Hoje há Buraka e Petty não vai à escola

Nos espectáculos dos Buraka Som Sistema,
é em Petty, 16 anos, que se concentram
as atenções

É sábado, há noite haverá Buraka Som Sistema e Petty não vai à escola. Mas há dois dias, quando falámos com ela, preparava-se para mais um dia de aulas. Tem 16 anos e frequenta o 9.º ano, numa escola secundária da Amadora, onde vive. Nasceu em Luanda e vive em Portugal há dois. Quem já a viu ao vivo com os Buraka Som Sistema sabe que é ela o centro das atenções. Nas caixas de ritmo, gira-discos e parafernália electrónica estão Lil" John e Riot, criando ondas de som físicas. O ritmo é sincopado, contendo semelhanças com expressões musicais como o house, mas depois há elementos quebrados, linhas de baixo arredondadas e elementos sintéticos que associamos a músicas africanas. As palavras funcionam como eco do ritmo,
A ladeá-la estão os outros incitadores vocais - Kalaf e Conductor - mas é quando ela balanceia, pequena e roliça, que toda a gente se manifesta. Percebe-se que não é profissional da voz, cansa-se, fica rouca, mas no kuduro vale tudo. Na escola não gosta que a abordem, mas quando lhe perguntamos como se sente em palco, a voz altera-se. "Adoro. Sinto-me à vontade."
Os últimos meses têm sido agitados. Depois de actuações recebidas com entusiasmo em clubes nocturnos e festivais de Verão, o projecto editou o EP From Buraka To The World que se esgotou rapidamente. Surgiram reacções elogiosas vindas de fora e artigos em revistas, como a inglesa Fact ou a suíça Fake Magazine. O inglês IG Culture, figura nuclear das músicas urbanas inglesas, fez-lhes uma remistura.
Por sua vez, os Buraka remisturaram os Bonde de Role, da editora do americano Diplo, produtor do álbum da cantora M.I.A. Na Internet trocam-se tantas mensagens de afeição como de aversão, sinal de que ninguém lhes é indiferente, e basta consultar os vídeos em www.youtube.com, para se perceber que são mesmo fenómeno num país onde ele não abundam, principalmente quando não há editoras envolvidas.
"Às vezes é um pouco complicado conciliar tudo com a escola", diz, mas os pais apoiam-na. "O que é bom para mim é bom para eles." Em Setembro provocaram uma das maiores enchentes de sempre do Lux, em dia de aniversário para Petty (foto principal). "Foi uma bomba o pessoal a cantar-me os parabéns", recorda, ao mesmo tempo que diz sentir-se muito admirada pelo que está a acontecer. "Claro que estou surpresa, mas agora é encarar isso da melhor forma possível - produzir mais, trabalhar, melhorar."
No kuduro as palavras são pura performance, os traços de sintaxe são excluídos, predomina o calão e as alusões eróticas, mas Petty não se intimida. "Aquilo não são letras. É animação, são chamamentos, exclamações", afirma. Seja lá o que for, aquilo que os Buraka têm para propor é singular, aproveitando a adrenalina de uma sonoridade proscrita, o kuduro, e reforçando a afinidade com entidades como o house, tecno, drum & bass ou dubstep. "Dubstep? Não conheço, não faço ideia do que seja", diz, espontânea, como sempre, como se estivesse em palco.