Marcos Pontes, o primeiro astronauta brasileiro, criticado porque decidiu passar à reserva

O tenente-coronel da Força Aérea diz que precisa de dar atenção à sua saúde

O tenente-coronel Marcos Pontes passou para a reserva da Aeronáutica, no início deste mês, depois de em Abril se ter tornado o primeiro astronauta de língua portuguesa, cumprindo um sonho de muitos anos. Mas essa decisão foi recebida com muitas críticas na imprensa, e o astronauta brasileiro escreveu na quinta-feira uma carta em que diz que não esperava as críticas agressivas. "Ser reserva da Força Aérea não é sinónimo de afastamento do programa espacial. Estou extremamente magoado", afirmou. Alberto Goldman, deputado por São Paulo do Partido da Social Democracia Brasileira, por exemplo, criticou o facto de Pontes ter entrado para a reserva apenas com 43 anos. "Muitos imaginaram que o astronauta permaneceria na carreira por patriotismo. Mas, no caso, o que mais importou foram os interesses pessoais", afirmou.
Outro deputado de São Paulo, Orlando Fantazzini, do Partido Socialista, disse temer pelo desfecho desta história. "Marcos Pontes aprendeu bastante com dinheiro público e agora vai dividir experiências com o sector privado. É claro que isso frustra", atacou, citado pela agência Radiobrás.
Marcos Pontes defende-se. "Tento recuperar um pouco da minha vida, depois de me ter dedicado cem por cento à missão, sacrificando vida social, carreira militar, saúde e família", respondeu Marcos Pontes, que disse ter vários problemas de saúde, na carta que tornou pública.
"A saúde se recupera. Certamente não é, nem de perto, a mesma do início do treino em 1998. A idade e o stress cobraram tributos altos. Nos próximos anos, terei que ficar de olho na pressão sanguínea, na pressão ocular e nos pequenos tumores encontrados no intestino (retirados) e nos rins. Contudo, é bastante improvável que tenha condições para preencher os requisitos médicos de uma segunda missão espacial. Por isso, é mais lógico que passe agora a lutar para um segundo voo realizado por outro astronauta brasileiro", escreveu.
Durante os anos de preparação para a missão, Pontes disse que deixou de realizar os cursos de carreira e optou pela missão. "Minha carreira como oficial do activo não poderia ter mais progressos. As insinuações maldosas de que teria qualquer actividade comercial com empresas ou palestras foram todas averiguadas pelo Comando da Aeronáutica, que confirmou que nunca infringi o regulamento", relatou o militar.
O investimento financeiro efectuado pela Agência Espacial Brasileira (AEB), com o treino de astronauta nos EUA e na Rússia tinha a finalidade exclusiva de o preparar para um voo espacial para o Brasil. Assim, a execução operacional da Missão Centenário, primeiro voo espacial brasileiro, com sucesso e absolutamente sem nenhum erro, representa o retorno integral de todo o investimento feito pela AEB.
"A finalidade primária da missão era científica e não para que Marcos Pontes voasse. Se tivesse existido qualquer problema de saúde ou técnico antes da missão, no dia do lançamento, por exemplo, teria voado no lugar do astronauta brasileiro um cosmonauta russo, Sergei Volkov. Podendo executar assim as experiências brasileiras na Estação Espacial Internacional (ISS). A impressão que fica é que se procura justificar na pessoa o custo da missão. É claro que isso é um absurdo", afirmou Marcos Pontes.
Aquilo que ele gostaria de fazer agora era apresentar na televisão um programa de divulgação científica para crianças. Recebeu um convite da TV do Saber, um canal da TV Cultura, para apresentar programas na rede pública de televisão.