Friends começam finalmente a dizer adeus na 2:

Na terça-feira arranca a décima e derradeira temporada da série Friends.
Oportunidade para os telespectadores se despedirem de um clássico das sitcoms

Quando Friends estreou nos Estados Unidos, em Setembro de 1994, a sua principal concorrência eram as sitcoms Roseanne e Obras em Casa (Home Improvement). Dez anos depois chegava ao fim e os críticos televisivos norte-americanos e britânicos choravam "o fim de uma era". A história de seis amigos de Nova Iorque foi um retrato instantâneo, a 25 minutos por dose de exposição, da geração slacker (baldas), que não tem rumo, se apoia nos amigos no início da vida adulta ao invés de ter um emprego estável e constituir família. E que não sabe bem para onde vai e apenas sabe que não quer voltar para o sítio de onde veio. Joshua Levs, jornalista e comentador de entretenimento da CNN, descreve Friends como "um raro produto de Hollywood que parecia próximo, com o dedo no pulso - de pelo menos uma fatia - da nossa cultura". Seguidor confesso da série, Levs integra Friends nos momentos mais significativos da cultura pop para aqueles que tinham 20 anos na década de 1990.
O sucesso da série deveu-se em grande parte à sua audiência-espelho: pessoas que se reconhecem na imagem de alguém com um grupo de amigos que é mais importante e mais próximo do que a sua família. E que convivem nos cafés. A chamada coffee house culture despontou nos anos 1990 e tornou-se um ícone de Friends, mobilada a gosto com sofás e decoração retro. Quando a comédia da estação de televisão NBC estreou, além das moribundas Roseanne e Princípe de Bel Air, estavam no ar Frasier (estreia em 1993), Competente e Descarada (The Nanny, 1993), e Ellen (estreia em 1994). E uma pequena série chamada Seinfeld.
Para Nuno Artur Silva, Friends "representa um modelo que esgotou em termos de sitcoms. São todos muito bonitinhos e limpinhos, um diz uma graça e há risos, outro diz uma graça e risos, e por aí em diante". O responsável das Produções Fictícias não encontra grande foco de interesse na comédia exibida de segunda a sexta na 2:, e que esta semana entra na derradeira série, apesar de nela encontrar "uma perícia em termos de escrita".
"Há habilidades da retórica da sitcom, mas é como aqueles pianistas que tocam muito depressa e fazem piruetas enquanto tocam: não há nada ali de novo, de interessante, uma espécie de Liberace. É um virtuosismo sem transgressão". Em nada comparável com Seinfeld, "o Shakespeare das sitcoms".

O fenómeno americanoMesmo os fãs de Friends reconhecem a ausência de polémica e o tom neutro da comédia que ali se desempenhava, semana após semana durante dez anos. Não havia personagens principais negras, hispânicas ou asiáticas, quase não se falava de religião, não se abordava a política e nas mais de 80 horas de série não estalou qualquer polémica que pusesse a NBC em apuros.
Pouco depois de ter estreado, tornou-se evidente o potencial de marketing que as seis personagens brancas, jovens e bem parecidas encerravam. Canecas, t-shirts, calendários, cadernos. Tudo se vendia desde que a cara de Courteney Cox (Monica Geller), Jennifer Aniston (Rachel Green), Matthew Perry (Chandler Bing), David Schwimmer (Ross Geller), Lisa Kudrow (Phoebe Buffay) e Matt LeBlanc (Joey Tribbiani) estivesse no produto.
Friends foi uma das séries mais caras, mas também mais rentáveis de sempre em termos de merchandising e espaço publicitário. Com o tempo e o dinheiro, em Friends entraram os elementos de telenovela, para os quais é indispensável o final feliz (no episódio duplo que a 2: transmite a 30 e 31 de Agosto).

Fim de uma era?"É um fenómeno muito americano", considera Filipe Homem Fonseca, argumentista. "Cá também houve muita gente influenciada pelo Friends, mas isso não se traduz nos seus trabalhos". Nuno Artur Silva secunda a ideia de Friends como uma glorificação americana e admite que "foi um hit, mas quando se fizer a história das sitcoms Friends não fica" como algo de novo, mas sim como a série que antecipa as temáticas levadas mais longe por Sexo e a Cidade.
Em 2004, os críticos carpiam as mágoas da despedida de Friends e Frasier, num lamento pelo fim do fenómeno de massas da comédia em série. "A histeria passou para as séries, como Perdidos, CSI, Sete Palmos de Terra, Os Sopranos, talvez porque elas começaram a explorar mais as personagens, são mais condicionadas por elas", opina Filipe Homem Fonseca.
Entre as séries de 20 e poucos minutos, as novidades estão hoje em South Park, "herdeiros degenerados dos Simpsons", e em Calma Larry, protagonizada pelo homem que escrevia a personagem de George Costanza em Seinfeld, informa Nuno Artur Silva. E os pais desta nova "fronteira do humor e do hiperrealismo", atesta o argumentista, "são novamente os ingleses, a criarem um género completamente novo - o The Office", em que Ricky Gervais junta a lógica dos reality-shows ao falso documentário, sem rede, sem gargalhadas enlatadas nem argumento rígido.

Sugerir correcção