António Lobo Antunes "Passámos muito tempo a morrer juntos"

O general Ramalho Eanes, o escritor Daniel Sampaio e o pintor Júlio Pomar estiveram na sessão. Lobo Antunes preferiu deixar falar as filhas e antigos companheiros de armas

António Lobo Antunes não quis ontem sentar-se na mesa de oradores do aguardado lançamento de D"este viver aqui neste papel descripto. À chegada a uma Gare Marítima de Alcântara cheia, o escritor abraçou com força, um a um, os companheiros de armas da Guerra Colonial reunidos e, em declarações breves à imprensa, explicou: "Não são meus amigos, são meus camaradas de guerra, que é muito mais que isso." Depois, ainda comovido, deixou-se ficar de lado enquanto quatro deles participaram na apresentação do livro.Editado pela Dom Quixote, D"este viver aqui neste papel descripto reúne as transcrições integrais dos mais de 300 aerogramas que Lobo Antunes mandou de Angola à primeira mulher, Maria José Xavier da Fonseca e Costa, entre 7 de Janeiro de 1971 e 30 de Janeiro de 1973. As duas filhas do casal, Maria José, de 34 anos, e Joana, de 31, receberam as cartas entre o espólio da mãe e publicam-nas, como pedido por esta, apenas depois da sua morte.
Os textos, escritos ao correr da pena, são "cartas da guerra e não de guerra", disse João Paixão, da Dom Quixote, o primeiro orador da tarde: "A guerra não é o tema principal, mas está lá sempre, em segundo plano. São cartas da guerra porque dela foram remetidas." João Paixão explicou ainda que cada pessoa lerá de maneira diferente a "força dos silêncios e das ausências" destas missivas.
Joana Lobo Antunes falou também brevemente para explicar que, para si, "este livro é a vida", mas não só a da sua família: "É a vida dos nossos pais e de tanta gente que se viu obrigada a interromper as suas." Nas cartas está "o absurdo de desejar que dois anos passem rapidamente."
Um livro como "um baú de memórias há muito fechado": Joaquim Mestres, o primeiro dos quatro companheiros de guerra de António Lobo Antunes a tomar a palavra, disse que relembrar o dia 6 de Janeiro de 1971, quando todo o batalhão de artilharia 3835 embarcou daquela mesma Gare Marítima de Alcântara "é de uma violência incrível, tanto para quem partiu como para quem ficou na gare a ver soltar amarras". Falou também do frenesim das quartas-feiras, quando chegava ao Ultramar o avião com o correio da Metrópole. Falou do silêncio que logo depois caía sobre o quartel e de como Lobo Antunes se fechava no quarto, sozinho, sem nunca ter deixado que alguém lesse uma linha do que escrevia.
Esses momentos em que o mais velho da companhia se escapava eram vistos "como preguiça", uma fuga às tarefas comuns e ao convívio, recordou José Luís Henriques. Explicou também que só em D"este viver aqui neste papel descripto percebeu que já na altura o alferes miliciano médico Lobo Antunes desejava ser escritor: "Tu, maroto, escondeste-nos parte importante da tua vida."
Está no prefácio: "As cartas deste livro foram escritas por um homem de 28 anos na privacidade da sua relação com a mulher, isolado de tudo e todos durante dois anos de guerra colonial em Angola, sem pensar que algum dia viriam a ser lidas por alguém."

806 dias de exílioO cheiro de África, a paleta de cores do pôr-do-sol, uma trovoada, os sons da mata durante a noite, o perigo, o medo, a expectativa do amanhã, a camaradagem: com a voz embargada, Joaquim Mestres disse ao escritor: "Tu podes descrever isso melhor que ninguém."
José Martins Jorge falou no "tardio mas oportuno desabafo" de uma geração que viveu "um tempo fora do tempo" e também se dirigiu a Lobo Antunes: "Estaremos contigo até sempre." No fim, de novo à imprensa, o próprio Lobo Antunes acabaria por voltar a falar na intensidade desses "laços inquebráveis": "Passámos muito tempo a morrer juntos."
Foram "806 dias de exílio", disse Boaventura Martins, outro companheiro do escritor. "Nós nascemos com Salazar, vivemos com o Marcelo e fomos educados a odiar a PIDE", explicou. "A seis de Janeiro de 1971 vimos destruídos os sonhos, adiados os planos, interrompida a vida. Ainda hoje agradecemos a Deus por termos regressado vivos. Passados mais de trinta anos ainda não conseguimos deixar de sofrer."
"Quem conhece o Lobo Antunes sabe que por detrás da sua aparente carapaça de distanciamento, apenas protectora da sua timidez, se esconde um poço de afecto", disse Boaventura Martins: "Isso transparece em cada uma destas cartas."
No fim, e "depois de tantas palavras tão intensas", a filha mais velha do escritor quis apenas agradecer aos pais pelas "razões mais que óbvias": "Este livro é a prova de que um homem pode ser derrotado mas não vencido."
Lobo Antunes ainda não leu a versão final de D"Este viver aqui neste papel descripto. Disse que não sabe se o vai fazer.