas acabou por optar por manter a anterior filosofia de lançamento para o espaço. Pelos problemas que os vaivéns têm tido (dois explodiram e os restantes estiveram anos parados, obrigando os americanos a recorrer a naves russas para realizarem projectos no espaço) confirma-se que também nesta aposta levaram a melhor.
Colocar homens na Lua foi, obviamente, muito mediático, o que é característica dos EUA (a terra do marketing, afinal). E foi a única forma de os EUA se limparem de uma derrota a zero (uma espécie de golo de consolação).
A política da União Soviética foi sempre a de uma extrema discrição, de absoluto sigilo, mesmo, em muitos casos.
O próprio feito de Yuri Gagarin só foi divulgado aquando do regresso à Terra.
São políticas diferentes, mas não devemos ficar ofuscados pelos holofotes dos que querem brilhar no palco.
Penso que seria útil a publicação desta carta, para esclarecimento dos leitores menos informados desta realidade.
Rui Murta
Lisboa
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