Crítica

Diamante de Sangue: Leonardo em bruto

Edward Zwick tem dois pontos altos dignos de registo na sua já longa carreira: criou a excelente série televisiva "Os Trintões" e assinou o magnífico "Tempo de Glória" (1989), crónica do primeiro batalhão negro do exército americano na Guerra Civil que valeu a Denzel Washington o seu primeiro Óscar (por melhor actor secundário). Daí para a frente, tem assinado filmes quase sempre interessantes que procuram conjugar a interrogação sincera sobre o estado das coisas com o entretenimento de massas; às vezes falha ("Lendas de Paixão", "O Último Samurai"), às vezes acerta ("Coragem Debaixo de Fogo", "Estado de Sítio"), mas sem nunca conseguir evitar aquela sensação de ser um daqueles cineastas liberais com o coração no sítio certo mas mais boa consciência do que jeito. O que torna "Diamante de Sangue" numa grandíssima surpresa: no papel, é uma fita de acção com consciência, ambientada na Serra Leoa em 1999, no pico da guerra civil que destruiu o país, ficcionando o percurso dos diamantes "sujos" minados ilegalmente em zonas de guerra, o que quer dizer que ou a) é um mau filme de acção subjacente ao panfleto humanista ou b) é um exercício maniqueísta de boa consciência liberal. A história, ainda por cima, promete pouco: um pescador (Djimon Hounsou) arrancado à sua aldeia natal para ir para as minas controladas pelos rebeldes consegue escapar deixando escondido atrás de si um enorme diamante rosa que pode ser a salvação da sua família, cruzando-se com um mercenário sul-africano (Leonardo di Caprio) que quer a jóia por razões bem menos escrupulosas e uma jornalista americana (Jennifer Connelly) investigando a rota dos diamantes "sujos".Surpresa, então: "Diamante de Sangue" é um imparável filme de acção que evita habilmente as armadilhas das boas intenções (o que não é a mesma coisa que estar isento de lugares-comuns). Para começar, pela inteligência de um guião onde a acção não é metida a martelo para justificar explosões e onde o drama decorre naturalmente dessas mesmas sequências, e que recusa liminarmente a lógica simplista do preto e branco. Uma das personagens diz, a certa altura, que as pessoas não são boas nem más: são apenas pessoas. Zwick e o argumentista Charles Leavitt levam essa afirmação ao limite: ninguém é inocente neste filme, ninguém está isento de culpas, todos são pauzinhos de uma mesma engrenagem que não pode ser derrotada mas contra a qual se podem sempre tentar pequenas vitórias. Solomon, o pescador, hesita em mentir mas não hesita em matar; Archer, o mercenário, é uma contradição ambulante; Maddie, a jornalista, ressente-se de um altruísmo que não a leva a lado nenhum. Zwick atira-os para o meio do inferno sem lhes dar tempo para pensar, apenas para reagir, e faz o mesmo aos espectadores: exploração da miséria de uma situação real para fazer entretenimento de boa consciência? Não, felizmente - não estamos num panfleto inflamado que pára para sublinhar com "ralentis" a injustiça da situação. Podia fazê-lo, mas não o faz: resiste à tentação da narrativa telenovelesca (repare-se como o paralelo da odisseia do filho de Solomon, recrutado à força para combater nos exércitos de crianças, evita brutalmente o puxar à lágrima mais lamecha), está mais próximo do cinismo de Archer do que das boas intenções de Maddie, pergunta-nos onde é que começa o Bem e acaba o Mal, como naquele diálogo significativo que um dos "vilões" rebeldes diz às tantas, "eu também quero sair deste inferno". Ninguém é imaculado em "Diamante de Sangue", é aquilo que o redime e transcende a boa vontade de um final demasiado "certinho" (mas sê-lo-á realmente?).

Dentro da surpresa há, contudo, outra e não das menores: uma interpretação irrepreensível de Leonardo di Caprio (valeu-lhe nomeação para o Óscar), cujo sotaque sul-africano de cortar à faca e constante atitude de desafio desenrascado fazem completamente esquecer a carinha laroca que ele ainda tem, fazendo passar na perfeição as fintas constantes que Archer faz à sua própria moralidade, apanágio de um actor que já sabíamos ser capaz de muito e de muito bom mas que, aqui, explica bem o que andou a aprender com Scorsese. "Diamante de Sangue" podia ter sido outro "Babel" mas, felizmente, decidiu-se a ser a excepção à regra de o cinema e a boa consciência raramente se darem bem.

Sugerir correcção