Fundação Champalimaud vai ter centro próprio de investigação médica

As neurociências e o cancro vão ser as áreas principais em que os cientistas da fundação irão concentrar
os esforços

A Fundação Champalimaud vai ter um centro de investigação médica, que estará ligado a um hospital de dia. Debaixo do mesmo tecto, o centro juntará o hospital e cientistas dedicados a fazer investigação científica básica e clínica. Não há uma data para o início do funcionamento, mas a fundação não ficará parada enquanto não existirem as instalações. Até ao final deste ano, financiará cientistas para trabalharem noutras instituições. Estes anúncios foram feitos ontem em Lisboa pela presidente da Fundação Champalimaud, Leonor Beleza.Leonor Beleza revelou o modelo escolhido para a Fundação criada em testamento pelo milionário António Champalimaud (falecido em Maio de 2004), com parte da sua herança. Fê-lo a seguir a uma reunião do conselho de curadores - um órgão consultivo e de acompanhamento dos objectivos estratégicos da fundação -, ao qual apresentou a proposta do conselho de administração, a que preside, sobre o que será a fundação.
Fazem parte do conselho de curadores nomes sonantes, como o de Cavaco Silva (ausente, por estar em campanha eleitoral), Simone Veil (ex-presidente do Parlamento Europeu), Mary Robinson (ex-Presidente da República da Irlanda e ex-alta-comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas), António Damásio (neurologista do Instituto Salk, na Califórnia, nos Estados Unidos) ou o imunologista António Coutinho (director do Instituto Gulbenkian de Ciência).
"Nesta fase, o caminho é a criação de um centro para investigação sob a responsabilidade directa da fundação. Este caminho não exclui actividades de outro tipo, mas é nesta que nos vamos centrar", disse Leonor Beleza, no dia que marcou o arranque das actividades da fundação.
"Podíamos limitar-nos a ter um centro de investigação básica, como existem outros. Mas entendemos que o ponto mais crítico entre nós é a investigação clínica, que é feita com doentes e tem um objectivo mais próximo de encontrar meios de tratar e prevenir doenças."
Por isso, a investigação básica, destinada a compreender os mecanismos biológicos básicos, vai andar de mãos dadas com a investigação clínica, já dirigida para desenvolver tratamentos. "O nosso centro vai ter simultaneamente investigação básica e clínica, com grande capacidade de troca entre os dois lados. É aí que reside o ponto onde este centro é mesmo novo", sublinhou Leonor Beleza.
Na investigação básica, as neurociências serão a prioridade. E na investigação clínica será o cancro. "Nas neurociências, ainda se está numa fase em que se desconhecem os mecanismos fundamentais do funcionamento do cérebro. No cancro, já é sobretudo em investigação clínica que se joga o essencial. Seguramente que nos preocuparemos mais com os cancros que têm maior incidência em Portugal."
De início, o hospital que a fundação criará não fará internamentos. "Vai ser um centro clínico em ambulatório - um hospital de dia. Numa fase subsequente, vamos ver se será mais do que isso. Na maioria das situações, o cancro trata-se em ambulatório."
Ainda não está definido o local onde ficarão o centro de investigação e o hospital, nem quando vão funcionar. "Fisicamente, só existiremos dentro de algum tempo, mas a fundação iniciará em breve investigação sua feita noutros sítios. Colocaremos investigadores nossos, ou financiados por nós, noutras instituições em Portugal ou no estrangeiro. Investigarão em domínios que nos interessem particularmente." Até ao final deste ano, a fundação financiará os primeiros cientistas.
Atrair cientistas, tanto portugueses como estrangeiros, a trabalhar em instituições de excelência mundial é o objectivo. "Espero que haja cientistas portugueses que queiram vir trabalhar para Portugal, não apenas porque são portugueses, mas porque existem condições excelentes. Mas também queremos estrangeiros. Queremos um centro absolutamente multinacional; pessoas que vêm de sítios diferentes com culturas diferentes. Os grandes centros científicos do mundo são assim."
A fundação já contactou, e nalguns casos visitou, mais de 50 instituições. Entre elas estão o Laboratório de Cold Spring Harbor, dirigido por James Watson, um dos descobridores da estrutura do ADN, o Cancer Research do Reino Unido, o Instituto de Células Estaminais e a Faculdade de Medicina de Harvard, as universidades Johns Hopkins e Rockefeller, o Instituto Médico Howard Hughes, o Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto ou o grupo que edita a revista Nature.
Mais de 100 personalidades também foram contactadas - como James Watson ou Sydney Brenner, ambos premiados com o Nobel da Medicina. A todos estes contactos não é alheio o facto de o centro de investigação Champalimaud também ter uma dimensão académica, que passará pelo ensino pós-graduado e a realização de encontros científicos. Da lista das instituições contactadas serão escolhidas as que virão a dar essa formação, no estrangeiro ou em Portugal, com a sua garantia de certificação.