Crítica

O fascínio do escorpião

Homossexual sulista, com uma voz aguda e afectada - que alguns achavam desagradável -, parecia uma caricatura. Mas era uma figura complexa, dizem os que o estudaram. A interpretação de Philip Seymour Hoffman está à altura dessa estranheza.

Com os seus gestos afectados, os seus longos cachecóis e a sua voz de falsete, Truman Capote era personagem inesperada no Kansas do final dos anos 50, onde chegou de repente para escrever sobre o massacre da família Clutter. "Capote e Holcomb [a cidade dos Clutter] era uma combinação improvável", diz Norman Sims, professor de jornalismo da Universidade de Massachusetts.

"Capote descrevia Holcomb como "lá para diante"" - um país definido por "um céu azul intenso e um ar transparente, de deserto", onde os homens vestem "calças justas de fronteiriços, chapéus de feltro de aba larga, botas de tacão alto com biqueiras aguçadas" e fala "com um sotaque de planície". Por seu lado, Capote era descrito como "um homossexual sulista muito baixo, com uma voz aguda e afectada, que alguns achavam muito desagradável", recorda Sims.

Consciente da estranheza que poderia provocar, Capote fez-se acompanhar por Nelle Harper Lee, também escritora e amiga de infância, que tinha a tarefa de abordar as pessoas e estabelecer um primeiro contacto. Mas, depois de ultrapassada essa dificuldade inicial, era Capote quem acabava por fascinar os seus interlocutores. Contava, arrastando um pouco a voz aguda, como tinha sofrido na infância, repetidamente abandonado pela mãe. Foi assim que conquistou Perry Smith, um dos dois assassinos de "A Sangue Frio".

"Quando, no filme, Capote fala do seu passado infeliz é geralmente com o objectivo de conquistar uma confiança que - como o escorpião às costas do sapo - não consegue evitar explorar", resume o "Los Angeles Times". E quando Perry Smith está sob o seu encantamento, não hesita em, friamente, picá-lo, como o escorpião pica o sapo que o ajuda a atravessar o rio.

A figura era complexa, concordam todos os que estudaram Capote e a sua obra. "O homem, tal como o seu livro ["A Sangue Frio"] era complexo e perturbador. Infelizmente era, como muitos artistas, muito egocêntrico. Na vida real podia ser profundamente obnóxio. O problema é que, apesar dos seus defeitos, era um escritor excepcional", considera John Hartsock, especialista em jornalismo literário.

Philip Seymour Hoffman representa Capote nesta enorme complexidade - profundamente narcisista, um solitário a lutar contra os traumas da infância, com uma moral que se adaptava às suas necessidades, um escritor cheio de talento, e com uma imensa capacidade de compreender uma alma torturada, como a de Perry Smith, mas que não hesitava contar histórias ligadas às personagens que conhecera no Kansas para divertir amigos nas festas.

John Hartsock tem com "Capote", o filme - e com a figura, cheia de maneirismos, e de voz mais do que improvável (embora semelhante à "verdadeira") de Philip Seymour Hoffman -, um problema, que tem a ver com limites e com verdade. "Quando estava vivo, Capote era uma espécie de caricatura real. Agora que foi levado ao cinema o que temos é a caricatura de uma caricatura. Há um velho ditado que diz que "a verdade é mais estranha do que a ficção", e por isso é mais fácil aceitar a realidade porque sabemos que ela aconteceu realmente. E aqui temos outra contradição a rodear este homem: pelo que sei ele era realmente assim. Mas não acho a "realidade" neste filme muito credível. Há, então, limites para o que podemos acreditar sobre a realidade? Tenho a certeza de que este era o tipo de dúvida a que Capote adoraria entregar-se".