Siza e Calapez desenham para nova igreja de Fátima

Igreja da Santíssima Trindade terá trabalhos plásticos de vários autores europeus. Artistas portugueses explicam porque aceitaram convite

a Debruçados, três homens partem as pedras em pequenos cubos e vão montando a calçada, como se fosse um enorme puzzle. Daqui a alguns meses, o alcatrão que impera no chão do santuário de Fátima será substituído por calçada portuguesa, com pedra da região, informa o reitor do santuário, Luciano Guerra.Para já, a pedra rodeia apenas a entrada da Igreja da Santíssima Trindade que ainda está em construção. É o maior templo do país e a maior obra pública, orgulha-se António Carvalho, engenheiro da Somague, responsável pela empreitada.
O templo é também um espaço onde a Igreja Católica quer perpetuar o seu gosto pelo belo. Ali estarão concentradas obras de cerca de uma dezena de artistas plásticos. Pedro Calapez e Siza Vieira foram os portugueses escolhidos pelo santuário e por Alexandro Tombazis, o arquitecto grego que desenhou a Santíssima Trindade. Outros nomes seleccionados: Maria Loizidou, do Chipre, que fará uma escultura para a entrada; Catherine Green, da Irlanda, responsável pelo crucifixo do interior da igreja; e o francês Robert Schad, que vai executar a Cruz Alta, que substituirá a que existia no cimo do santuário.
A poucos quilómetros do Porto, numa fundição, o artista plástico Pedro Calapez acompanha o processo de manufactura da enorme porta de bronze que servirá de entrada para a igreja. Com oito metros de largura e outros tantos de altura, a alusão ao Espírito Santo é clara: uma pomba voa, por entre as nuvens gigantescas.
Calapez é responsável ainda por 20 painéis sobre os mistérios do rosário, que ladearão a porta; Siza fará dois painéis de azulejo sobre as vidas de São Pedro e de São Paulo, "homens que pecaram e se arrependeram", define o reitor de Fátima, na visita que faz com os jornalistas às obras do templo, que será inaugurado em Outubro. Nos painéis, com desenhos recortados em chapa de bronze, contemplar-se-á a história de Cristo e a ascensão de Maria aos céus.
"Foi um tema difícil de tratar", admite o autor. Ao princípio, Calapez pensou que poderia adoptar um traço mais abstracto, mas o santuário queria que "as situações fossem retratadas". E assim foi: na ascensão aos céus, são os pés de Jesus que estão representados, numa homenagem a uma pintura de Grão Vasco. Para a sua pesquisa, o artista recorreu a grandes mestres, como Giotto, Fra Angelico, Ticiano e Veronese. O resultado é "uma linguagem mais gráfica, mas onde, ainda assim, o traço é ligeiramente ambíguo", diz.
Foi o painel de azulejos que está na Igreja de Marco de Canaveses, projectada pelo arquitecto Siza Vieira, que terá despertado a atenção de Tombazis. "Primeiro disse: "Lá vou eu meter-me noutra coisa, não tenho tempo". Mas depois achei graça, gosto muito de desenhar", conta Siza Vieira.
No piso inferior da igreja - na galeria que serve de acesso a um conjunto de capelas e em frente a dois espelhos de água -, estará uma parede, com 150 metros de comprimento, coberta com um desenho a traço negro sobre azulejos brancos, onde se "conta a história" dos dois apóstolos. Na tentativa de descrição do resultado final, Siza atira: "Conhece a Capela de Vence, em França, de Matisse? Azulejo branco e as linhas a preto. O que eu não sou capaz é de fazer como Matisse".
Siza está satisfeito com o local escolhido para expor o seu trabalho: "É subterrâneo, mas não só tem luz natural como o reflexo da água nos azulejos lhe dá aquela vibração".
Calapez não se escandaliza se os seus painéis forem usados pelos fiéis para rezar. "Não foi esse o objectivo, mas os trabalhos, nas igrejas, têm essa função didáctica." Sobre Fátima, escuda-se numa frase: "É um fenómeno de tal maneira forte que ultrapassa as suas origens".
A palavra leva Siza às memórias de infância. "Em pequenino, tínhamos uma empregada que foi a pé a Fátima quando eu estive muito doente. Claro que me tocou, comoveu-me." A fé já é mais complexa: "Acredito que a minha empregada foi a Fátima e isso é que me comove muito".
O artista Pedro Calapez desenhou os mistérios do rosário em 20 painéis sobre a vida de Jesus e de Maria