Crítica

Abracadabra

Em frente à plateia, o ilusionista estende as mãos como quem diz: olhem-nas, estão vazias. Mostra-as apenas, nuas. Fazemos a suposição de que estão, de facto, vazias, para de seguida aparecer um ás de espadas, uma flor, uma moeda, uma bola de borracha, quem sabe um pássaro. Se soubéssemos para onde olhar, talvez fosse fácil perceber como o truque é feito, mas a mestria do ilusionista está em levar-nos a olhar para o sítio errado, e em proteger - sempre - o seu segredo.

Christopher Nolan, realizador e co-argumentista do The Prestige - O Terceiro Passo, é um ilusionista. No filme acabado de chegar às salas - passado no universo da magia do século XIX, a partir da história de dois mágicos rivais - Nolan consegue ser verdadeiro, sem ser transparente. Como o mágico, deixa que as pistas estejam lá, se as conseguirmos (e quisermos) ver. Mas há outro Christopher na história, o mentor deste enredo, o "ilusionista-mor": Christopher Priest, autor do livro de onde Nolan partiu para fazer este filme. Disse-nos Priest, quando esteve em Lisboa para apresentar o livro (editado pela Saída de Emergência, com o mesmo título que o filme), que "magia e literatura são a mesma coisa: ambas são entretenimento e baseiam-se na condução e no desvio da atenção do leitor." O cinema também cabe aqui, dizemos nós.

Há segredos, ilusões, enganos, duplos, suposições que se revelam falsas, cientistas que "fazem o que os mágicos fingem fazer". Entretenimento puro, sem ser inconsequente. No livro e no filme, ou no filme e no livro, porque eles se misturam apesar das várias alterações que o argumento introduziu (e que ainda assim se mantêm fiéis ao espírito da história).

Alfred Borden (Christian Bale) e Rupert Angier (Hugh Jackman) são dois mágicos ingleses. Guardadores de segredos até à obsessão, obcecados com os segredos que não conhecem. Borden é um mágico mais dotado, Angier um homem de palco, o mais obstinado em descobrir os segredos do seu rival. Nos teatros vitorianos da Inglaterra do século XIX os dois vão-se cruzar, tornam-se inimigos, numa rivalidade que (no livro) se estende aos descendentes e é trazida até ao presente e (no filme) é apresentada como "tagline": uma amizade que se tornou rivalidade... uma rivalidade que se tornou numa batalha.

É essa rivalidade que vai desvirtuar a ideia de magia, quando um dos dois mágicos recorre a um cientista - Nikola Tesla, inventor do motor da corrente eléctrica alterna (interpretado por David Bowie, sim, ele mesmo) - para conseguir fazer, no mundo real, aquilo que os mágicos apenas fingem fazer. No caso, o truque do Homem Transportado, em que o ilusionista consegue desaparecer e aparecer em segundos num ponto oposto e distante da sala. Pelo meio aparece uma mulher que divide mais ainda os dois ilusionistas, Olivia Wenscombe (Scarlett Johansson).

o método.

Christopher Priest, inglês, escritor de profissão, sessentas (nasceu em 1943), cabelo a despontar branco, olhos azuis vivos meio sonhadores meio hipnotizantes, leitor viciado em ficção científica desde a adolescência, tem um método: "Quando um mágico abre um baralho de cartas, não diz "olhem, este é um baralho novo, nunca lhe mexi antes". Isso seria mentira. O que faz é mostrar as cartas e usá-las", diz. "É assim que escrevo. Nunca digo uma mentira, conto a história mas deixo algumas partes importantes de fora." O mesmo método é seguido por Nolan, realizador.

Desde o início acompanhamos Angier e Borden, nunca os perdemos de vista, mas não vemos tudo o que lhes diz respeito. E o que pensamos ser de determinada forma, não o é.

Priest não tinha interesse por magia até ser apanhado por ela, num momento de "ociosidade mental". Foi numas férias de Natal, recorda o escritor ao Y, quando assistiu a um espectáculo de ilusionismo na televisão. "Terminava com um truque simples, mas com um efeito espectacular", recorda. "O mágico sentava a assistente numa cadeira e tapava-a com um grande lençol. Enquanto pisquei os olhos, ele levantou o lençol e o palco estava vazio, a rapariga tinha desaparecido!", exclama. Priest ficou intrigado, mas não seriamente interessado, até que, no dia seguinte, "por coincidência feliz", lá estava o mesmo truque, executado por outro mágico. "Com o gravador de vídeo, devia ser fácil conseguir resolver o truque, e eu não conseguia, estava intrigado e confuso! Por isso, depois do Natal, dirigi-me a uma livraria e comprei os livros de magia que encontrei. Nenhum tinha esse truque mas aprendi o suficiente para perceber como é feito", conta. Como é? Não o diz, "para não estragar tudo" e porque "o truque, apesar de ter 200 anos, ainda é apresentado". É um pacto da magia: a assistência sabe que não é feitiçaria, mas quer ser enganada. (No filme, podemos na verdade perceber como o truque da rapariga que desaparece debaixo do lençol seria feito, através de outro truque, o do pássaro dentro duma gaiola).

