Quem é Joe Berardo?

Amanhã Joe Berardo abre o seu novo museu. O que saiu das polémicas negociações com o Estado. E diz:
"A minha intenção sempre foi fazer um museu no Centro Cultural
de Belém e consegui"

a Quando chegamos Joe Berardo levanta os olhos. Está sentado num escritório de tal forma diminuto que mal chega para o acomodar a ele e aos três membros da Fundação Colecção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea com quem está a conversar num semi-círculo de cadeiras sem hierarquias nem protocolos. Estamos na zona administrativa do que entre 1993 e 2006 foi o Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém (CCB), um espaço que, dirigido por nomes como Margarida Veiga ou Delfim Sardo, se afirmou como um dos mais relevantes pontos do circuito das artes plásticas em Portugal.
Hoje, Margarida Veiga representa o Estado no Conselho de Administração da Fundação Colecção Berardo, um organismo com cinco membros, dois pelo Estado, dois por Berardo e um escolhido de comum acordo, mais um presidente honorário - o próprio Berardo - que, feitas as contas, acaba por ter voto decisivo nas mais importantes decisões.
Na Primavera do ano passado, no já célebre protolo de Abril, foi a esta fundação com capitais públicos e privados, que o governo de José Sócrates passou a gestão do módulo de exposições do CCB - que amanhã reabre como o novo Museu Berardo - , numa espécie de moeda de troca pela permanência em Portugal da maior e mais valiosa colecção privada de arte moderna e contemporânea do país.
Berardo não o esconde: "A minha intenção sempre foi fazer um museu no CCB e consegui." Foram dez anos de polémicas e negociações interrompidas para que, de repente, em Outubro de 2005 os acontecimentos se precipitassem. Berardo foi taxativo: se até ao fim do ano não tivesse da parte do Estado uma proposta concreta de transformação da sua colecção de arte em museu tirava-a do país. Dois meses volvidos, José Sócrates marcava uma reunião com o investidor e coleccionador madeirense e a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, em que se decidiria que o CCB receberia a colecção, um conjunto de 862 obras de pintura, escultura, fotografia e instalação que a Christie"s viria a avaliar em 316 milhões de euros.
Contribuição excepcional
Com novas negociações e polémicas pelo meio, em Abril do ano passado era assinado o protocolo de permanência da colecção no país por dez anos. Até 2016 Berardo e o Estado comprometiam-se a dar 500 mil euros por ano cada para a aquisição de obras que continuem a colecção do Museu Colecção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea.
Por uma colecção que uns defendem como preciosa e outros dizem não estar sequer entre as 50 melhores da Europa, o Estado entregava a gestão do módulo de exposições do CCB à administração do museu. Comprometia-se ainda a assegurar todos os anos um orçamento para funcionamento e programação: três milhões de euros em 2007, dois milhões em gastos de funcionamento e manutenção e um milhão para programação e actividades, verbas absolutamente excepcionais - há dois anos, o Museu do Chiado, um museu nacional onde o Estado tem também começada uma colecção de arte contemporânea, teve 20 mil euros para aquisição de novas obras.
Berardo não esconde um certo sentimento de vitória e "sonho realizado". Aliás, à primeira vista, parece esconder muito pouco este homem de gestos largos e gargalhadas vivas que os seguranças do museu tratam por "senhor comendador" e que ele cumprimenta do alto dos seus certamente quase dois metros.
É o tipo de homem com quem o comum dos mortais se pode imaginar a jantar, uma figura despretensiosa que dá abraços de partir ossos e sonoras palmadas nas costas. Isto enquanto diz o que pensa e por vezes, até o que não tinha ainda pensado. É o tipo de homem que não se coíbe de tratar uma ministra por "babe" e de, a meio de negociações que envolvem milhões, lhe lançar à cara um sonoro "dahhhh" (o mesmo que lhe chamar parva, mas com menos letras).
Ele queria a Mona Lisa
Berardo é o tipo de homem que subiu a pulso, vindo do nada, e chegou lá a cima, a uma zona onde considera poder estar-se nas tintas. Foi até ele quem, há uns anos, contou a blague de como um dia, quando vivia ainda na África do Sul, chegou a casa com a sua primeira tentativa de compra de uma obra de arte - a mulher explicou-lhe que tinha acabado de comprar uma cópia barata da famosa Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, talvez a pintura mais conhecida do mundo, vista todos os anos por milhões pessoas no Museu do Louvre, em Paris.
Passadas várias décadas, Berardo continua a não saber o nome de muitos dos artistas a quem compra obras, incluindo os portugueses. Uma espécie de pícaro para os bastidores mais ácidos das artes plásticas, ainda hoje um dos círculos intelectuais mais duros. Acontece que Berardo tem poder e aquilo a que chamam faro. Além disso, sempre soube fazer-se assessorar.
Entrava a década de 90 quando Francisco Capelo - também coleccionador, mas de design - prometou fazer dele "o Sr. Gulbenkian do século XXI". Berardo já tinha muitas obras, contudo, foi Capelo quem começou a dar um sentido cronológico às suas aquisições, procurando para a colecção um carácter museológico.
Capelo aproveitou bem a crise do mercado da arte nos anos 90, tentanto ter representados os grandes protagonistas do século XX e cobrir os mais importantes movimentos.
Cinco anos após as aquisições, e com o mercado já a subir, nomes como Agnes Martin, Sam Francis, Anselm Kiefer, Joan Mitchell, Gerhard Richter e Andy Warhol já tinham duplicado o seu valor. Nomes como Picasso, Mondrian, Dalí, Duchamp, Donald Judd, Joseph Beuys, Bruce Nauman e Bill Viola ficaram na colecção ao lado de portugueses como Vieira da Silva, Paula Rego, Julião Sarmento e Pedro Cabrita Reis.
Em 1997, o antigo casino da vila de Sintra, era transformado no Sintra Museu de Arte Moderna para servir de sede à sua colecção - uma etapa de visibilidade que Berardo nunca assumiu como definitiva.
Enquanto arrancavam as polémicas sobre o destino definitivo da sua colecção, na Cultura, Berardo não ficou parado. Há sete anos, quando o Estado não teve dinheiro para exercer o seu direito de preferência na aquisição da Quinta da Bacalhoa, entrou com oito milhões de euros e tornou-se proprietário de um dos melhores exemplares da Renascença portuguesa.
Classificada como monumento nacional desde 1910 - o que quer dizer que não pode sofrer intervenções sem parecer prévio das entidades que regulam o património -, a Bacalhoa recebeu um cultivo intensivo de vinha. Foram vários os pedidos oficiais para interrupção de trabalhos. Em vão. Segundo testemunho de vários profissionais, foi derrubado todo um pomar, bem como os antigos plátanos, nogueiras e ciprestes que protegiam a quinta da estrada adjacente - tudo substituído por relvado. Antigos alegretes de craveiros foram substituídos por arbustos de alfazema inglesa. Tudo enquanto Berardo, o filho e o advogado - seus representantantes na fundação nascida do acordo de Abril - sabiam estar legalmente obrigados a proteger e salvaguardar a Bacalhoa.
Quando lhe falamos das reservas que parte do mundo da Cultura tem quanto ao seu museu, Berardo responde simplesmente: "Mas, se não querem, se amanhã houver melhor alternativa, "Please, let me go!" Não quero ninguém a fazer-me favores. Não vale a pena dar bolota a quem não quer comer."