Nova ampliação do Museu Rainha Sofia quer ser ícone da arquitectura de Madrid

A ampliação do Museu Rainha Sofia vai duplicar os seus espaços públicos. Um edifício espectacular desenhado por Jean Nouvel que coloca Madrid no roteiro dos novos museus pós-Guggenheim

"Este edifício introduz uma outra forma de fazer cidade, outra camada que não faz parte da linguagem de Madrid. Isso foi um desejo audaz, um risco"

Jean Nouvel arquitecto (na foto)

"O centro de arte não desaparece, nem pode desaparecer, é uma função primordial. A ideia era só mudar o nome demasiado comprido, mas ficou a polémica"

Ana Martínez directora

"Magnífico espaço da melhor arquitectura contemporânea, um ícone arquitectónico
de Madrid"

Juan Manuel Urgoitipresidente do patronato
A cidade de Madrid vai passar a ter um novo ícone com a ampliação do Museu Nacional Centro de Arte Rainha Sofia que amanhã será inaugurado pela rainha. O edifício assinado pelo arquitecto francês Jean Nouvel foi apresentado à imprensa nacional e internacional numa mediática operação que levou este fim-de-semana centenas de jornalistas à capital espanhola.
Quando o público entrar neste conjunto composto por três edifícios em que domina o vidro, os materiais reflectores e a cor vermelha, o que vai encontrar para ver de novo é o próprio edifício. Foi isso que o Rainha Sofia optou por mostrar agora à cidade: a nova arquitectura de Jean Nouvel, uma referência mundial, autor de obras como o Instituto do Mundo Árabe em Paris, da Ópera de Lyon ou da recém inaugurada Torre Agbar, em Barcelona.
A obra custou 92 milhões de euros, disse aos jornalistas a ministra da Cultura Carmen Calvo, não se tratando de "uma simples ampliação", mas de "uma possibilidade extraordinária" que aumenta em 60 por cento o espaço disponível. O conjunto dos três edifícios é unido por uma praça pública coberta e oferece salas de exposições temporárias, dois auditórios (um de 500 lugares), uma biblioteca (com 100 postos de trabalho), uma livraria de arte, uma cafetaria-restaurante (dirigida por Sergi Arola, uma das coqueluches gastronómicas da cidade) e vários terraços que permitem descobrir Madrid.
Foi o presidente do patronato do museu, Juan Manuel Urgoiti, que desvendou "a ambição" do novo Rainha Sofia, pondo-o lado a lado "com a corrente de remodelação mundial" dos grandes museus, como o MoMA de Nova Iorque, a Tate Modern de Londres e o Centro Pompidou de Paris. Felicitou Nouvel por este "magnífico espaço da melhor arquitectura contemporânea", que será "um ícone arquitectónico de Madrid". A directora Ana Martínez de Aguilar, no cargo há um ano e nomeada pelo governo socialista, elogiou a sua "eficácia cenográfica", "a linguagem potente e audaz", acrescentando que "a arquitectura de Nouvel é uma obra de arte em si".
O Museu Rainha Sofia situa-se no chamado Paseo del Arte madrileno, onde se encontram também os museus Prado e Thyssen, que apostaram igualmente em grandes ampliações e remodelações, já terminadas ou a decorrer. O Rainha Sofia é aquele que apostou mais claramente numa obra espectacular, sendo possível inscrevê-lo no chamado "efeito Guggenheim de Bilbao", o museu de Frank Gerhy no País Basco que mostrou que os visitantes são também atraídos pela assinatura do arquitecto para além das colecções e exposições temporárias.

