São Carlos vira teatro ao contrário para mostrar toda a tetralogia de Wagner

O Teatro São Carlos vai encenar toda a tetralogia de Wagner. A primeira ópera estreia--se a 28 de Maio. No final, o ciclo completo será apresentado numa semana. É um acontecimento

A sala do Teatro Nacional de São Carlos foi transformada num anfiteatro. O director, Paolo Pinamonti, desvendou ontem o seu ambicioso projecto para fazer regressar ao teatro lisboeta O Anel do Nibelungo, as quatro óperas de Richard Wagner dedicadas à saga dos Nibelungos. Do seu camarote, Pinamonti mostra como tudo está virado do avesso para a estreia de O Ouro do Reno, o prólogo em um acto de O Anel, cuja estreia é já a 28 de Maio: "O palco está na plateia e a plateia no palco. Toda a arquitectura da sala serve os propósitos da encenação." Será um espectáculo em 360 graus.
O São Carlos vai encenar até 2008 toda a famosa tetralogia de Wagner. São mais de 15 horas de espectáculo, numa nova produção assinada pelo britânico Graham Vick. "Estou muito excitado e confiante. Penso que podemos pôr Lisboa no centro das propostas wagnerianas de hoje", diz Paolo Pinamonti.
Na próxima temporada, a tetralogia continuará com A Valquíria, seguindo-se, em temporadas sucessivas, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses. O fim da tetralogia será na temporada de 2008-09, estando prevista, então, a apresentação do ciclo completo durante uma semana, numa aproximação do que seria o desejo de Wagner para ver e ouvi-la. Em 2008, O Anel é a ópera inaugural da temporada, terminando com a estreia de O Crepúsculo dos Deuses.
"Quando cheguei aqui, comecei a estudar a vida musical e reparei que a música wagneriana era uma presença importante na vida lisboeta", diz Pinamonti, o director italiano que veio em 2001 para o São Carlos. "Madrid acabou agora de ver o primeiro Anel completo. Aqui já foram feitos quatro", continua.
Richard Wagner estreou o Anel em 1876, depois de o compositor alemão ter conseguido construir o teatro de Bayreuth - a casa do festival no topo da colina - para representar a sua tetralogia. Em Lisboa, o Anel estreia-se em 1909, seguindo-se nova tetralogia em 1948-49, a terceira em 1975-76, tendo a última sido apresentada no início dos anos 80 (dividida por duas direcções do teatro diferentes).
Desde 2003 que Pinamonti está "a acarinhar este projecto". Mas propor um Anel num teatro histórico como o São Carlos coloca vários problemas. "Tem a limitação de ter um fosso pequeno para uma orquestra wagneriana e o palco tem fortes limitações técnicas quando confrontado com os grandes teatros europeus. Tínhamos de encarar de maneira diferente a proposta de um Anel. Eu queria um Anel diferente."
Ao longo do século XX, segundo o director do São Carlos, as reposições históricas têm privilegiado alguns aspectos da maquinaria teatral. "Há uma tendência espectacular muito forte. A música wagneriana parece ter solicitado uma encenação de efeitos especiais. O S. Carlos não podia oferecer isso ao espectador."
A encenação resolveu explorar o facto de Wagner ter querido ultrapassar os limites do teatro à italiana, a disposição tradicional da sala do São Carlos: "Quando Wagner concebeu esta grande saga mítica em quatro óperas, quis renovar totalmente o espaço teatral, numa recuperação da antiga tragédia grega. O público é envolvido no espectáculo teatral, num espaço democrático."
O Anel tem sido também lido como uma parábola político-social, como uma alegoria do capitalismo e dos seus males. Mas Pinamonti sublinha que não foi a encenação de Patrice Chéreau - a célebre produção estreada em 1976 para o centenário do Anel - a primeira a fazê-lo. "Já Bernard Shaw o interpretava como uma parábola do capitalismo." E conclui que cruzando o simbolismo do Anel no São Carlos com a proposta de Wagner para um novo espaço teatral, a tragédia mítica e a parábola social, é possível fazer uma versão que fala ao homem contemporâneo: "O São Carlos na íntegra será o palco do Anel - esta é a ideia forte."