Forças da Etiópia aliadas do Governo somali chegam perto de Mogadíscio

Washington apoia intervenção militar de Addis-Abeba, enquanto a União Africana volta atrás e pede retirada das tropas

As tropas pró-governamentais da Somália, apoiadas pelas sofisticadas forças militares da Etiópia, aproximaram-se ontem rapidamente de Mogadíscio, a capital somali, na guerra aberta que travam há cerca de uma semana contra a União dos Tribunais Islâmicos (UTI). Ao amanhecer tinham tomado Jowhar, um bastião dos islamistas a 90 quilómetros da capital, e à tarde estavam a 30 quilómetros de distância. A intenção declarada é cercar Mogadíscio, cidade de dois milhões de habitantes, sem a atacar, garantiu o primeiro-ministro etíope, Meles Zenawi.
Os islamistas, sem meios aéreos de combate, prometem prosseguir os combates sobretudo em defesa da capital. Nos últimos dias, perderam grande parte do território do Centro e Sul que tinham conquistado nos últimos seis meses com o objectivo de aí aplicar a sharia (lei islâmica).
Na ausência de dados de fontes independentes, cada uma das partes reivindica centenas de baixas militares entre as forças adversárias, mas não avançam números de mortos ou feridos entre civis.
O Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV) diz que há milhares de deslocados e pelo menos 800 feridos, mas avisa que este número apenas reflecte as entradas nalgumas unidades hospitalares onde o CICV mantém contactos. "O número de feridos dá uma ideia da violência dos combates. É a face visível", frisou a porta-voz da instituição em Genebra.
A Liga Árabe e a Organização da Conferência Islâmica (OCI) apelaram à retirada "imediata" das tropas estrangeiras - referindo-se explicitamente às forças da Etiópia - e ao fim dos combates, de modo a permitir o reatamento do processo falhado de negociações.

Preocupações dos EUAAddis-Abeba, criticada pela intervenção militar, acusa a Eritreia (seu inimigo num diferendo fronteiriço por resolver) de apoiar os islamistas que ainda controlam Mogadíscio. E invoca a necessidade de garantir a sua segurança e a própria segurança na Somália - onde há suspeitas de que pelo menos alguns membros do poder islamista na capital tenham ligações à organização terrorista Al-Qaeda.
Este é também o argumento para os EUA apoiarem a Etiópia, seu aliado na região. A Casa Branca, através do porta-voz Gordon Johndroe, disse ontem que se justificavam "as preocupações de segurança da Etiópia perante os desenvolvimentos na Somália". Apelou, simultaneamente, à contenção da Etiópia e pediu que a intervenção militar não seja usada pelas partes em conflito na guerra civil da Somália para não se sentarem à mesa das negociações.
Washington justifica o seu apoio lembrando que Addis-Abeba foi solicitada a intervir militarmente a pedido do Governo interino da Somália sob "ameaça" do poder islâmico. O Governo interino do Presidente Abdullah Yussuf - que nunca entrou verdadeiramente em funções na Somália desde que foi nomeado no quadro dos acordos de paz em 2004 - é o único reconhecido pela ONU e a União Africana (UA).

Divisões na ONUA legitimidade - ou não - da intervenção da Etiópia esteve no centro da discórdia na reunião de terça-feira do Conselho de Segurança da ONU, que ontem à noite se preparava para, de novo, tentar alcançar uma posição comum sobre a situação na Somália depois do fracasso da véspera.
O Qatar tinha exigido que qualquer declaração incluísse uma retirada das tropas estrangeiras. Outros Estados defenderam que tal exigência não se devia aplicar às forças da Etiópia, chamadas a intervir a pedido do Governo.
Depois de a UA ter reconhecido à Etiópia o direito a intervir militarmente na Somália, face "aos avisos de que [o Governo] se sentia ameaçado" pelos islamistas no poder em Mogadíscio, e depois de essa sua posição ter sido criticada, a organização juntou-se à Liga Árabe a à OCI, para apelar à retirada das tropas etíopes da Somália.