Fora da tradição espanholaJean Nouvel quis começar por falar de "emoções", sublinhando que esta era a primeira visita pública ao museu - uma censura velada ao facto da programação do museu ter antecipado um ano a abertura das salas de exposições temporárias, antes das obras estarem terminadas. O arquitecto francês disse que o seu "é um edifício ambicioso, uma arquitectura de museu que antes não existia". Depois, em resposta a algumas críticas, disse que o Rainha Sofia não se incluiu na tradição da arquitectura espanhola, baseada no tijolo e no betão: "Este edifício introduz uma outra forma de fazer cidade, outra camada que não faz parte da linguagem de Madrid. Isso foi um desejo audaz, um risco."
Mais tarde, Nouvel explicou ao PÚBLICO que esta nova atitude, "alta tecnologia" associada à "arquitectura do vidro", pode levar as pessoas a perguntar "porquê tanto vidro, porquê tanto aço" num clima quente como o de Madrid. Mas "o edifício não é uma cortina de vidro, porque o vidro está protegido pelo telhado e por venezianas". "Não podia ter feito este edifício em Paris. As minhas obras são sempre contextualistas", continuou, mas não quero fazer "um neo-regionalismo".
A sua primeira ideia para o projecto foi fazer "um fragmento de cidade", "um pequeno bairro protegido pelo edifício de Sabatini", o arquitecto que construiu no século XVIII o hospital onde o Rainha Sofia se instalou em 1988. Mas essa protecção, esse estar à sombra, parte também da ideia de "dissociação", de "linguagens diferentes" entre o novo e o antigo. "Quis deixar o edifício de Sabatini completamente intacto. Eles não se tocam. A ampliação pára a um metro", afirma o arquitecto.
Na conferência de imprensa, onde Nouvel partilhou o palco do auditório de 500 lugares com a ministra, a directora e o presidente do patronato, o arquitecto disse que o edifício de Sabatini, onde será apresentada a colecção permanente do museu, tinha "uma força enorme pela sua massa", "compacta", e que o novo conjunto era "o mais aberto possível", oferecendo "o museu à cidade". Os três edifícios "formam uma praça urbana", mas são "independentes e complementares", cada um com a sua função distinta e entradas diferentes.
Nouvel sublinhou também a originalidade da nova praça urbana, coberta mas onde abriu buracos. Uma cobertura capaz de produzir "luz e sombra" de matizes diferentes, com uma versatilidade plástica que devolve a cidade vizinha invertida mas também propõe enquadramentos mais abstractos a quem nos terraços quer contemplar o céu.

Plano museológico abre polémica
O vermelho da cobertura foi Nouvel buscar ao tijolo tão presente na cidade e às próprias telhas. A mesma cor é usada dentro e fora do auditório, revestido a "composite", uma mistura de fibra de vidro e poliéster.
Nouvel explicou que a grande cobertura é revestida a zinco e a painéis de alucore, conhecidos como "painéis colmeia", um material "muito leve e liso". "Reflecte uma luz muito suave", disse Nouvel, que acabou a conferência a dizer que estava muito contente por ter cada vez mais trabalhos no sul: "A minha alma é mediterrânica."
Em Espanha, o novo museu tem estado envolto em alguma polémica, sendo que a maior não passa pela arquitectura estranha à tradição espanhola mas pelo plano museológico apresentado pela nova directora, com acusações de que o Rainha Sofia quer deixar de ser um centro de arte para passar a ser apenas um museu virado para os turistas.
Na véspera da primeira visita ao Rainha Sofia, o diário El Mundo dava voz aos criadores de 40 anos, dizendo um deles que ampliação e plano "não fazem mais do criar um vestíbulo para a Guernica". O Rainha Sofia tem uma colecção permanente de arte moderna e contemporânea espanhola, que começa em 1881 com o nascimento de Picasso - Guernica é a grande atracção deste museu que em 2004 recebeu 1,5 milhões de visitantes. Ontem, o El País defendia a solução de Nouvel, que aponta para "um projecto muito polivalente".
"O centro de arte não desaparece, nem pode desaparecer, é uma função primordial", afirmou Ana Martínez de Aguilar ao PÚBLICO. Na origem desta polémica, a directora diz que esteve "um erro de comunicação" do próprio museu: "Propusemos mudar o nome do museu para Museu Nacional Rainha Sofia. A ideia era só mudar o nome, demasiado comprido, mas ficou a polémica."
Nos próximos três anos, Ana Martínez diz que o programa de exposições temporárias propõe 38 exposições, "sendo apenas oito revisões históricas". As outras são de "artistas vivos, de primeira linha ou emergentes", entre as quais uma antológica de Paula Rego, que tinha estado na véspera no Rainha Sofia a discutir a exposição. Martínez sublinhou que com esta ampliação o museu se abre à música contemporânea, à dança, à performance, ao cinema, ao audiovisual - "o edifício mostra uma sensibilidade pela interdisciplinaridade" e "favorece o estudo e a investigação".
A mudança de nome do Rainha Sofia deverá levar ainda dois anos antes de ser aprovada pelo Parlamento, disse a directora de comunicação do museu, Miriam García Armesto. Mas o lettering da ampliação e todo o material gráfico apontam já para o novo baptismo, com as palavras "centro de arte" desenhadas a letra mais fina.

O PÚBLICO viajou a convite do Museu Rainha Sofia