Estudo sobre divisão das células vence Prémio Crioestaminal

Técnica inovadora
pode revelar causas
de erros na duplicação
de cromossomas

O Prémio Crioestaminal em Investigação Biomédica distingue este ano um projecto que recorre a uma técnica inovadora - a microcirurgia a laser realizada no interior das células. Possivelmente, será capaz de abrir caminhos para o tratamento do cancro. O trabalho liderado pelo portuense Hélder Maiato, de 30 anos, no Instituto de Biologia Molecular e Celular da Universidade do Porto (IBMC), foi seleccionado entre 58 concorrentes por um júri internacional. O galardão, no valor de 20 mil euros, será entregue na quinta-feira, pela Associação Viver a Ciência. O principal objectivo de Hélder Maiato é identificar as principais forças moleculares que regem a divisão celular - um processo chamado mitose, que permite à célula-mãe transmitir, através dos cromossomas, a sua informação genética para as filhas. Isto só é possível porque os cromossomas encerram em si, numa versão compactada e com cópias de segurança, todas as informações do ADN. Quando chega o momento da divisão, os cromossomas alinham-se no centro da célula e iniciam um curioso bailado, que dá origem a duas células filha.
Com a ajuda do equipamento de microcirurgia a laser, a equipa do IBMC pretende identificar as moléculas que influenciam a formação e o funcionamento da maquinaria da divisão celular. Nas imagens que Hélder Maiato mostra no ecrã do seu computador portátil, cada pedacinho de cromossoma parece "saber de cor" a coreografia: partem do meridiano da célula em direcções opostas, encenando movimentos simétricos, até à completa formação das células filhas.

Erros na dançaTemos duas cópias de cada cromossoma, um com os genes herdados da mãe e outro com os genes do pai. Quando os alelos (assim se chama a cada uma das cópias) perdem o ritmo ou se esquecem do passo seguinte, ocorrem erros que podem fazer com que as células recém-criadas tenham um número errado de cromossomas (aneuploidia).
Conhecendo a identidade e a localização dos maus bailarinos, será talvez possível interferir no movimento dos cromossomas - algo fulcral, uma vez que são estas coreografias imprevistas que estão na origem da maior parte dos cancros humanos. "O grande problema é que ainda não conhecemos todos os dançarinos", explicou Hélder Maiato ao PÚBLICO.
Acredita-se ser assim possível encontrar novas terapias para o cancro: "Se sei quais são e como agem os actores que baralham o guião da divisão celular, posso em teoria intervir nesse palco molecular e impedir a proliferação de tecidos doentes."
Esta é a porta que começa a abrir-se com o trabalho Dissecção da Divisão Celular e Aneuploidia através de Microcirurgia Laser em Células Vivas, seleccionado entre as candidaturas concorrentes por um júri internacional. Um dos membros, o britânico Martin Raff, do University College of London, estará presente na entrega no prémio, agendada para quinta-feira, às 17h00, no IBMC. O presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, João Sentieiro, também lá estará.
A microcirurgia a laser permitirá entender, acredita o cientista, enigmas da divisão celular até hoje não solucionados. A grande vantagem é visualizar, numa ínfima escala, o que acontece no universo dinâmico da célula.
O filme e a fotografia
"É a mesma diferença entre um filme e uma fotografia. As imagens que obtemos a partir de marcadores luminescentes contam-nos histórias invisíveis numa foto estática", diz Hélder Maiato, numa metáfora.
O equipamento instalado na cave do IBMC há um mês constitui um laboratório europeu de microcirurgia a laser, o que significa que a comunidade científica pode recorrer à técnica para estudos. Até hoje apenas um laboratório norte-americano dispunha desta tecnologia, em protótipo. O dinheiro do prémio, explica Hélder Maiato, permitirá comprar acessórios para o aparelho de microcirurgia ficar "ainda melhor apetrechado".
A equipa conta hoje com sete elementos - incluindo um físico, que tem um papel preponderante na instalação e supervisão deste tipo de equipamento com laser - e "tende a aumentar". Uma candidatura à Fundação para a Ciência e a Tecnologia e um possível apoio da Fundação Calouste Gulbenkian podem ainda assegurar uma nova ambição do grupo: trabalhar não só com as moscas do vinagre - modelo animal cujo genoma tem a vantagem de ser simples e estar completamente sequenciado -, mas também com células humanas. Estas são mais exigentes: só se dividem em condições muito específicas, requerendo temperatura, oxigenação e nível de pH adequados. E isto custa dinheiro.