Os exorcismos do "padre" humberto gama

Ex-padre católico, ex-candidato à presidência das câmaras de Mirandela e de Murça, actual exorcista, Humberto Gama regressa à ribalta. Motivo: voltou a ser acusado por uma mulher de abuso sexual durante uma "consulta". O bispo de Viseu garante que vai investigar. Por Alexandra Campos

Humberto Gama não é um homem qualquer. "Eu arrisco e assumo a diferença", avisa. De facto, é difícil encontrar um percurso tão versátil como o seu: era padre da Igreja Católica mas foi "expulso" há anos; no entretanto, andou pelos Estados Unidos, voltou, tentou ser presidente da Câmara de Murça (pelo CDS) já depois de ter chegado a enfrentar o próprio irmão, José Gama, na luta pela liderança da autarquia de Mirandela (dessa vez em nome do PS); agora é exorcista, actividade que lhe tem valido reportagens televisivas encomiásticas e até um livro. Com "consultórios" abertos em Murça e perto de Fátima, intitula-se "padre" e "doutor" e diz que tenciona em breve alargar a actividade a Lisboa.Uma carreira diversificada e que parece ir de vento em popa, portanto, mas que agora volta a ser ensombrada, depois de um casal de Vila Franca de Xira ter decidido apresentar queixa ao Ministério Público de Ourém e à PSP de Fátima. Motivo: o exorcista terá abusado sexualmente da mulher durante a terceira sessão destinada à libertação dos espíritos malignos.
Aos 67 anos, Gama reage com ironia às denúncias. Afinal, há dois anos foi alvo de duas queixas em quase tudo semelhante - estas apresentadas por uma mulher do Porto e outra de Lisboa, que o procuraram em 2004 no seu consultório em Murça. As descrições parecem tiradas a papel químico. Depois de uma série de "consultas" iniciais para diagnosticar o problema, ele teria culminado o tratamento com uma sucessão de "beijos na boca", "apalpões" nos seios, a introdução "de dedos na vagina" e outros supostos avanços - impublicáveis, de tão sórdidos. Aos queixosos, Gama aplica o mesmo epíteto: "São todos malucos". E não parece incomodado com mais esta investida contra o seu bom nome. "Isto traz-me clientes..."
Há dois anos, quando foi ouvido em tribunal a propósito das outras queixas, foi "uma risada", recorda. "Já nem sei quem se ria mais, se o juiz [procurador] que me ouviu, se a escrivã". O resultado desta investigação judicial continua no segredo dos deuses. A advogada da queixosa de Lisboa diz apenas que o inquérito prossegue.

Exorcismo é "um dom"O "pesadelo" do casal de Vila Franca de Xira (que pede para não ser identificado) começou quando o marido assistiu a uma reportagem da TVI que descrevia a última façanha do "padre" Gama - o exorcismo de um homem acusado da violação e morte de uma jovem em Chaves. Mais tarde, o homem de Vila Franca leu o livro escrito por um jornalista que assistiu a dezenas de exorcismos e decidiu "passar alguns para o papel" - uma obra intitulada Exorcismos: o poder da estola nas mãos do Padre Humberto Gama, que já vai na segunda edição.
Crendo piamente que Humberto Gama era padre da Igreja Católica e tinha poderes inusitados, desesperado depois de ter tentado encontrar soluções junto de uma série de médicos para os problemas de hiperactividade da filha, o casal decidiu então recorrer aos seus serviços. Na primeira consulta, em Outubro passado, Gama terá dito que o problema partia da mãe e que esta teria que ser exorcizada. Mas só à terceira vez, e com ela sozinha num quarto, terá tentado ir mais longe. A mulher diz agora que apenas foi suportando os estranhos rituais por acreditar que ele "era um padre de verdade", até porque "tinha sido tão publicitado". E garante que apenas decidiu apresentar queixa por ter percebido que havia outras denúncias do mesmo teor e quer evitar que haja pessoas a passar pelo mesmo.
Como reage a Igreja Católica ao controverso comportamento deste homem que continua a apresentar-se de sotaina? Até agora, com alguma discrição. Há dois anos, quando as reportagens televisivas mostraram Gama, de batina e estola, a fazer exorcismos em directo, a Diocese de Vila Real fez um comunicado a alertar os fiéis para o facto de ele não pertencer ao clero local e ter sido expulso em 1972 da congregação religiosa a que pertencia. Mas não citava o seu nome. Desta vez, o caso pode mudar de figura. O bispo de Viseu diz que já mandou investigar a situação e garante que não vai ficar "indiferente".
"Eu sou um padre da Igreja de Deus", reage Gama, garantindo que foi ele quem se "despediu" da congregação religiosa e lamentando que a Igreja Católica pense "que tem o monopólio da religião". "Ninguém pode tirar a um padre o direito de ser exorcista. Isto é um dom."