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Ruben A.: Correspondência, teatro e biografia

Para o "casalinho saloio" era o que Ruben Andresen Leitão escrevia nos sobrescritos que enviava aos seus amigos Ruy Leitão (também seu primo) e à mulher, a pintora Menez, durante o tempo em que viviam em "Birre, Cascaes".
A correspondência foi organizada por António Ramalho e está a ser analisada por Ana Maria Machado, da Universidade de Coimbra, e vai ser publicada pela Assírio & Alvim, onde a sua obra tem vindo a ser editada desde 1988.
"Existem dez mil cartas, tanto dele como para ele, correspondeu-se com nomes importantíssimos, como Miguel Torga e vários escritores ingleses", refere Liberto Cruz. "A correspondência é completa, no sentido em que a partir da década de 60 há correspondência dos dois lados [Ruben A. morre em 1975], pode fazer-se o seguimento de uma carta para outra", explica o filho mais novo, Nicolau Andresen Leitão. Quando leu o livro da correspondência entre Lawrence Durrell e Henry Miller, passou a ficar com cópia de tudo o que enviava. "Até existem as cartas que mandava para a Companhia das Águas! Praticava a arte da escrita e tinha grandes amigos que viviam no estrangeiro com quem se correspondia mais do que uma vez por semana. Nota-se na correspondência um retrato impiedoso e certeiro sobre o país", acrescenta. Dos amigos, José Manuel Fragoso era um diplomata, Manuel Belo trabalhou em Genebra, Ruy Leitão e Menez viveram nos Estados Unidos.

"Só nós os três"

Ana Maria Machado analisou um conjunto de mais de duas mil cartas que permanecem inéditas. São um diálogo mantido por Ruy Leitão, Menez e Ruben. "Só nós os três", como eles diziam. A correspondência revela a criação de uma escrita nova, mostra reinvenção da linguagem e libertação das convenções. As cartas que até agora explorou são as trocadas entre os três de 1946 a 1948 e revelam as "oscilações temperamentais do escritor". Vários dos assuntos abordados em cartas aparecem mais tarde em crónicas, por exemplo, no Diário Popular, como a descrição do Natal em Inglaterra. A correspondência de Ruben A. é "como um balão de ensaio para a [sua] escrita literária" e "ao nível da história da literatura informa-nos sobre a sua gestão criativa", diz a académica, para quem a correspondência pode ler-se como um texto embrionário do grande escritor.
Nas cartas, diz, sobressai a "avidez intelectual e estética que o anima e que o leva do teatro para os concertos, da música para o ballet, do campo para o convívio social, numa atmosfera de constante grandeza espiritual e de aprendizagem". É com ritmo que as suas andanças são descritas. A sintaxe é peculiar e há uma sobrecarga de neologismos e estrangeirismos.
Na Assírio & Alvim vai também sair a colectânea Teatro, que inclui três peças: Júlia, de 1963, e Relato, 1453, e Triálogo, inéditas. E ainda a reedição de Um Adeus aos Deuses - Grécia e a biografia escrita por Liberto Cruz, que desde 1969 se debruça sobre a sua obra.
"Quem me apresentou Ruben A. foi Maria de Lourdes Belchior, mas só comecei a conviver com ele depois de ter feito uma recensão crítica à A Torre da Barbela. Entrou em contacto comigo nessa altura, em 1964. Não que isso fosse muito normal, mas era a sua maneira de ser, o seu fair play. Mesmo que eu tivesse dito o pior possível do livro, ele teria feito a mesma coisa. Disse-me: "Li o que escreveu, apareça um destes dias." Mesmo com pessoas que ele não conhecia se estabelecia uma cumplicidade", conta Liberto Cruz.
Em 2009 sairá O Óbvio Não Se Vê, selecção de alguns dos artigos que publicou nos jornais. I.C.

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