Tudo isto aconteceu em meados dos anos 70. "The Prestige" foi publicado em 1995, em Inglaterra (hoje já está traduzido em mais de vinte línguas). Porquê esperar tanto? "Porque não basta ter uma ideia e escrevê-la, é como o vinho: tem de se deixar passar um tempo para ficar melhor", diz. Houve outra história decisiva. Enquanto andava a pesquisar sobre métodos de magia, Priest entrevistou dois mágicos e começou a centrar a ideia do romance na percepção de que os ilusionistas vivem obcecados em proteger os segredos dos seus números. Foi aí que encontrou o episódio de Ching Ling Foo, um chinês nascido em 1854 e que foi um dos primeiros mágicos orientais a trabalhar no Ocidente. "Ching Ling Foo terminava os espectáculos com um truque em que fazia aparecer, do nada, um aquário cheio de água e peixes a nadar", conta. O segredo é que ele o trazia durante toda a actuação debaixo do seu longo fato de mandarim, entre os joelhos. "O único local onde o aquário podia estar escondido era sob a túnica, mas ninguém o percebia porque Ching tinha um aspecto débil, de quem nunca conseguiria segurar em algo tão pesado", continua o escritor. "Na verdade ele era um homem forte e saudável, e era o aquário que o fazia arrastar-se e coxear. Isto ameaçava o segredo porque atraía as atenções mas, para o proteger, Ching fingiu toda a vida que sofria de problemas nas pernas, e sempre que estava em público tinha um andar arrastado. O segredo era simples - como a maioria dos segredos que os mágicos tanto protegem - mas dominava toda a sua vida."

Contado no início do livro como uma anedota, este episódio está também presente no filme, e foi decisivo para a história ser escrita. "Confirmou a ideia de que os mágicos são misteriosos e obcecados com segredos, ao ponto de condicionarem a própria vida fora do palco", diz Priest. Ao mesmo tempo, escrever sobre magia era uma oportunidade para trabalhar um tema, que lhe é caro, em outros livros: o dos duplos.

O título que deu ao livro, "The Prestige", deveu-se a uma brincadeira com a palavra prestidigitação (habilidade de mãos), e a um conceito que inventou. Recuemos. Cada magia tem três actos, ou passos. O primeiro chama-se o sinal ("The Pledge"), ou apresentação: o mágico mostra algo de trivial (que provavelmente não o é) e pode até convidar voluntários da assistência a inspeccionarem o equipamento da ilusão. O segundo acto é a rotação ("The Turn") ou execução - o mágico faz com que esse objecto trivial faça algo de extraordinário. O terceiro e derradeiro acto é o prestígio, o efeito da magia. É aqui que a assistência aplaude: quando o coelho sai da cartola, quando a assistente que foi amarrada num tanque fechado cheio de água aparece fora do tanque. É o acto mais importante, aquele onde "há reviravoltas, arriscam-se vidas e vêem-se coisas que nunca se viram antes", como diz a voz de Michael Caine no "trailer" do filme (Caine faz a personagem Cutter, o "ingénieur" de Angier).

O curioso é que foi Priest que inventou este termo. "Quando estava a escrever lembrei-me de chamar ao resultado da magia o prestígio. E o mais engraçado é que os mágicos agora usam essa palavra! Desde que o livro saiu, há onze anos, começaram a falar de fazer o prestígio!", diz, com ar satisfeito. Inventou isso? "Sim, é extraordinário. No filme eles falam do "prestígio" muito naturalmente, perguntam qual é, como é que se faz, etc. E na altura não se usava essa palavra", ri. Duma maneira geral, o escritor apreciou a adaptação cinematográfica de "O Terceiro Passo. "Lembro-me do dia da estreia, em Londres. Nem queria acreditar", recorda. "Não parava de ver pessoas a chegar e só me perguntava: "De onde veio esta gente toda?" Quando se escreve um livro, trabalha-se sozinho. Levei dois anos a escrever "O Terceiro Passo", o que significa que me sentei, dia após dia, com uma ideia na cabeça. Minha", sublinha. "Doze anos depois, estou sentado no cinema, com milhares de pessoas, e só me ocorre: "Meu Deus, fui eu que fiz isto!"", conta, levando as mãos à cabeça.

Há diferenças, claro, "é assim que os filmes funcionam". Para o escritor, apenas o final não é tão bom. "Enquanto o livro é um mistério, o filme é um segredo", diz. Não se vai aqui falar dele, claro, "para não estragar tudo". (Era o mesmo que mostrar como um número mágico é feito, antes de o ver). Apenas dizer que, enquanto no livro, a partir duma determinada página, o leitor pode descobrir como Borden faz o seu truque do homem transportado, no filme é só no último minuto que ele o mostra. Olhos bem abertos antes do... abracadabra.

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