Abertura do túmulo de D. Afonso Henriques cancelada porque ministra não sabia

Presidente do Ippar admite que instituto sabia do projecto há um ano, mas não informou
Pires de Lima. E será isso preciso? As opiniões dividem-se

O Instituto Português do Património Arquitectónico (Ippar) cancelou ontem a abertura do túmulo de D. Afonso Henriques, poucas horas antes do momento previsto, porque a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, não sabia que iam ser estudados os ossos do primeiro rei de Portugal.O cancelamento terá implicações sérias no trabalho da equipa dirigida por Eugénia Cunha, bióloga e antropóloga forense da Universidade de Coimbra. Tão cedo, não terão condições para abrir o túmulo, mesmo que o Ministério da Cultura o autorize.
O equipamento para fazer a reconstituição tridimensional do rosto de D. Afonso Henriques - um dos objectivos - estava ontem em Portugal, mas já hoje deverá regressar a Espanha.
A máquina em questão - um laser tridimensional de alta precisão - foi trazida pelo médico e antropólogo forense espanhol Miguel Botella, da Universidade de Granada, um dos membros da equipa de Eugénia Cunha, e que estudou, em 2003, os restos mortais do explorador Cristóvão Colombo.
O calendário de utilização desta máquina - única na Europa, diz Botella - é apertado. Já para a semana, o investigador espanhol vai levá-la para o México, de onde só regressará em Agosto. Nesse mês, porém, é a vez de Eugénia Cunha sair de Portugal, para compromissos profissionais na Bulgária.
Eugénia Cunha, 44 anos, catedrática e autora, entre outros, do estudo, há dez anos, dos restos mortais das freiras do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, foi apanhada de surpresa com a notícia do cancelamento ontem de manhã. "Não vou desistir, vou pedir as autorizações à ministra, que é o que parece que tem de ser feito", disse ontem. A investigadora não sabe, porém, se o financiamento privado se manterá.

"O que faço agora?"De uma coisa tem a certeza: "Deixei de ter reconstituição tridimensional." Não há qualquer retrato do rosto de D. Afonso Henriques, por isso, se ainda existir o crânio - uma das dezenas de incógnitas -, este trabalho de reconstituição permitiria saber como eram as suas feições. A vinda da máquina, e dos cientistas que iam trabalhar com ela, custa nove mil euros - parte dos quais terão de ser pagos de qualquer modo.
Ontem de manhã estava tudo a postos para a abertura do túmulo, na igreja do Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra. O túmulo já estava meio aberto, os andaimes montados e o computador preparado. "O que faço agora? Pomos a pedra outra vez no sítio?", questiona Eugénia Cunha.
Três mecenas (a empresa Teixeira Duarte, o Banco Português de Investimento e a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento) financiam este projecto, que pretende fazer o perfil biológico de D. Afonso Henriques. Saber a estatura física do rei, as doenças crónicas que terá tido, se partiu de facto uma perna (como referem muitas crónicas), com que idade morreu ou se fazia uma dieta mais à base de carne ou peixe são alguns objectivos.

Os bastidores no MinistérioEugénia Cunha pediu formalmente autorização para abrir o túmulo em Julho de 2005, à direcção regional do Ippar de Coimbra, e teve o parecer positivo final há duas semanas (embora, ao longo destes 12 meses, tenha tido várias autorizações para as várias etapas de preparação).
A ministra da Cultura, porém, só soube ontem de manhã que o túmulo do primeiro rei de Portugal ia ser aberto pela primeira vez em mais de 170 anos. Foi informada pelo seu chefe de gabinete, Carlos Rodrigues, na sequência de um pedido para fotografar a abertura.
"Não tinha sido feito qualquer pedido à ministra. Ao ser confrontada com a situação, questionou o Ippar, que analisou o caso e cancelou a abertura", disse ontem Nelson Lopes, assessor de imprensa de Pires de Lima.
As regras a aplicar nestes casos - o que se deve fazer - não são claras e, ouvidos alguns arqueólogos e historiadores, todos concordam que esta é uma questão sensível que divide opiniões (ver inquérito). "Há um vazio legal na lei orgânica do Ippar", admite Nelson Lopes. "Não diz nada sobre a exumação de cadáveres." E por isso, continua, "manda o bom senso que, tendo em conta a delicadeza da questão, seja pedida a autorização da ministra da Cultura".
A confusão, porém, está instalada, e Pires de Lima exigiu ontem um inquérito interno "para apurar responsabilidades".
"Lamento muitíssimo o sucedido", disse ao fim do dia o presidente do Ippar, Elísio Summavielle, acabado de regressar de férias. "O cancelamento à última hora deveu-se a erros internos de comunicação" no instituto, admitiu.
Summavielle, à frente do Ippar desde Outubro de 2005, disse que o instituto conhece o projecto desde Março de 2005, mas que a sede em Lisboa só se apercebeu em Junho deste ano que o túmulo ia ser aberto. Isso aconteceu quando chegou à direcção de Lisboa um pedido de uma produtora que trabalha com a equipa científica para filmar o momento. "Mas não queremos escamotear datas", acrescenta o presidente. "A delegação de Coimbra é do Ippar e, por isso, para todos os efeitos, o Ippar sabe há mais de um ano." Para Summavielle, "é claro" que o pedido de exumação de um chefe de Estado exige autorização do Governo, mas também "é natural" que não tenha sido esse o entendimento do director regional de Coimbra, José Maria Tadeu Henriques. Summavielle disse ainda que "não houve pressão política para cancelar, apenas a tomada de consciência de que tudo isto carece de uma autorização
superior". com Lucinda Canelas