Ruben A: Uma personagem de romance

"Trazias contigo como sempre alvoroço e início"
Sophia de Mello Breyner

Numa viagem à Grécia o escritor Ruben A. passeou-se em pelota entre as estátuas do Pártenon. Conhece alguém que já o tenha feito? Provavelmente não.
Talvez por isso este foi o episódio mais referido, tanto por amigos como por especialistas na sua obra, no colóquio Homenagem a Ruben A. que nos dias 15, 16 e 17 de Março decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, organizado pelo Centro Nacional de Cultura para comemorar os 32 anos da morte do escritor (estava marcado para 2005, mas foi sendo adiado).
Ruben Andresen Leitão (Lisboa, 1920-Londres, 1975) "era um homem muito dedicado à investigação", contou o seu amigo Francisco Pinto Balsemão. "Todo o trabalho dele sobre D. Pedro V é exemplar em isenção e aprofundamento. Como toda a sua produção literária, A Torre da Barbela, O Mundo à Minha Procura, Um Adeus aos Deuses - Grécia, em que consegue autorização do director do museu de Atenas para depois de este fechar ao público se despir e andar nu no museu não sei quantas horas, para se sentir mais identificado com as estátuas com quem ele queria dialogar no fundo."
As palavras "em pelota em frente das estátuas do Pártenon" são, aliás, de Raul Miguel Rosado Fernandes, para quem o amigo "ficou completamente "pedrado", como hoje se diz, com a Grécia". Escreveu o prefácio para a reedição de Um Adeus aos Deuses, a sair na Assírio & Alvim (ver caixa), e diz que este livro "é surrealista, mas consegue, nos lampejos que dá, fixar aspectos do mundo helénico que um helenista não conseguiria fixar melhor".
Ruben inventa encontros com deuses, expressões, diverte-se e mostra sentido de humor apurado. Helena Langrouva revelou que Luís de Sousa Rebelo, professor emérito do King's College, lhe contou que Ruben A. o convidou e ao seu colega Charles Boxer para irem ter com ele a um hotel perto de Sloane Square, onde se hospedava em Londres. "O objectivo do encontro era assistirem ao relato da viagem de Ruben A. à Grécia, donde ele acabara de regressar, tendo já a escrita sobre essa viagem muito avançada [dará o livro Um Adeus aos Deuses]. Fez parte do seu próprio relato essa história sobre estar despido num museu que esteve fechado durante uma parte do dia, a seu pedido", explica a investigadora.
Raul Rosado Fernandes conheceu Ruben A. já estava ele na Faculdade de Letras. Choravam no ombro um do outro por causa de dissabores domésticos e das mulheres: "Pior elas eram, mais a gente gostava." A amizade foi crescendo. Mais tarde Ruben critica-o por causa do seu afastamento das discussões intelectuais e passa chamar-lhe "Zé Nabo", uma metamorfose de "O Grego", nome que lhe tinha ficado desde o tempo em que preparava o doutoramento.

O amigo provinciano

Ruben tinha um "espírito que atraía pessoas". Rosado Fernandes falou das tertúlias em sua casa, da amizade com Vitorino Nemésio, Orlando Ribeiro e Alexandre O"Neill (ambos a conseguirem "combinações verbais que pouca gente estava acostumada a ver"). "Nunca pensei que ele fosse morrer. De madrugada telefonou-me a cunhada dele a dizer "o Ruben morreu". Nessa madrugada perdi uma coisa importante na minha vida", disse, emocionado.
"É uma personagem de romance", diz Eduardo Lourenço, para quem Ruben Andresen Leitão foi uma das "pessoas mais originais que [conheceu] na vida", um personagem singular. "Não sei se alguma vez alguém inventará um personagem de romance tão singular como foi Ruben A."
Não pertenciam à mesma classe social, mas Ruben Andresen Leitão convidou Eduardo Lourenço nas vésperas de defender a tese sobre D. Pedro V para ir ter com ele ao Hotel Astória, uma espécie de Ritz da Coimbra desse tempo. "Fui encontrar o meu futuro amigo Ruben, que me recebeu como um príncipe no seu quarto, fazendo a sua toilette, como Luís XIV diante do seu amigo provinciano, que acabava de conhecer, da maneira mais divertida possível. Naquela altura o que me ficou foi a ideia de um Ruben que era uma espécie de encarnação de um Fradique Mendes. Foi divertidíssimo!"
O seu romance A Torre da Barbela, diz Lourenço, tem "uma percepção da história portuguesa vulgarmente meia maluca, mas profundamente genial". É um "livro delicioso que merece ser lido e relido". Ruben A. tinha a paixão por Portugal, acrescenta, por causa da nossa história singular, que não se parece com nenhum outro povo ou outra cultura. Mais tarde Eduardo Lourenço leu O Mundo à Minha Procura, um título de "um narcisismo infinito mas tão infinitivo e tão maravilhosamente assumido que não precisa de ser defendido". Uma "evocação da sua vida e da vida do seu tempo que merece ser lida".
Para Francisco Pinto Balsemão, que o conheceu nos anos 60, no Diário Popular, evocar a memória de Ruben A. é recordar um grande amigo. Lembrou o seu sentido de humor. Era eclético, "interessava-se por tudo, queria saber tudo", e acreditou no projecto do jornal semanário Expresso, que Balsemão fundou. Quis ser accionista e era membro activo do conselho editorial. No primeiro número de 6 de Janeiro de 1973 Ruben Andresen Leitão escreveu sobre Portugal: "País de amadores, quando alguém faz logo é perseguido, aviltado, criticado."

