Robert Mugabe: o libertador vai nu

a Quem é Robert Mugabe? Um tirano demencial da estirpe de Idi Amin ou Mobuto? Nada disso, dizem os especialistas, mesmo que os resultados de quase três décadas de poder absoluto no Zimbawe se assemelham aos dos seus congéneres africanos de má memória. Quem é, então, o líder africano que desafia abertamente a Europa, ameaçando tornar num pesadelo diplomático a cimeira com África que a presidência portuguesa da União Europeia queria transformar num dos seus triunfos?Em primeiro lugar, um homem aparentemente longe do fim violento que mereceram outros líderes africanos com idêntico curriculum. Apenas um dia depois de o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, ter escrito que não considerava "apropriado" participar numa cimeira que contasse com a sua presença, a agência Reuters considerava: "Apesar do colapso económico, o Presidente Robert Mugabe parece estar mais forte que nunca, com a oposição na defensiva e as nações ocidentais divididas sobre a melhor forma de lidar com ele."
Em termos económicos e sociais o seu legado é catastrófico. O Zimbabwe, que já foi o "celeiro de África", alimenta hoje mais de um terço da sua população graças aos programas da ONU. Mais de 80 por cento da população não tem emprego. A taxa de inflação é a maior do mundo. Os refugiados internos e externos são já hoje uma das maiores preocupações de António Guterres. A esperança de vida da população baixou de 60 anos em 1990 para 37 (34 para as mulheres) agora, e o rendimento per capita de 950 para 440 dólares. A sida alastra tanto como a pobreza e a fome. As eleições são farsas, os opositores são mortos, presos ou espancados, os jornalistas silenciados ou maltratados, os observadores internacionais e as agências humanitárias expulsos.
Uma situação banal para os critérios africanos? Não. Uma situação pior, porque o regime se revela indiferente a quaisquer pressões internacionais. Porque o buraco negro para o qual arrasta o seu país ameaça transformar-se numa das maiores desgraças africanas. E talvez porque Mugabe é o único líder da geração dos libertadores que ainda está no poder.
Robert Gabriel Mugabe nasceu a 21 de Fevereiro de 1924, numa missão católica em Kutama, na antiga Rodésia do Sul. Cresceu solitário, entre a educação católica dos maristas e dos jesuítas, o nariz enfiado nos livros, e a mãe. Estudou na Universidade de Fort Hare na África do Sul, onde conviveu com alguns dos futuros líderes históricos africanos como Julius Nyerere (Tanzânia) ou Kenneth Kaunda (Zâmbia). Foi para o Ghana ensinar e receber a influência africanista e marxista de Kwame Nkrumah. Regressou à Rodésia do Sul para se juntar a um dos dois grandes movimentos de libertação, a ZANU (União Nacional Africana do Zimbabwe) de influência maoísta, em contraste com a ZAPU de Joshua Nkomo, de influência soviética.
Preso em 1964, passa dez anos nas cadeias do regime branco de Ian Smith. Divide-se entre mestrados por correspondência e a preparação de um golpe contra o líder histórico da ZANU, o arcebispo Ndabaning Sithole. Recorreu sempre a qualquer arma, incluindo o assassínio, para passar por cima dos seus opositores internos. Participou directamente nas negociações de Lencaster House que levaram ao fim do regime de Ian Smith e à realização de eleições livres para escolher os novos governantes do Zimbabwe. Primeiro-ministro em 1983, num governo partilhado com Joshua Nkomo, rapidamente se liberta dele. Em 1987, muda o regime e transforma-se em Presidente. Já leva no curriculum a responsabilidade pelo massacre de mais de 20 mil civis da etnia ndebele durante as guerras tribais que devastam o país na década de 80. É célebre a sua "5ª Brigada", treinada por norte-coreanos.
Até 2000, o seu poder cada vez mais absoluto deixa intactas as 4500 plantações que são propriedade de empresários brancos. São elas que fazem do Zimbabwe um dos maiores exportadores africanos de produtos agrícolas. Em 2000, manda confiscar as suas terras sem direito a recurso ou a indemnização para as distribuir pelos camponeses pobres. Porque não obtém a necessária lei no Parlamento, deixa a tarefa a cargo dos "veteranos de guerra", capitaneados por Chenjerai Hunzvi, que se intitula a si próprio "Hitler". As cenas de vandalismo, de morte e de destruição correram mundo. O colapso económico é a consequência. Mugabe atribui as culpas, como sempre, aos brancos colonialistas e acusa Tony Blair, seu inimigo de estimação, de usar "armas químicas" para destruir as terras de cultivo.
A União Europeia decide-se finalmente por sanções, depois de os seus observadores terem sido impedidos de entrar no país para fiscalizar as eleições de 2002. Mugabe e mais de uma centena de membros do seu governo estão impedidos de viajar para a Europa e os seus bens congelados. Suspenso da Commonwealth, expulso do FMI, Mugabe não perde uma oportunidade para furar as malhas da proibição. Vai ao funeral de João Paulo II, obrigando a Itália a abrir uma excepção para que possa chegar ao Vaticano. Conta com a cumplicidade, cada vez mais embaraçada, dos seus vizinhos sul-africanos, mas a própria União Africana vê-se obrigada a condenar o Zimbawe por violação dos direitos humanos e da oposição.
Qual é, então, a diferença em relação aos tiranos como Amin ou Mobutu?
Carismático, inteligente, trabalhador, culto, os biógrafos descrevem-no como um verdadeiro british. Adora Londres (onde deixou de poder ir), o cricket, o chá, uma alimentação frugal. Lê diariamente a imprensa ocidental. Apesar das provocações, como o seu pequeno bigode à Hitler, os analistas vêem-no mais como um cínico despeitado do que como um ditador desmesurado e paranóico.
Os que não querem aceitar que ele é apenas um tirano degenerado por 30 anos de poder absoluto, atribuem à morte da sua primeira mulher, Sally Hayfron, em 1992, uma ganesa, educada, ponderada, activa e inteligente, a origem dos seus excessos. Outros dizem que a culpa foi de Mandela, o ícone africano, respeitado em toda a parte, que lhe retirou a ribalta do último dos libertadores.