Torne-se perito

1937-2007 João Vário O poeta quase secreto

Era um "negro greco-latino". Tem toda uma obra por revelar. Os livros publicados que desapareceram e os livros nunca publicados. Filho de
um pescador do Mindelo, morreu em casa. Por Alexandra Lucas Coelho

a Os de casa chamavam-lhe Djom. Os da ciência chamavam-lhe Varela. Os da literatura chamavam-lhe Timóteo Tio Tiofe, G. T. Didial e, principalmente, João Vário. Casa era Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde.
Aí nasceu, num dia 7 de 1937, e aí morreu, aos 70 anos, num dia 7 de 2007 (terça-feira passada), João Manuel Varela, em família Djom, em pseudónimo Timóteo Tio Tiofe, G. T. Didial, principalmente João Vário.
Estudante lendário de Medicina em Coimbra e Lisboa, neurologista com percurso internacional, homem com uma "ética de trabalho protestante" e "raciocínio infinito", deixa uma obra poética extensa, densa e quase por revelar, das mais importantes na literatura africana de língua portuguesa.
Guarde-a bem quem a apanhou, ao longo das décadas, em publicações discretas, por Coimbra, Mindelo, Antuérpia.
Hoje, em Portugal, é quase certo que não se encontra.
"O que se passou foi que começou a publicar quando as literaturas africanas estavam na fase de grande militância", situa o ensaísta Osvaldo Silvestre. "E a posição dele é muito indiferente a tudo isso. Tem pouco a ver com a literatura africana. A grande referência é a Bíblia, e depois Saint-John Perse, onde ele foi buscar o poema longo. Depois, o Eliot, o Aimé Césaire, com a enumeração caudalosa. Mas são quase nulas as referências à negritude."
Deu-se, assim, "uma rejeição e incomodidade dos autores africanos" face a João Vário, ao ponto de "pouco faltar para dizerem que era um poeta alienado em relação à luta de libertação".
Esta "des-sintonia" com o seu tempo manifesta-se na sequência de livros Exemplo Geral, Exemplo Relativo, Exemplo Dúbio, Exemplo Próprio, etc, depois reunidos no volume Exemplos 1-9. Esta é a obra central de João Vário.
Será com outro pseudónimo, Timóteo Tio Tiofe, que recompõe uma ligação africana, ao publicar os Cadernos de Notcha. Notcha era o seu pai, pescador.
Nesta família pobre do Mindelo, além dos três irmãos de sangue, João Vário teve como irmão adoptivo um orfão que se veio a tornar o poeta Corsino Fortes.
E há um verso em que Corsino Fortes chama a João Vário "negro greco-latino". Mas, sublinha Osvaldo Silvestre, que conheceu Vário, "é um erro supor que isto é uma denúncia". "Ele disse-me que dizia isso de si mesmo." Tinha "uma ética de trabalho protestante, levantava-se às cinco da manhã", sem abdicar de ser africano. "É um escritor pós-colonial no sentido mais profundo. Muito influenciado pela cultura ocidental, mas que se reivindica como africano."
Parecido com Miles
João Vário foi um aluno de Medicina tão brilhante, conta-se, que as suas orais se tornaram num espectáculo concorrido. Saiu de Coimbra com a reputação de melhor entre os melhores. Veio a terminar o curso em Lisboa.
O neurocirurgião João Lobo Antunes conheceu-o quando ele trabalhava com o seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, no Hospital de Santa Maria. "Um homem muito bonito, parecido com o Miles Davis", de "convicções políticas muito fortes", "já com ideias de separatismo, de independência", na Lisboa colonial. "O meu pai gostava muito dele, e lia-o. Falavam muito de literatura."
E foi com uma recomendação de Lobo Antunes, diz, que o cientista cabo-verdiano partiu para a Bélgica, onde se tornou professor em Antuérpia.
Logo a seguir à independência, João Vário quis regressar a Cabo Verde, conta o seu sobrinho António Neves, também poeta. "Tinha um sonho, que era criar a Universidade em Cabo Verde. Mas não teve apoio, e acabou por regressar a Antuérpia. E agora, 30 e tal anos depois é que está a nascer a universidade..."
Osvaldo Silvestre elege um verso de Vário sobre Cabo Verde, o país a construir a partir de tão pouco: "Esta república é uma casa cheia de pevides."