"PPD" foi ideia dele

O momento em que Ruben "inventou o nome PPD" para o Partido Popular Democrático foi relatado no colóquio tanto por Francisco Pinto Balsemão, como por Marcelo Rebelo de Sousa. Aconteceu durante uma conferência telefónica entre Francisco Sá Carneiro a partir do Porto e Marcelo Rebelo de Sousa, Ruben e Balsemão no seu gabinete no Expresso. Ruben, escutando a conversa, teve a ideia de lhe chamar PPD. Acabou por dar o nome a um partido de que nunca fez parte.
"Todos nós sabemos que havia o Ruben A. e havia o Ruben B., mas o Ruben que eu conheci e com quem convivi durante mais de 20 anos não cabe no nosso alfabeto, ainda que se lhe acrescente o K, o Y e o I grego", disse Liberto Cruz, que está a escrever a sua biografia para a editora Assírio & Alvim e é co-autor da fotobiografia O Mundo de Ruben A. com José Brandão e Nicolau Andresen Leitão (o filho mais novo de Ruben A.) Debateu-se, disse, "entre dois pólos: o mundo real onde a frustração reinava e o mundo que anda à sua procura".
Coisa alguma impelia Ruben à neutralidade. Escrevia com paixão. Agitava-se, esbracejava, gesticulava, recitava poemas de Alexandre O"Neill, discorria acerca de D. Pedro V. É este o retrato de Baptista-Bastos, para quem Ruben A. era um "prosador incomum, um inventor de metáforas, um imponderável criador de universos". A carta que Baptista-Bastos enviou e que na sessão foi lida por uma das filhas do escritor termina com esta afirmação: "Os livros de Ruben A. são armas carregadas de futuro."
No colóquio na Gulbenkian analisaram a sua obra os académicos Rosa Goulart, Helena Buescu, Maria de Fátima Marinho, Fátima Freitas Morna, Fernando Pinto do Amaral, Ana Maria Machado, José Carlos Seabra Pereira e Maria Lúcia Lepecki. E Luís Santos Ferro, director da Fundação Luso-Americana, falou de "amigos e livros escolhidos".
Por fim, Marcelo Rebelo de Sousa sublinhou a sua cultura ilimitada e criatividade excepcional. Leonor Xavier, que não foi íntima mas o conheceu nos anos 60, disse que Ruben A. andou na contramão do trânsito e lembrou que ele escreveu esta frase: "Eu não caibo neste país."

À máquina de coser

É impossível não ficar fascinado pela personalidade de Ruben A. depois de ouvir amigos, especialistas na obra e os filhos a falarem de "Ruben, Rubecos, Rubirosa, Ruben A., Rubenzão do Mundo, identificado na fímbria da cartilha conservatorial Ruben Andresen Leitão", como ele próprio escreveu.
A acompanhar o colóquio esteve a exposição Vida e Obra de Ruben A. comissariada por Fernando Pinto do Amaral com o apoio do Instituto da Língua e Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. A partir de 23 de Abril esta poderá ser visitada na Biblioteca Pública de Évora.
Tem certidões, requerimentos, cédulas, "todos os documentos que dão alguma coisa do itinerário da vida de Ruben A.", explicou Pinto do Amaral, e também artigos que ele publicou em jornais e reportagens, entrevistas. Primeiras edições, retratos, um busto e fotografias.
A peça mais intrigante é a sua mesa de trabalho, onde está pousada uma velhinha máquina de escrever.
Nicolau Andresen Leitão conta que o pai sempre usou aquela máquina de escrever, mesmo quando já existiam as máquinas eléctricas.
Foi ali que escreveu O Mundo à Minha Procura e A Torre da Barbela. "É um enquadramento invulgar, uma máquina pré-histórica de um tamanho que parece do tempo de Charles Dickens e um tampo por cima daquela geringonça da máquina de coser Singer, para poder exercitar as pernas no pedal. Ao lado uma cadeira de madeira fazia o conjunto. Ele era fora da norma, excêntrico, mas simples."

Descobrir um escritor

Surpreendente era ver a reacção das pessoas que conviveram com o escritor discutir se a voz dele num vídeo era mesmo assim, ou assistir à perplexidade de Paula Oleiro, que investigou a sua obra, mas nunca lhe tinha ouvido a voz. "À imagem do vídeo de um programa de televisão juntou-se o som da conferência Os 20 Anos de Prosa, onde fala sobre a sua obra. É interessante, porque muita gente não conhecia a sua voz. Eu próprio já não me lembro. Está ligeiramente metálica por causa da gravação, mas a voz dele era invulgar", continua Nicolau Andresen Leitão. Na plateia da sala da Gulbenkian, todos os dias e muito interveniente, estava Arminda Cepeda, advogada reformada, para quem Ruben A. era um escritor quase fantasmagórico antes de ter ido ao colóquio. Para ela era "alguém talvez vivo mas de quem não se falava". Ficou entusiasmadíssima, porque se criou ali "um clima afectivo e de alta qualidade literária". Arminda Cepeda descobriu "o fulgor da sua obra" e percebeu que era um autor especial. Para a semana vai comprar os seus livros.

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