Nova geração hip-hop e soul passa revista aos GNR

Em Revistados 25-06, hoje editado, 14 temas da banda do Porto ficam com as melodias dilaceradas e as letras estropiadas. "Uma felicidade",
diz Rui Reininho

É mais um disco de homenagem a uma banda portuguesa que chega a um número redondo na sua carreira, 25 neste caso. Mas a "homenagem" de 14 nomes das novas gerações de artistas de hip-hop, soul e reggae aos GNR é, também, diferente. Primeiro, porque os nomes escolhidos não foram os da área do pop/rock habituais nas colectâneas de tributo. Depois, porque estes Revistados se abalançam a um universo estético longínquo da sua música urbana actual. E, por fim, porque atacaram os temas do veterano trio nortenho por vezes iconoclasticamente, chegando a resultados que dos GNR têm pouco mais que um pretexto. O que agrada a Rui Reininho, vocalista, letrista e agent provocateur por excelência nos meios musicais portugueses. Simultaneamente cortante e meigo, reflecte sobre esta - palavra temida - "homenagem". "Há lá duas ou três coisas que realmente não adianta, um sample de nós e vai por ali fora, é um bocado os 100 metros, mas também é interessante..." Mas o que mais lhe agrada é cada artista ter pegado na ideia que tinha dos GNR, "quase como uma imitação da vida". E é também "como as paixões, uns se calhar só estão lá pelo dinheiro, e outros que estão lá mesmo por amor. Tipo "Casei com isto mesmo por amor, porque não vejo nenhum interesse nesta merda!"" Reininho reconhece assim que são dois universos díspares, mas que foi bom encontrarem-se.
O cantor acompanhou o processo que levou à edição deste CD, regravou o refrão de Bem vindo ao passado para NBC. E há também outras ligações - por exemplo, a bateria de Pós modernos é tocada por Tito Romão, de 12 anos, que é filho de Jorge Romão, o baixista dos GNR, que co-compôs a música de Pós modernos.
Revistados 25-06 é um projecto agarrado por Paulo Junqueiro, da EMI Music Portugal (a editora de sempre do Grupo Novo Rock), que deu então carta a branca à manager Joana Souza Dias e ao produtor New Max (dos Expensive Soul). Como conta Joana, fizeram uma listagem das pessoas que gostariam que se enquadrassem no projecto, "tudo dentro da vertente hip-hop, soul, reggae". Alguns aceitaram, outros não aceitaram.
O que lhes era pedido: "Uma coisa completamente diferente, não era remisturar músicas, mas pegar em temas dos GNR e fazê-los à maneira de cada projecto." Isto é, "que uma pessoa ouvisse um tema, sabia que aquilo era XEG, ou NBC, mas que havia ali qualquer coisa que fazia lembrar os GNR". Seis dos temas foram gravados nos New Max Records, e também aí misturados. Todo este processo deixou Rui Reininho a pensar que existe nestes nomes do hip hop, soul e reggae possibilidades de colaboração para os GNR, e de revitalização da sua banda.
"Porque não em pensar em colaborações futuras? Há gente que tem ideias, e nomeadamente o Max, que acho que é um produtor muito, muito acima da média. Não é da média, é acima da merda nacional. Com um know how porreiro de coisas práticas." E há também por ver neste universo novas pistas, "um gosto de fazer as coisas que às vezes já se perde, que nós próprios às vezes temos muita dificuldade, quando nos dizem "por que é que não tocam a Bellevue?", e como é que um gajo vai pegar por aquilo pela nonagésima vez, e para ser sincero, para ter prazer?"

Dunas iam ser reggaetonJoana Souza Dias faz um balanço da feitura de Revistados 25-06. "Foi um desafio, eles foram mais artistas do que músicos, é um trabalho mesmo meticuloso. Primeiro tiveram que fazer todo um trabalho de pesquisa, tiveram que ouvir muito GNR para conseguirem encontrar um tema com que se identificassem." E crê também que estas desconstruções dos temas dos GNR não foi nada fácil, dado que "uma pessoa está habituada a ouvir o Dunas e o Efectivamente, temas que não nos saem da cabeça, por muito que nós oiçamos aquilo estamos sempre a lembrar-nos do original, é muito complicado dissociar-nos disso". Em resumo: "Não [foi] um processo fácil, mas acho que foi conseguido."
O disco inicia-se com Popless pelos Guardiões do Subsolo (ver caixa) e termina com Melo D a vogar pelas Dunas. O cantor soul escolheu esta canção porque queria sentir a responsabilidade de perceber "de que forma poderia transformar o tema mais emblemático dos GNR, que volta lhe podia dar". A intenção inicial era fazer de Dunas "um reggaeton à portuguesa", mas depois assumiram "o som good vibes", que o cantor definiria como "afro-brasilian soul music": "A harmonia tem a ver com o Brasil, com o soul, a rítmica com a cena afro e a cena brasileira."
E acha que a versão está conseguida, por conseguir levar o tema original a outros públicos. "Muitas pessoas que gostam de soul music são capazes de prestar outra atenção ao tema. Muita gente já conhecia, uma vez que está no imaginário de todos os portugueses, mas esta versão como está acaba por chegar a um público diferente, mais vasto, o público africano tem vindo a dar um feedback muito bom, por razões até bastante óbvias, pela rítmica, pela harmonia mais soul."
E a mensagem dos GNR já está a passar para as mãos de gerações ainda mais novas: a voz que se ouve a acompanhar Melo D é de Clara, uma menina de nove anos que está a gravar o seu primeiro álbum, um disco de R&B para o público mais novo.