Blade Runner O legado do escritor de ficção científica preferido de Hollywood

Hoje, nos EUA, estreia Blade Runner: The Final Cut, antes de sair em DVD esta edição comemorativa do 25º aniversário do filme
de Ridley Scott. É mais uma celebração
do génio de Philiph K. Dick, cuja obra tem vindo a ser recuperada em várias frentes

a Philip K. Dick, o autor de ficção científica que lutou durante anos com os seus demónios pessoais, nunca viu Blade Runner, a primeira adaptação de Hollywood da sua escrita. Morreu com um AVC apenas quatro meses antes da estreia, em 1982. A filha enlutada, Isa, então com 15 anos, lembra-se de ir ver o filme numa sala de San Rafael esperando que isso, de alguma forma, mantivesse parte do seu pai vivo. "Fui com a minha mãe e lembro-me de que estavam talvez mais duas pessoas na sala e assim era em todo lado - o filme foi um fracasso total", disse Isa Dick Hackett. "Lembro-me também que as luzes se acenderam antes da dedicatória no fim, por isso nem a vi. Foi como um estalo na cara".
Depois do traumático fiasco de Blade Runner, a família assumiu que o escritor tinha "futuro zero no cinema", como afirmou a sua filha. Isto teria acrescentado outra desencorajadora nota de rodapé a uma vida sofrida. Dick teve cinco casamentos falhados, escreveu a maior parte dos seus romances a engolir anfetaminas e, com a sua paranóia ou visões religiosas, sempre se sentiu um outsider.
Mas se Philip Kindred Dick foi um insatisfeito solitário em vida, na morte as suas ideias tornaram-se perfeitas para uma idade digital que quis que a ficção científica não fosse só sobre "aliens" mas também sobre os alienados.
Postumamente, Dick tornou-se uma fábrica para projectos de Hollywood, e a sua ficção chegou aos ecrãs por nove vezes. Entre os filmes estão Relatório Minoritário, de Steven Spielberg, Desafio Total (Total Recall) de Paul Verhoeven, Pago para Esquecer (Paycheck) de John Woo e, ainda este ano, Sem Alternativa (Next) de Nicolas Cage.
Entretanto Blade Runner, saiu da obscuridade para se tornar um dos mais celebrados filmes de ficção científica de sempre. Hoje, volta aos cinemas americanos com Blade Runner: The Final Cut, uma edição de 25º aniversário que, pela primeira vez, concretiza a visão do realizador Ridley Scott com um arranjo meticuloso.
Tudo isto foi uma reviravolta surpreendente para a família do perturbado escritor cujo trabalho foi presságio do movimento cyberpunk; ainda decorre o debate sobre a qualidade da sua prosa contra a urgência dos seus conceitos, mas agora, finalmente, ele é pelo menos mencionado tão frequentemente quanto os ícones familiares do género durante a sua vida, os Asimovs, Bradburys, Clarkes e Heinleins. (Quatro dos romances de Dick da década de 1960 acabaram de ser republicados pela prestigiada Library of América, dando ao escritor uma capa dura que o dignifica.)
Nascido da frustração
Em Setembro, Lisa Hackett, que tem 40 anos e mora em Bay Area, juntou-se a Ridley Scott e a grande parte do elenco de Blade Runner na gala de estreia da versão reconstituída no Festival de Cinema de Veneza. O burburinho da imprensa e a decoração da sala no Lido foi o contraponto surreal da triste experiência na Califórnia no Verão de 1982.
"Estava constantemente a recordar como tinha sido da primeira vez que vi o filme e como tinha entrado com um fio de esperança de que o filme iria trazer mais atenção ao meu pai e à sua escrita. Eu adorei o filme, mas desisti dessa esperança. E agora é tudo fantástico".
Hackett e a sua irmã Laura Leslie são as principais figuras por trás da Electric Shepherd, a companhia de produção da família que está a abrir um escritório em Los Angeles e foi criada em 2005, em parte devido à frustração; depois de ver os fracassos de Hollywood como Screamers e Paycheck, a prole de Dick decidiu que precisava de ter uma mão mais forte em projectos futuros.
Neste momento, disse Hackett, há seis projectos cinematográficos em várias fases de negociação ou desenvolvimento, incluindo avanços que podem finalmente trazer à vida um dos seus trabalhos, Ubik, no cinema.
Os criadores de Hollywood têm namorado Ubik, o romance de 1969, mais do que qualquer outro trabalho da biblioteca Dick. O conto de telepatas conflituosos e realidade escorregadia garantiu-lhe um lugar na lista dos 100 melhores romances em língua inglesa desde 1923 da revista Time, em 2005.
Há também grandes esforços no sentido de chegar aos jogos de vídeo e à banda desenhada, e uma colecção de livros áudio de todos os seus contos está prevista para 2008. Há também uma série para televisão escrita por David Hayter (argumentista de X-Men e de Whatchmen, previsto para breve) que junta cerca de 12 dos contos de Dick num enquadramento narrativo.
A sua vida vai dar um filme
