O mundo e o mito arderam no Cordel do Fogo Encantado

Findou o Músicas do Mundo em Sines, com meia-dúzia de grandes concertos e três ou quatro desilusões. Duas delas na sexta: The Bad Plus e Tony Allen. Os Bad Plus integram na linguagem jazz representantes de outros géneros, versando, por exemplo, os Interpol - mas naquele espaço falta-lhes força, capacidade de introduzir o delírio numa gramática demasiado estreita. À noite, na Avenida da Praia, Tony Allen ficou-se pelo afro-beat clássico e o concerto serviu para mostrar que falta ao seu padrão rítmico um homem de palco, que seja capaz de fazer do groove uma acendalha para uma fogueira maior. Esse homem seria Fela Kuti e à, falta dele, Sines teve, no sábado, a fechar, o filho Seun: um calquito do pai, igualmente de tronco nu, num concerto que pareceu mais uma proeza física do que um monumento. Não se imita um ícone, muito menos quando o ícone é o pai.O fim de tarde de sexta revelou uma futura estrela, o senegalês Nuru Kane. Com o seu guimbri (espécie de baixo arcaico de apenas três cordas), servido por dois percussionistas (um deles usando um tambor d"água) e um guitarrista de eleição, Kane aposta tudo na fusão entre ritmo (minimal, repetitivo, os Can em negro) e uma versão remota de psicadelismo, conseguindo provocar pequenas convulsões. No dia seguinte, igualmente ao final da tarde, Mariem Hassaan (do Saara) palminhou caminhos aproximados aos de Nuru Kane - veio com duas guitarras eléctricas e um baixo (além de percussão) e aplicou electricidade e hipnotismo ao blues circular do deserto, fazendo lembrar os malianos Tinariwen. Além disso Hassan é senhora de uma voz extraordinária - e foi uma grande revelação para muita gente.
Na sexta houve ainda um belíssimo concerto de Farida. Música repetitiva, assente nas tablas e na improvisação do violino e do jozz, deixa o espaço livre aos lamentos da voz excelsa da iraquiana - que, diga-se, tem um timbre magnífico e uma projecção poderosa. A fechar a noite no Castelo, uma aposta arriscada: o percussionista indiano Trilok Gurtu. Com um passado fortemente influenciado pelo jazz, Trilok deu um festival rítmico, contando com os drones do sarangi (espécie de cítara de arco) e do sarod (antepassado de guitarra de tonalidades ragga) e duas vozes - isto produzia uma nuvem de harmónicos, sob as quais as tablas procediam a basculações. Tudo ali se faz da improvisação a colidir com as oscilações tectónicas de Trilok, com a beleza a assomar internamente.
Sábado fechou na Avenida da Praia com Ivo Papasov, mestre da música cigana de casamentos - mas, mesmo tendo em consideração estarmos na presença de exímios executantes, a verdade é que a música balcânica tradicional parece estar numa encruzilhada, repetindo clichés e aproximando-se da autocaricatura. O mesmo, aliás, se pode dizer das finlandesas Värttinä, que optaram por um registo folqueiro - e podem começar a preparar a candidatura ao Festival da Canção.
E depois houve aquele cometa, três percussionistas, uma guitarra acústica com efeitos, e a voz de Lira: chamam-se Cordel do Fogo Encantado, vêm do Brasil, pegam na mitologia do sertão, conjuram elementos, são um combo violentíssimo em que mitos e ritmos reescrevem o Uno. Se fosse poesia, aquela música pertenceria a Vicente Franz Cecim: explosiva, xamânica, quase doentia de tão raiar o sangue. Um forró é o rastilho de um protoflamenco que vai dinamitar-se em pura fúria. O axé é exponenciado à loucura de um punk vivificador. Os textos trazem "crianças no ar", e aqui, aqui "o amor matou a minha idade". Metade amou. Metade odiou. É assim quando vem do fundo da terra - com o mundo e o mito de arrasto.