Café Central dá lugar a mais uma loja mas A Brasileira pode vir a ser recuperada

Para recuperar alguns dos espaços emblemáticos da Baixa da cidade, o vereador da Habitação de Coimbra defende a reconversão d"A Brasileira num "espaço cultural e de lazer"

A O Café Central, um dos cafés históricos da cidade de Coimbra, encerrou ao público e vai reabrir em breve como loja de meias. Espaço emblemático da cidade e lugar de encontro de escritores e intelectuais da cidade, como Miguel Torga, o Central era dos últimos cafés históricos de Coimbra que ainda permaneciam abertos. Situado na Rua Ferreira Borges, fazia parte do conjunto de espaços emblemáticos da Baixa da cidade, juntamente com os cafés Arcádia e A Brasileira, que também já encerraram as portas há alguns anos.
"É de lamentar que os espaços emblemáticos da cidade vão encerrando aos poucos", afirma Mário Nunes, vereador da cultura da Câmara de Coimbra, acrescentando que o Central, apesar de nunca ter possuído um ambiente cultural tão rico como A Brasileira, "era um local emblemático da cidade, frequentado, por exemplo, por Miguel Torga". Ao mesmo tempo que encerra o Café Central, alguns metros à frente, na mesma rua, encontra-se à venda o imóvel que acolheu A Brasileira durante quase 80 anos. Em 1995, o espaço foi adquirido por uma loja de pronto-a-vestir que agora também vai abandonar o local, onde ainda permanece o antigo letreiro do café A Brasileira.
Jorge Gouveia Monteiro, vereador da habitação da Câmara de Coimbra, defende que esta é a altura de recuperar o espaço e transformá-lo num ponto de animação cultural do centro da cidade. "É uma oportunidade única de inverter o processo de descaracterização completa da Baixa e de a câmara municipal, com investidores e outras personalidades, repor a marcha da história no seu caminho correcto", defende, acrescentando que a autarquia deve ser "o motor da iniciativa".
Santa Cruz ainda resiste
A Brasileira foi fundada em 1921 e, alguns anos mais tarde, durante as décadas de 60 e 70, viria a ser um espaço de tertúlias e debates frequentado por Manuel Alegre, Paulo Quintela, Zeca Afonso, Alberto Vilaça, António Arnaut, além de Torga.
"Era um café de debate cultural e literário, mas também político e de conspiração contra o regime de Salazar", frisa Mário Nunes, que entende que a iniciativa de recuperar o café "é positiva", mas impossível de levar a cabo apenas pela autarquia. "São necessários parceiros privados que acarinhem a iniciativa e que assegurem a vitalidade do espaço", defende.
O dinamismo cultural e social que os cafés históricos deram à cidade de Coimbra é, aliás, o tema do livro que Mário Nunes acaba de lançar. Intitulado O Triângulo Escaleno - A Brasileira, a Arcádia e a Universal, o livro relata a história destes três espaços emblemáticos da cidade, situados a poucos metros uns dos outros. "A Brasileira era o espaço das tertúlias culturais, a Universal era uma barbearia de renome onde paravam as maiores figuras da cidade e o Arcádia era o café das tertúlia desportiva: até quarta-feira, discutia-se o jogo anterior da Académica; depois de quarta, faziam-se os prognósticos para o próximo jogo", refere.
Depois do encerramento do Arcádia, d"A Brasileira e agora do Central, o Café Santa Cruz é um dos últimos cafés históricos da Baixa de Coimbra.
Actualmente, é muito frequentado por turistas, mas há várias décadas era por lá que paravam os apoiantes do União de Coimbra. "O Arcádia era da Académica, mas no Santa Cruz reuniam-se os apoiantes do União de Coimbra. Era uma rivalidade entre cafés", diz Mário Nunes. Nos últimos anos, na Baixa de Coimbra encerrou também o Café Internacional, junto à Estação de Coimbra-A, e o Cinema Tivoli, ali ao lado.
Com Lusa

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