Crítica

O sapo e o escorpião

Já vimos este ano um belo filme sobre adultos que continuam a ser crianças e que não se apercebem de como isso lhes pode fazer mal: chamou-se "Pecados Íntimos" (2006) e veio, de alguma maneira, provar que ainda pode haver esperança para o cinemadito "independente" americano, numa altura em que essa "independência" é tudo menos evidente. "Jindabyne" é, provavelmente, melhor ainda do que "Pecados Íntimos" foi. É outro filme sobre adultos que não têm consciência das crianças que ainda são com todo o perfil de filme "independente" americano. Excepto que a terceira longa-metragem deRay Lawrence, adaptando um dos contos do grande escritor americano Raymond Carver (que já fora aflorado por Robert Altman no excelente "Short Cuts - Os Americanos"), vem da distante Austrália e transfere a acção de Los Angeles para a cidadezinha de Jindabyne, no estado da Nova Gales do Sul. Ou melhor: para a "nova" Jindabyne, que veio substituir a "velha" Jindabyne que, nos anos 1960, foi (como a nossa Aldeia da Luz) submersa pelas águas de uma barragem.Mas os segredos e as pulsões que percorrem subterraneamente os habitantes de Jindabyne podem serrepentinamente trazidos à superfície pela água que corre. Poderemos nunca saber o que levou StewartKane a emigrar da Irlanda para a Austrália, porque é que a sua mulher Claire o abandonou após o nascimento do filho Tom (irrepreensíveis LauraLinney e Gabriel Byrne a ancorar um filme de conjuntoonde ninguém é mais importante). Nem porque é que, quando Stewart e os seus amigos partem para agrande pescaria anual e encontram o cadáver de uma mulher a flutuar no rio, decidem continuar a pescar esó informar a polícia quando regressam, passado o fim-desemana.

Mas sabemos que o fazem. E que esse lapso de decência e moralidade vem perturbar o equilíbrio precário da cidade, vem revelar as zonas de fractura e fragilizar as armaduras emocionais de todos eles. O rio, lá fora, continua a fluir; a natureza não se apieda com estas questões morais que não conhece, substituídas pela simplicidade da sobrevivência.

O segredo de "Jindabyne", articulando com delicadeza uma afeição atenta pela humanidade das suas personagens e um distanciamento preciso e imparcialque a justapõe à beleza impiedosa da imutável natureza, é precisamente não explicar nada. Há coisas para as quais não existe explicação nem justificação plausível. Sabemos, desde o princípio, quem matou a mulher que Stewart encontrou; mas esta não é a história de uma investigação policial à procura de um assassino. A Ray Lawrence interessa muito mais sondar a fragilidade e a fraqueza do ser humano, explorar as feridas que se abrem numa comunidade quando as fachadas caem e a imagem quefazíamos das pessoas se vê distorcida pela realidade. Há quem explique a atitude dos pescadorespelo racismo encapotado (a vítima era aborígene), pela misoginia (e se o morto fosse um homem?), peloegoísmo pragmático (a morta vai continuar morta quer se pesque ou não). Mas a verdade é que, por mais que se procure, não há explicação.

É isso que "Jindabyne" mostra quando, no terceiro acto, tudo parece encaminhar-se para umapaziguamento, para uma espécie de "resolução" que"fecha" a história a contento de todos com o final feliz possível - e, depois, se encarrega de repôrtudo no seu devido lugar com uma coda tão brutal comoperturbante que nos mostra que essa resolução é tão falsa como as fachadas que rodeiam toda a gente. Nadamudou. Lá fora, a natureza - filmada com um cuidadolânguido pela câmara de David Williamson, como quem diz que contra a beleza de cortar a respiração desta paisagem o ser humano é irremediavelmente imperfeito e impotente - é exactamente a mesma. Porque é que o escorpião mata o sapo que o ajuda a atravessar o rio, mesmo sabendo que se vai afundar com ele? Porque é essa a sua natureza.

"Jindabyne" é um dos melhores filmes estreados em Portugal este ano.

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