De todos os projectos, nenhum tem tanta prioridade com a biografia de Dick que está a ser escrita pelo guionista Tony Grisoni (de Delírio em Las Vegas); O actor já nomeado para um Oscar Paul Giamatti é protagonista e co-produtor. Hackett disse esta semana que o argumento irá cruzar a história da vida de Dick com cenas do seu último e inacabado romance, The Owl in Daylight, uma típica história de Dick que mistura temas do fantástico e de desencanto.
Premissa básica: uma cultura alienígena que não consegue ouvir chega à terra e insere um bio-chip no cérebro de um compositor para transmitir a experiencia da música à sua sociedade pela primeira vez - mas o individuo que escolhem é um escritor medíocre que arranja faixas de música para filmes de série B e os extraterrestres anseiam por uma experiência mais rica do que a que o seu talento pode provocar. Mas então o bio-chip começa a inspirá-lo e empurra-o para novos níveis de criatividade, mas começa também a danificar-lhe o cérebro.
"Ele está a compor esta música fantástica, mas o problema é que está a queimar o cérebro", contou Hackett. "De muitas formas esta é realmente a história do meu pai. Ele não conseguia escrever - tinha aquelas experiências sobre as quais tinha de escrever - mas era tudo a um tremendo esforço para ele. Por isso a história ficcional e a sua história encaixam-se na perfeição".
Isto poderia apontar para um filme que conta a vida de um escritor apagando as fronteiras entre o seu mundo real e aquele que criou nas páginas dos livros, como é o caso de Naked Lunch ou American Splendor (onde Giamatti também entrava).
A comparação com The Naked Lunch parece especialmente relevante; tal como William S. Burroughs, Dick também viveu uma vida de desvario. Paranóia, consumo de drogas e relações fracturantes são o coração da história e Hackett admite ter grandes reservas quanto a vê-lo no grande ecrã.
"Mas eu acho que este filme vai ser feito, é inevitável, por isso penso que a família deve tomar parte. É melhor estar presente, definitivamente", disse Lisa Hackett. "Penso que cheguei a um ponto em que considero positivo se pudermos ter um papel, alguma influência, mantê-lo sensível e garantir que tem um coração e não se foca apenas no que é sensacional".
A meia-irmã Leslie faz eco dos seus comentários: "De certa maneira, sentimos que temos de o fazer, porque alguém vai fazer um filme para preencher esse vazio".
Dick foi casado cinco vezes antes da sua morte aos 53 anos em Orange County. Teve três filhos, cada um de uma mulher diferente. Isa, que é o diminutivo de Isolde, foi a segunda e a sua mãe, Nancy Hackett, divorciou-se do autor em 1972 depois de seis anos difíceis. Isa continuou em contacto com o pai através de cartas e visitas ocasionais, e disse que intuitivamente compreendeu como navegar em torno das suas ansiedades, assim como do seu intenso desconforto no meio de multidões e interacções sociais alargadas.
Neste momento, Hackett é a face mais visível da família e os filhos continuam com a biblioteca considerável do pai. "Nós os três", disse ela orgulhosamente, "nunca entrámos em desacordo em qualquer projecto". Considera um dos seus grandes sucessos A Scanner Darkly, (O Homem Duplo) a adaptação de Richard Linklater de 2006 que teve como protagonistas Keanu Reeves, Robert Downey Jr e Winona Ryder. O filme usou um processo de animação que possibilitou capturar os elementos fantásticos da história com um pequeno orçamento.
No cenário, Reeves dirigiu-se a Lisa e humildemente agradeceu-lhe pela honra de permitir que o filme fosse feito, um momento que ficou para Hackett. Agora, disse ela, a ênfase da família é trabalhar "com verdadeiros fãs do material" em projectos que capturem a singularidade criativa da fonte do material. Noutras palavras, mais como A Scanner Darkly e menos como a acção pesada e alto conceito de, por exemplo, Total Recall.
O robô-pai
Quando foi a última vez que Hackett viu o seu pai? Bem, de certa forma em 2005. Foi quando uma equipa de cientistas - todos entre os muitos devotos de Dick - puseram a sua face num andróide sinistro de pele que parecia real, órbitas de câmara e uma inteligência artificial que lhe permitia reconhecer velhos amigos. Quando Hackett viu a cara quase desmaiou.
"Era muito parecido com o meu pai", disse ela. "Quando o meu nome foi mencionado começou a discorrer sobre a minha mãe e uma vez que ela me tinha levado e que o tinha deixado a ele. Não foi nada agradável".
Hackett, sabendo que a sua herança e actividades de vida requerem uma certa afinidade com o bizarro, disse que "compreendia" a atitude dos criadores do robô e que era lisonjeador que eles tivessem escolhido o seu pai para ser a cara da sua curiosidade de alta tecnologia. Aquele andróide, já agora, foi alegadamente "perdido" por uma companhia aérea não identificada, confirmam os seus transportadores de bagagem, uma história sombria, no mínimo, mas Hackett não tem saudades do aparelho.
"O voo em que seguia, quando se perdeu, dirigia-se para Santa Ana. Foi onde o meu pai morreu. Faz sentido, penso eu. Ainda está por aí algures".

Exclusivo PÚBLICO/Lo Angeles Times