Especialista em ADN pré-histórico não acredita no Parque Jurássico

Daqui a dois anos, Svante Pääbo espera ter a sequência de todas as letras do genoma do homem de Neandertal, extinto há 28 mil anos

a Será que algum dia os cientistas criarão um Parque Jurássico, reavivando seres extintos há muitos milhões de anos, como os dinossauros? Não: o mais provável é que um parque desses nunca saia das histórias de ficção, a crer na visão de um especialista na recuperação de ADN de fósseis. "Penso que nos ficaremos por um milhão de anos, porque há coisas que acontecem ao ADN que o destroem quando é muito velho", antevê o biólogo sueco Svante Pääbo, que participou até sábado num simpósio na Fundação Calouste Gulbenkian. Quase sempre que se fala de ADN an-
tigo, aparece o nome de Pääbo, de 52 anos, do Instituto Max-Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha. Afinal, a equipa dele foi a primeira a obter material genético de um Neandertal, em 1997. Eram amostras do primeiro Neandertal descoberto, em 1856, no vale de Neander, na Alemanha, que deu o nome a essa espécie.
Mas esse ADN provinha das mitocôndrias, estruturas situadas fora do
núcleo da célula, cujo material genético se degrada menos. É no núcleo das células que está o grosso da informação genética, e era esse o ADN que Pääbo perseguia.
Conseguiu obtê-lo de um fóssil de Neandertal com 38 mil anos, descoberto na gruta de Vindija, na Croácia. Recuperou mais de um milhão de pares de letras que compõem a molécula de ADN e, depois comparou-as com os genomas do homem moderno, a nossa espécie, e do chimpanzé. Revelada em Novembro, essa comparação dava uma resposta para o misterioso relacionamento entre humanos modernos e Neandertais, extintos há 28 mil anos: os Neandertais não estão entre os nossos antepassados, uma conclusão com a qual outros cientistas discordam.
"Pode ter havido alguma hibridação, mas não há provas de que isso aconteceu em grande escala", diz Pääbo, acrescentando que os humanos modernos e os Neandertais terão partilhado um antepassado comum há cerca de 500 mil anos.
Mas a diferença genética entre eles e nós é de menos de 0,5 por cento. Os Neandertais caem dentro da variação genética que existe entre duas pessoas da nossa espécie, explica. Diferenças tão pequenas não tornariam as duas espécies reproduzíveis entre si? "Não sabemos. Pode ter ocorrido uma só mutação que torne isso impossível."
Genoma completo
A ideia é ir mais longe: daqui a dois anos, Pääbo espera ter a primeira versão do genoma completo de um Neandertal, com os seus três mil milhões de pares de letras. Para quê? "É bom sabermos o que mudou no nosso genoma e nos torna verdadeiramente únicos." No entanto, a tarefa é complexa. "O principal problema é que a grande maioria do ADN nos ossos fósseis não é do Neandertal, mas de microrganismos. Temos de sequenciar muito ADN que nada tem a ver com o Neandertal. Outro problema é a contaminação por humanos contemporâneos."
Por ora, o ADN (das mitocôndrias) mais antigo que conseguiu recuperar tem cerca de 400 mil anos, de dentes dos extintos ursos das cavernas. Também já se extraíram pedaços de ADN de plantas preservadas em solo congelado, com cerca de 300 mil anos. Quando se chegará ao ADN com um milhão de anos, o cientista não sabe dizer. Mas esse é o limite teórico que estabelece: se a ficção passar a realidade, trazendo de volta à vida seres extintos através do seu ADN, quando muito teremos um Parque Plistocénico.