Crítica

Retrato de um fenómeno: Daniel Johnston

Daniel Johnston é um fenómeno bizarro da música americana. Começou por ser uma excentricidade local de Austin, Texas, que depois foi "patrocinada" por algumas figuras notáveis (sobretudo Kurt Cobain, graças a uma t-shirt, mas por exemplo Tom Waits também é um admirador) e conquistou relativa celebridade no circuito da música popular "alternativa". Há quem jure pela sua genialidade, há quem a renegue em absoluto - quanto a isso, diremos apenas que nalgumas canções de Johnston há um sentido melódico que é desarmante, como se viesse de um Brian Wilson sem irmãos e eternamente com doze anos (e que nunca tivesse visto a praia).

Falta explicar o "twist" desta história toda: Daniel Johnston não é só um excêntrico, é um caso clínico. Sofre de desordem bipolar (vulgo "maníaco-depressivo"), doença que nele se manifesta em grau extremo e tem feito passar a vida (nasceu em 1961) a sair e a entrar de instituições psiquiátricas. Não encontraremos grandes arrojos formais no filme que Jeff Feuerzeig concebeu sobre a figura de Johnston (e que leva por título original "The Devil and Mr. Johnston"). Não foge ao modelo normalizado do documentário de "depoimentos + imagens de arquivo", materiais que constitutem o seu núcleo (mas também há imagens de Johnston na actualidade, e evocações de lugares e acontecimentos passados, construidas às vezes como pequenas dramatizações mais ou menos abstractas). O que "Loucuras de um Génio" faz, isso sim, é aplicar esse modelo de maneira bastante inteligente e sensível, até com alguma sofisticação narrativa - Feuerzeig constroi o filme como um grande "flash-back", começando com imagens de uma actuação de Johnston nos dias de hoje e voltando depois ao princípio para contar a sua história desde a infância.

Tem uma grande virtude: não condescende com a personagem, sendo capaz de evocar a sua condição clínica sem que isso influa num olhar piedoso que sirva para reduzir Johnston a um esteréotipo de sofrimento. Sem nenhum paternalismo, "Loucuras de um Génio" tenta um retrato sóbrio que mesmo de maneira sibilina não se furta a tocar na mais delicada questão subjacente (Johnston será mesmo um "génio", como parece garantir o título português, ou só um doente mais ou menos imaginativo e impressionante?).

Para além de explicar, tanto quanto isso é possível, várias características do universo criativo de Daniel Johnston (que também é autor de milhares de desenhos que começaram agora a ser expostos em galerias), fazendo "raccords" com a sua biografia, Jeff Feuerzeig deixa-nos muitas vezes a sós com a visão do mundo "segundo Johnston", integrando, provavelmente com a mesma estupefacção com que o espectador as recebe, as suas principais manifestações: as canções, os desenhos, os "home movies", as gravações caseiras (maníaco do registo, Johnston gravou desde miudo coisas como os raspanetes passados pela mãe). E esta capacidade de restituir um universo pessoal evitando interpor-se o menos possível entre ele e o espectador acaba por ser a principal qualidade de "Loucuras de um Génio".