Mas, conta António, o tio Djom "não era homem de trazer amargos de vida". Manteve-se crítico, foi voltando a Cabo Verde para ver a mãe, o irmão. E ao jubilar-se de Antuérpia regressou de vez ao Mindelo, ainda com a universidade na cabeça.
Quando lhe perguntavam se não tinha sido difícil adaptar-se, após mais de 40 anos fora, respondia: "Esta é a minha cidade, a minha baía. Não sou eu que me adapto, é a cidade que me acolhe."
Nunca casou. "Teve várias companheiras e tem três filhos, um em Lisboa, uma em Antuérpia e um da passagem por Angola, onde ajudou a fundar um instituto de plantas medicinais", indica António.
O sobrinho recorda-o como "um homem extraordinário, de raciocínio quase infinito quando tinha interlocutor".
Continuou sempre a escrever, até sofrer dois AVC nos últimos anos. Mas quando António lhe perguntava: "Então, tio, como é que isso vai?", saía-se assim: "Não te preocupes, hei-de fazer vida cara à morte."
"A tristeza maior foi há cerca de dois anos, quando perdeu a capacidade quase de pegar na caneta. Mas tinha consciência de que a obra estava feita. O terceiro Caderno de Nochta está parcialmente escrito, o 12º livro dos Exemplos está parcialmente escrito..."
José Luís Tavares, poeta cabo-verdiano residente em Lisboa, exactamente 30 anos mais novo que João Vário, leu-o tarde, felizmente ou infelizmente. "Descobri-o há quatro anos, através do Luís Carlos Patraquim, que foi a Cabo Verde e trouxe os Exemplos 1-9. E foi um assombro descobrir que em Cabo Verde havia um poeta daquela natureza. Eu tive que fazer uma educação negativa, desler todos aqueles poetas cabo-verdianos que tinha lido na adolescência. E ele era um poeta como qualquer grande poeta de qualquer parte do mundo. É uma poesia tão forte que ter-me-ia ajudado a encontrar o meu caminho mais cedo - ou da qual ter-me-ia sido difícil libertar..."
Tavares, que tem citado insistentemente João Vário em recitais e entrevistas, acha que "o talento dele não foi reconhecido, em Cabo Verde e na Lusofonia". Cabo Verde "já merecia um Prémio Camões e, depois da morte de Manuel Lopes, teria que ser dado ao João Vário", julga. Uma opinião partilhada por Francisco José Viegas, director da Casa Fernando Pessoa, que em Novembro se preparava para organizar um programa sobre e com João Vário.
Nos "meios africanistas praticamente não é estudado, é uma espécie de pária", nota José Luís Tavares.
Uma poesia que quis "captar alguma característica da dicção do mundo, que ninguém pode pretender que seja fácil ou óbvia ou destinada directamente aos nossos ouvidos", disse Vário, da sua obra. "E é uma tarefa levada a cabo com grande parte da tradição da poesia universal sobre os ombros, porque a técnica do verso tentou servir-se humilde e aplicadamente de várias fontes para poder ser verdadeiramente sua, para se forjar um modo e uma via, um caracter próprio, de cariz metafísico."
Falta poder lê-lo.
Canto Primeiro

Da morte nos ficou esse dom de a pensarmos
como coisa sua, coisa por que a pensamos
e acaso não a exprime, porque a
designamos.
Bizarro não é, pois, estar morto, mas lograr
que o tempo em si consigo não aja,
e erga a mão como quem sabe que a mão é
nossa
e não exprime
o que ambos exprimem,
uma, por mão, outro, por tempo que
aprende,
exprimem e juram em redor da mesa.
Para o que há sido o modo, a qualidade
de uma infinita aparição
ou o que há de exílio no exemplo que a
dissemina,
decidem a tradição e a carência
a espécie de facilidade que rememoraremos.
Sobretudo, decidem quando devemos
morrer
para pagar
a legitimidade ou o que há sido anomalia.

Porque de tudo nos ficou esse domde não o sentir, de ficar com ele
só quanto seja a coisa que não tivemos.
A maturidade ou a alegoria que a tem
de outra coisa, oh a maturidade
não nega o que tememos.
O que queríamos dizer está já morto;
que poderíamos, pois, agora
acrescentar a essa alegria?
Da condição da morte, o que morre
é nosso, e, além dele, dos bens nossos.

(Do poema "Exemplo Geral")

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