Manuel Antunes O padre que lia Homero e Marx

Congresso sobre padre Manuel Antunes revelou personalidade que marcou o século XX português. Um homem que escolheu "com o coração"

A "projecção" da herança intelectual do padre jesuíta Manuel Antunes, que foi professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, "começa agora", disse ao PÚBLICO Arnaldo Espírito Santo, vice-presidente do conselho directivo daquela faculdade e um dos principais responsáveis pelo congresso internacional que, durante três dias, evocou a figura de Manuel Antunes. Em Lisboa (quinta e sexta) e na Sertã (sábado), terra onde nasceu o professor universitário, 60 especialistas e 300 participantes debateram a vida e o pensamento de Manuel Antunes. Memórias, reconhecimento de um pensamento único, ideias e temas tratados pelo padre jesuíta, passaram pelo congresso.
Algumas constantes marcaram muitas intervenções: a raridade do pensamento e da vasta cultura de Manuel Antunes no século XX português; a actualidade e universalidade dos seus escritos e uma mensagem que ultrapassa o seu tempo; a figura humana de "conciliador nato, mas não eclético", na expressão de Eduardo Lourenço; a opção clara pela democracia e pela justiça social.
Porque é que uma obra assim esteve quase ignorada durante duas décadas, desde a sua morte, em 1985? A dispersão dos textos de Manuel Antunes impossibilitou a Faculdade de Letras e a Companhia de Jesus, suas herdeiras naturais, de tornar visível o seu pensamento, admite Arnaldo Espírito Santo.

"O mais cultivado dos críticos literários"
Leitor dos clássicos, Homero era o seu preferido - para não falar da Bíblia, primeira referência de vida. Mas a vasta cultura levava-o a ler também "autores católicos, protestantes, marxistas, existencialistas", como recordou Arnaldo Espírito Santo. Num tempo de proibições políticas, Manuel Antunes escrevia sobre marxismo, China ou União Soviética. A cultura de Manuel Antunes era de tal modo vasta que o professor tanto se referia ao logos do evangelho de S. João, como Virgílio, ou às aventuras de Tarzan e Robinson Crusoé, acrescentou Arnaldo Espírito Santo, na intervenção que fez no congresso.
João Bénard da Costa, director da Cinemateca, refere-se a Manuel Antunes como "o mais cultivado e o mais criador dos críticos literários". Recorda-se de ter ido falar com Manuel Antunes sobre cinema e ter saído "esmagado" da conversa em que o jesuíta lhe citara autores, edições e traduções, de memória.
"É inesgotável a lista das suas paixões, como é inesgotável a sua erudição", dizia Bénard da Costa, que ontem o evocou, na sua coluna de opinião no PÚBLICO. Medeiros Ferreira recordou que, um dia, passou a sebenta do seu professor ao então capitão Ernesto Melo Antunes. "Li uma sebenta que me encantou: a do padre Manuel Antunes", diria o militar muito mais tarde, pouco tempo antes de morrer, na entrevista a Manuela Cruzeiro, editada em livro.
Apesar da sua erudição, "Manuel Antunes nunca privilegiou o aspecto apologético das suas profundas convicções religiosas e metafísicas", disse Eduardo Lourenço, na intervenção escrita que enviou ao congresso (motivos de última hora impediram-no de estar presente, tal como ao filósofo Edgar Morin). O ensaísta acrescentou: "A sua escolha de vida e de pensamento foi essa, da ordem do coração."