Luís Amaro

Saiu agora, com a discrição que o caracteriza, um livro-antologia da obra de Luís Amaro: Diário Íntimo. O que é quase insólito é que este homem sério e circunspecto seja adoptado por uma editora que se tem caracterizado pela irreverência e marginalidade. Manifestamente com orgulho: "A razão por que surge agora chancelando, honrada, a edição da breve mas intensa obra poética de Luís Amaro (n. 1923, Aljustrel), há muito esgotada, prende-se seguramente com a existência de duas afinidades entre a editora e o escritor: a dedicação aos livros - de poesia, sempre, de prosa sejam - e aquela ética que dita a discrição à revelia das visibilidades do campeonato." E acrescenta Vítor Silva Tavares: "Não há poeta da nossa contemporaneidade, já falecido ou vivo, que directa ou indirectamente lhe não deva alguma coisa."A poesia de Luís Amaro tem alguns momentos de fulgurância: "Quero o silêncio perfeito / onde a minha lembrança não abra rios de sangue." Mas, como o próprio autor reconhece, trata-se predominantemente de um lirismo inactual, em que Luís Amaro faz gosto em assumir que é um homem doutro tempo e doutra modernidade (que não é aquela de que gostamos de falar). Como escreve o meu pai numa carta que lhe envia: "A sinceridade humana, de humanidade que é poesia, ao mesmo tempo valoriza e limita o seu livro: o autor de Biografia é o primeiro a manifestar a consciência desta dificuldade: tem de falar constantemente, com palavras vagas, repetidas e já usadas, desse escuro da alma em que se desenrola um drama pessoal, sem nada de espectacular, sem variedade empolgante."
Não sei como Luís Amaro e o meu pai se encontraram, mas a dada altura ele surge como o colaborador mais próximo do meu pai na Colóquio-Letras. Não escrevendo textos, mas revendo os textos dos outros. Luís Amaro estava sempre atento à ortografia, à sintaxe, às cacofonias, aos deslizes de sentido e sobretudo às citações que os textos faziam, que na maior parte das vezes estavam estropiadas ou eram aproximativas. Isso implicava que para cada caso fosse consultar o livro original. Luís Amaro tinha bibliografias extremamente seguras, e a ele se deve a bibliografia de toda a obra do meu pai no volume que lhe foi consagrado e se intitula Afecto às Letras.
Pouco a pouco, Luís Amaro e o meu pai desformalizaram a relação e Luís Amaro foi sempre um amigo fidelíssimo, sempre presente mesmo nas piores circunstâncias. Já o meu pai estava muito doente e ele gostava de aparecer com a correspondência e informações sobre o andamento da revista (a que meu pai dedicara grande parte das suas últimas energias). É tudo isso que devo a Luís Amaro: foi dos homens bons e sérios que tive a felicidade de conhecer. Professor universitário

P.S. - Reconheço que no texto sobre António Fiúza o uso da palavra "mentecapto" é abusivo e desnecessariamente insultuoso. Peço desculpa por este gesto excessivo e afirmo que não o pretendia ofender pessoalmente no seu bom nome. Foi apenas um arrebatamento de retórica polémica da minha parte. Lamento.