Crítica

A grande ilusão

Christopher Nolan tem provado ser por excelência um cineasta da obsessão - as proezas narrativas que o celebrizaram (a narração ao revés de "Memento", 2000, ou o sonho acordado de "Insomnia", 2002) são apenas facetas diferentes desse tema recorrente que a sua entrada nos "blockbusters" com "Batman: O Início" (2004) veio confirmar.

"O Terceiro Passo", no entanto, assume-o frontalmente como fio condutor: trabalhando a partir do romance de Christopher Priest, Nolan desenrola o novelo de uma obsessão literalmente mortal, que coloca dois homens em confronto numa competição surda e subterrânea na Londres vitoriana. Em tempos aspirantes a mágicos, ajudantes de ilusionista e amigos, Robert Angier e Alfred Borden entram numa rivalidade que parece não ter fim, em busca do truque que faça o seu nome e a sua fortuna. Mas essa rivalidade é matizada por outras emoções: a vingança, porque Angier responsabiliza Borden pela morte da sua esposa; a inveja, porque Borden construiu uma família e vive a felicidade que foi negada a Angier; e, sobretudo, a compreensão dolorosa de que Borden, jovem plebeu londrino, é melhor ilusionista do que Angier, nobre cuja paixão pela magia o leva a esconder a sua aristocracia. Porque um tem o olho, a paixão, a centelha que falta ao outro: porque Borden está obcecado pela perfeição do truque e Angier pela perfeição da aparência. Num mundo ideal, teriam sido a dupla perfeita, mas aqui são antagonistas que se movimentam num pântano moral onde nada é o que parece ser, onde os segredos se guardam quase até ao risco da própria vida. O ofício de um mágico, no fundo, é confundir o espectador: dar-lhe a impressão de que encontrou a solução mas, no mesmo movimento que a parece revelar, fazê-lo ver que não é nada do que ele pensa.

É esse o mais extraordinário triunfo de "O Terceiro Passo": o modo como Nolan utiliza os seus dons de manipulador narrativo para, com uma lealdade extraordinária para com o espectador, nos lançar sistematicamente areia para os olhos. Tal como os seus dois mágicos, também Nolan domina na perfeição as artes da ilusão: mostra-nos tudo, contudo não vemos nada, seguindo os trâmites de qualquer boa ilusão que implicam uma divisão em três actos bem delimitados. E o realizador instala uma camada extra de complexidade ao construir o seu filme num encadeado de "flashbacks" e "flash-forwards" que manipulam a organização da narrativa e, ao fazê-lo, criam zonas de luz e sombra que conduzem o olhar de quem vê. Quem é o manipulador e quem é o manipulado? No limite, todos: "o terceiro passo" de "O Terceiro Passo" contém em si a explicação de tudo o que ficou para trás - ou talvez não, porque o segredo da magia é a aparência de inexplicabilidade. Mas, como dizia Sherlock Holmes, o que sobra por exclusão de partes é a verdade, independentemente de quão impossível possa parecer. E a obsessão de Angier e Borden (Hugh Jackman, a revelar ser um actor disposto a correr riscos inabituais num aspirante a galã, e Christian Bale, a confirmar todo o bem que pensávamos dele) levá-los-á a cruzarem os universos da ciência e da magia, abrindo de repente outras e surpreendentes pistas para esta história que começa por ser um mistério policial com um possível inocente falsamente acusado (quem matou?) e termina num estudo glacial do que um homem pode fazer para satisfazer os seus desejos e as suas obsessões, paredes meias com a alegoria caucionária tão típica do cinema fantástico.

"O Terceiro Passo" é o filme de um realizador que sabe exactamente o que está a fazer - tanto que, por vezes, a precisão desta "mise-en-scène" chega a ser enervante de tanto abdicar da espontaneidade. Mas também é verdade que, de outro modo, dificilmente esta laboriosa e engenhosa mecânica narrativa resultaria: e há casos em que se justifica sacrificar a espontaneidade para garantir o impacto do resultado final. Este é um desses casos.

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