Dois milhões de anos depois

Cientista americano desvenda mistério da morte da criança de Taung

Berger diz que a descoberta tem uma importância crucial no estudo do processo de evolução
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Berger diz que a descoberta tem uma importância crucial no estudo do processo de evolução Denis Farrell/AP

A criança de Taung, um australopiteco que morreu há cerca de dois milhões de anos, encontrado há 80 anos na África do Sul, foi morta por uma águia, revelou hoje, em Joanesburgo, o investigador norte-americano Lee Berger.

"A criança de Taung foi morta [aos três anos e meio de idade] por uma águia", afirmou Berger numa conferência de imprensa na Universidade de Witwatersrand, baseando-se em investigações realizadas nos últimos dez anos.

De acordo com o investigador, esta descoberta tem uma importância crucial no estudo do processo de evolução, na medida em que vai ao encontro da hipótese de que os principais predadores dos antepassados do Homem eram as aves.

"Nós éramos presas das aves e isso moldou o nosso comportamento", desde o caminhar ao viver em grupo, explicou Berger.

Encontrada em 1924, a criança de Taung – cujo sexo não é conhecido – abalou a comunidade científica quando Raymond Dart sugeriu, em 1925, que se tratava de uma forma de primata, o Australopithecus africanus. Dart pensou que o crâneo era o "elo perdido" da evolução entre os símios e os seres humanos. Mas poucos estavam dispostos a acreditar que a humanidade tinha começado no continente africano.

Durante décadas pensou-se que a famosa criança de Taung tinha sido comida por um leopardo ou por um tigre-dente-de-sabre.

Mas há dez anos, Berger e um colega sugeriram que a criança foi morta por uma ave de rapina de grande porte. Os investigadores estudaram vários crânios encontrados e concluíram que as marcas deixadas por aves ou felinos eram diferentes. Intrigado, Berger voltou a analisar o crânio da criança de Taung, nomeadamente o interior das órbitas do fóssil, e concluiu que os olhos da criança terão sido arrancados pelas garras de uma águia.

"Isto mostra que nunca devemos deixar de investigar. Só porque alguma coisa foi estudada durante anos [e o crânio de Taung é, talvez, o fóssil de hominídio mais analisado do mundo] isso não quer dizer que não se possam descobrir coisas novas", disse Berger.

Os resultados da investigação de Berger serão publicados "brevemente" no "American Journal of Physical Anthropology".