Susana, a pintura mais erótica de Tintoretto

É o corpo feminino mais sensual que o pintor de Veneza fez. Se olhar bem para Susana e lhe tirar a cabeça é capaz de lhe parecer um homem. Porquê?

a Não se pode dizer que Jacopo Tintoretto seja um grande pintor de nus femininos. Susana e os Velhos é o seu quadro onde o corpo da mulher é mais exaltado. "É a grande obra-prima erótica de Tintoretto", explica o director adjunto do Museu do Prado, Gabriele Finaldi. O quadro, entre outras obras, vai ser analisado numa conferência que começa hoje em Madrid, um dos acontecimentos que acompanha a exposição Tintoretto, o blockbuster do Prado este ano, que já fez 90 mil visitantes desde que abriu há um mês."É a beleza do corpo de Susana que é destacada", diz o director adjunto, acrescentando que é raro encontrar a carga erótica que sentimos ao olhar para esta pintura na obra de Tintoretto.
O quadro (feito entre 1555 e 1556) conta a história de Susana, mulher de um homem importante, que toma banho num jardim, quando dois velhos juízes a surpreendem e tentam abusar dela. Ela resiste e eles difamam-na. É o jovem juiz Daniel que a salva, provando a sua inocência. Os velhos são condenados à morte.
O tema bíblico da casta Susana, tirado do Livro de Daniel, foi muitas vezes pintado por Tintoretto. Aqui, o pintor dá um enfoque novo ao assunto muito popular em Veneza, cidade onde o artista nasceu em 1518: Susana está em frente ao seu tocador, absorta a contemplar a sua própria imagem.
Robert Wald, autor da comunicação no congresso sobre o estudo e restauro da pintura, sublinha que o corpo de Susana, sem roupas, é na pintura bastante revelado e celebrado. Sobre ela, de pernas abertas, incide o sol.
Os espectadores tornam-se cúmplices do tema do quadro, o desejo lascivo dos dois intrusos. Velhos que quase não se vêem ao princípio e que descobrimos, depois, a espreitar em primeiro plano numa estranha posição ou ao fundo com um tamanho mais pequeno. "Há uma tensão com os velhos", diz Wald, do Kunsthistorisches Museum, em Viena, ao qual pertence a pintura.
A ausência de reflexos, num quadro com tantas superfícies espelhadas, também é desconcertante. Esse outro
truque não nos deixa distrair do corpo nu: "Susana parece estar sozinha, ocupada com o seu próprio reflexo, mas, por causa de não haver reflexo nem no espelho nem na água, nós ficamos mais concentrados nela."
Mas por que é que esta mulher nos dá uma sensação de força? Porque as figuras de mulher de Tintoretto se baseiam em estudos de figuras de nus masculinos. Têm ombros largos e por causa dessa característica as mulheres de Tintoretto fazem lembrar as figuras femininas de Miguel Ângelo. Tintoretto considerava o artista de Florença o "pai do desenho", escreveu Carlo Ridolfi, o primeiro biógrafo do pintor veneziano.
Raios X revela segredos
O centro da comunicação de Wald hoje em Madrid é sobre os exames feitos ao quadro de Viena com raios X e reflectografia de infravermelhos e mostram que a pintura de Tintoretto está muito ligada ao seu interesse pelo desenho e à sua habilidade como desenhador. "Descobrimos muita coisa. Quatro tipo diferentes de desenho preparatório. Não é normal para a época. Ele usa mais desenhos na fundação do que outros pintores de Veneza, influenciado por Miguel Ângelo."
O sistema de perspectiva, que parte do centro da composição, ajuda a estabelecer o esboço da arquitectura do fundo e a sua extensão ao cenário, até à vedação com a roseira. O ponto de fuga, no centro do arco ao fundo e de onde partem as linhas da perspectiva em direcção ao espectador, chegou a estar dez centímetros mais alto. "O sistema de perspectiva, estas linhas, não vão até ao sítio de Susana, porque ele sabia que ia usar outro sistema. Descobrimos que ele sabia para onde ia, tinha ideias claras para construir a composição. É por isso que alguns sistemas não se sobrepõem. Desde o princípio tinha uma ideia muito clara para construir o desenho", diz Wald.
Muito interessante é um sistema de quadrícula, formado por cerca de 20 secções com 25 centímetros para facilitar a ampliação e transposição da figura de Susana a partir de um desenho mais pequeno. "Ele é muito organizado, mas muda. A primeira posição de Susana era diferente", diz, acrescentando que o desenho subjacente mostra que ela, no princípio, estava mais próxima do centro, e tinha os braços e as pernas mais estendidas.
Há também, mostrou o estudo, pormenores feitos com breves pinceladas, principalmente na zona da folhagem. Depois há incisões, feitas sobre as primeiras camadas de pintura, em que o pintor tentou mudar pormenores, quando a tinta ainda não estava seca, como se vê no delinear dos perfis dos elementos arquitectónicos mais pequenos.
O desenho subjacente mostra, então, como a composição é desenhada e organizada. "Era um dos poucos pintores venezianos que era muito bom desenhador." Wald diz que ele gasta muito tempo a desenvolver essas capacidades.
"É capaz de criar composições vibrantes, de sucesso e novas." E composições muito grandes - é autor provavelmente da maior pintura sobre tela, porque os frescos não se dão bem em Veneza -, que não perdem dinâmica e espontaneidade. "Tintoretto usava medidas muito diferentes, de uma maneira muito sofisticada, combinando influências muito diferentes." A figura de Susana, em pose, está muito próxima das figuras da Capela Sistina. Tem a qualidade escultórica de Miguel Ângelo, ele desenha-a quase como um objecto tridimensional."
Mais Robert Wald não diz, porque senão não resta nada para a conferência.