R de resistência

Mas quem esperar daqui uma fita juvenil inane vai achar que entrou no filme errado quando deparar com o ambiente cripto-fascista em que tudo se passa e as perversas subversões da dicotomia herói/vilão que pululam ao longo dos 130 minutos de projecção. V (Hugo Weaving), o "herói" nominal do filme, planeia um atentado terrorista para deitar abaixo o Parlamento inglês - e nunca, jamais, em tempo algum mostra o rosto (sempre escondido atrás de uma máscara sardónica) ou revela a sua identidade.

O "ponto de viragem" para a consciência moral de Evey (Natalie Portman), a heroína que nos serve de ponto de entrada na narrativa do filme, é um longo "flashback" sobre um casal lésbico que desaparece nos campos de concentração desta Inglaterra isolacionista e totalitarista de 2020. Não, "V de Vingança" não é (apenas) um "blockbuster" de acção. É uma releitura contemporânea em tom de mistério policial da distopia clássica orwelliana de "1984". É uma meditação violenta e deliberadamente provocante sobre a encruzilhada moral da sociedade moderna que faz pelo filme de género aquilo que a "Matrix" fez pela ficção-científica "ciberpunk": pegar nela, aplicar-lhe um enxerto de porrada brutal e depois fazer-lhe uma lobotomia invertida que, em vez de retirar, instala um "upgrade".

Nem por acaso, ignore-se a autoria nominal de "V de Vingança", primeira longa-metragem do ex-assistente de realização James McTeigue. Este é, na realidade, um filme "por procuração" de Andy e Larry Wachowski, os inventores da "Matrix", que há anos almejavam adaptar a novela gráfica de Alan Moore e David Lloyd sobre um mascarado que procura repôr a ordem democrática numa Inglaterra futurista sob o jugo de um regime totalitário, recrutando como confidente e cúmplice, contra sua vontade, uma jovem secretária que salva de uma potencial violação. Com pouca vontade de se meterem noutra tão cedo depois da monumental rodagem simultânea de "Matrix Reloaded" e "Matrix Revolutions", os irmãos reclusos (que se recusam a dar qualquer entrevista) preferiram entregar o argumento que tinham na gaveta há anos (antes mesmo do êxito da "Matrix") nas mãos de McTeigue, que os assistiu na trilogia.

de thatcher às ameaças contemporâneas.

Claro que não se trata de uma adaptação fiel à letra da criação de Moore, que, originalmente concebida na Inglaterra Thatcherista dos inícios dos anos 80, reflectia o negrume social de uma sociedade prisioneira de uma espiral conservadora - e os ferrenhos contestam a eliminação do lado anarquista muito presente no livro. No entanto, o espírito de resistência da BD não apenas passou intacto para o cinema como parece inclusive ter ganho uma nova dimensão de comentário face às ameaças contemporâneas. V, o herói/vilão da história, retira a sua inspiração de Guy Fawkes, o conspirador católico que a 5 de Novembro de 1605 quis fazer explodir o parlamento, assassinando o rei Jaime I e assim anulando a deriva protestante da sociedade inglesa. V esconde o seu rosto por trás de uma máscara de Guy Fawkes - V quer acordar com um bangue as massas britânicas da complacência assustada em que o jugo totalitário e manipulador do chanceler demagogo Adam Sutler as mantém. V quer pô-las a pensar por si próprias, quer levá-las a tomar o controlo do seu destino - através de actos subversivos: fazer explodir os tribunais de Old Bailey, assassinar figuras proeminentes do regime.

Qual é mesmo a diferença entre "terrorista" e "combatente pela liberdade"? No universo de "V de Vingança" depende de quem pronuncia a palavra - mas estará ele tão longe do nosso quanto isso? Porque V é, literalmente, um produto da sociedade contra a qual se ergue - e talvez não seja apenas o acaso que leva Evey, que também tem um passado obscuro, a tornar-se o seu "braço direito". Não há coincidências, diz V a certa altura. E a verdade é que ninguém é inocente neste filme que funciona a múltiplos níveis de leitura, como o prova a personagem do inspector Finch (Stephen Rea), que começa como "vilão" para se tornar numa figura de sensata e sensível ambiguidade.

Tudo isto vem, evidentemente, embrulhado nos jogos de correspondências em que os irmãos Wachowski são peritos - como, por exemplo, colocar John Hurt, que interpretou Winston Smith na adaptação de "1984" por Michael Radford, no papel do líder fascista, ou ter uma personagem principal que apenas existe pela voz e pela presença física; pedindo a Natalie Portman, actriz americana de ascendência israelita, que rape o cabelo para uma sequência que remete para os campos de concentração nazis; exigindo de Hugo Weaving (o agente Smith da "Matrix", recrutado à última hora para substituir James Purefoy, que abandonou a produção ao fim de um mês de rodagem) uma prestação que estará mais próxima da mímica ou da tradição do teatro japonês. Não deixa, com tudo isto, de ser pena que não tenham sido os próprios irmãos a dirigir o filme - fica sempre a sensação de que James McTeigue é um tarefeiro a fazer "à maneira de", mais do que alguém com uma visão pessoal.

É, aliás, muito evidente para quem quiser vê-lo que os Wachowskis quiseram fazer um filme que não se esgote na superfície do filme de acção, que deixe questões importantes a remoer na cabecinha daqueles que nelas quiserem mergulhar. Os ferrenhos da novela gráfica de Moore e Lloyd gritam já ao sacrilégio pelas alterações que os irmãos introduziram para tornar a história num filme mas é forçoso reconhecer que, mesmo assim, "V de Vingança" continua a levantar muitas das questões que interrogava em livro. Richard Corliss, na "Time", estará mais próximo da verdade quando diz que o grande cinema de género dos anos 50 e 60 reflectia as realidades contemporâneas por um prisma distorcido, e é nessa linhagem que "V de Vingança" deve ser apreciado. Como um espectáculo popular dobrado de filme tudo menos politicamente correcto - caderno de encargos que cumpre com brilhantismo, mesmo que sem genialidade, em ambas as vertentes.